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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 17.04.15

memória para adelino tal e qual entre sol e pó

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A 210 quilómetros da grande cidade, o sorriso de Adelino convida a um copo na sua adega, com azeitonas e meio casqueiro na mão. Lava os copos na água fria de um garrafão empalhado («Esta é do furo!») e bebemos à nossa saúde e dos netos. Saudamos o passado e o futuro porque o presente são os filhos que estão a trabalhar. Empurra as galinhas com um gesto largo mas elas não desistem. O vinho é morangueiro mas é muito bom. Largos minutos depois, ainda as mulheres estão a despejar a bagageira do automóvel, já Adelino sorri de novo («Eu não dizia?») e os sacos de plástico não acabam. Desce comigo até à casa velha da outra banda para mostrar como a ribeira vai seca e lamenta: «Assim as nascentes não rebentam!» Obriga-me a aceitar um saco de plástico cheio de pinhas para acender o lume e meia dúzia de ovos para fritar com azeite «do nosso». Adelino é guloso mas quem não será guloso com estes ovos amarelos de galinhas que só comem milho «do nosso»? Passa o peixeiro, passa o padeiro, passa o rapaz dos Correios; cada um com o seu apito estridente marca o ritmo do dia nesta aldeia. Outro som sai do posto público, uma casinha de cortiça, de onde Adelino aparece depois de chamar um táxi. No seu português dirá «já chamei o carro de praça!» porque nunca se vai habituar a dizer táxi. Amanhã, tal e qual, entre o sol e o pó, Adelino repetirá o convite, entre sorrisos e cumplicidade - «Quer vir à vila mais eu? Já vem aí o carro de praça!». Na ponte sobre a ribeira que vai seca («e já vamos em Março, veja lá») Adelino é um perfil, uma mistura de memórias e de sombras, num gesto galhardo de votos de boa viagem para nós, os de Lisboa. Obrigado Adelino, até sempre! Daqui até à vila ainda sou capaz de me cruzar com o seu «carro de praça». --

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por José do Carmo Francisco às 08:38


1 comentário

De Joaquim Nascimento a 17.04.2015 às 10:33

Bela memória, Poeta, de Adelino e do vosso copo de tinto, um tinto de mão em mão, como as pombinhas da Catrina e da vossa terra, um copo de tinto, sim porque ali, como na minha terra, vinho é tinto, morangueiro ou não, que agora já nem deixam fazer.
Às azeitonas do petisco eu juntava uma lasca de bacalhau cru,apetecia-me mesmo, ainda que tivesse que o passar pela mesma água com que se lavam os copos, para lhe retirar uma parte do seu sal, oh mar salgado etc.
Mas de bacalhau percebe você, Poeta, e não deixará de presentear Adelino com uma posta dele, com ovos cozidos, desta vez, em vez de fritos e umas "vagens" acabadinhas de apanhar.
Estava-se tão bem na nossa terra, Poeta!
Joaquim

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