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Transporte Sentimental



Sábado, 05.11.16

maria alzira seixo - do «diário do lago» ao lago diário

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Começo por uma nota de «mea culpa» pois em 2001 este livro de Maria Alzira Seixo (Edições ASA) passou-me ao lado. Quinze anos depois no essencial nada mudou. Ainda bem. Este livro de 71 páginas e 58 poemas invoca o cinema na sua abertura/dedicatória (Katharine Hepburn – Audrey Hepburn) mas também na referência ao filme «Intriga Internacional» e ao actor Cary Grant no poema da página 55 «Auto estrada 41». Katharine Hepburn por exemplo foi protagonista do filme «A casa do lago». Além do cinema o livro tem a música, já lá vamos. O ponto de partida será o Lago Michigan («O lago é um exercício livre de criar um tempo rigorosamente medido») mas não será abusivo considerar referente deste livro e destes poemas o Lago do Tejo (o Mar da Palha) que parte de Lisboa e chega a Cacilhas, ao Montijo, a Alcochete, a Sarilhos Pequenos, ao Barreiro, à Moita e ao Seixal. A autora que nasceu no Barreiro cruzou de barco este «lago diário» muitas vezes e em algumas ocasiões se viu obrigada a tomar um táxi na Faculdade de Letras (primeiro como aluna, depois como professora) para não perder o último barco para o Barreiro.

Não por acaso o lago pode ser uma metáfora onde se inscreve a vida (ela mesma): «É um filho o barco a quem dizemos adeus de uma constante partida». Mas sempre o registo do quotidiano: «Acordar com o dia alagando a casa toda. Olhar a luz do lago na vidraça. Subir o som do rádio.» A música (uma das paixões da autora) está nos poemas da página 21 («Brendel ao piano»), da página 32 («Caso seja possível ouvir, ao mesmo tempo, as «Gymnopédies» de Satie, o efeito desconjunta-se e a sensação reproduz-se»), na página 34 («O piano exibe a sua fala desdobrada, os dedos são línguas articuladas aos dentes do teclado incontido») ou da página 69: «Não têm crinas mas vento os cavalos do lago. Os jorros de música acendem-lhes os olhos da inspiração fugaz de um vôo atravessado, onde a voz paira, decisiva: War es so schmälich, was ich verbrach…» Em resumo: um belo livro que só descobri quinze anos depois da edição mas ainda a tempo. --

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por José do Carmo Francisco às 11:55



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