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Transporte Sentimental



Terça-feira, 19.04.16

«livro (s) do desassossego» de fernando pessoa

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Esta edição de Teresa Rita Lopes vem (mesmo) inovar o «Mundo Pessoano» pois prova que aquilo a que sempre se chamou «Livro do Desassossego» são, afinal, três livros com três autores: Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. O primeiro livro data de 1915 a 1920, o segundo é de 1928 e o terceiro de 1929. O livro de Vicente Guedes (164 páginas) começa por se definir («Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida»), por se explicar melhor («Este livro não é dele: é ele») e por concluir: «Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; sonhar foi uma religião». O que está em causa na página 91 é a sua vida: «A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro acto se representou.» Na página 42 surge uma variante: «A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos deuses, de que só primeiro acto se representou». Trata-se aqui do intervalo entre o silêncio e a glória: «A celebridade é uma indelicadeza. Dar nas vistas é ser desprezível. O homem realmente superior existe todo na consciência da sua superioridade, sem que precise de comprar tabuleta, sem atenção à superioridade que os outros possam ver nele.» O livro do Barão de Teive ocupa 34 páginas e as suas reflexões oscilam entre a ideia de agir ou de não agir: «O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender.» Mas também oscila entre a justiça e a certeza: «Quantas coisas que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo?» O terceiro livro tem 230 páginas (Bernardo Soares é Fernando Pessoa escrito de outra maneira) e reflecte sobre a Arte na Rua dos Douradores: «O patrão Vasques é a Vida. E se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a Vida, este meu segundo andar onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente». Surge no livro uma aguda noção da posteridade («Um dia terei enfim a gente que me compreenda, os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado.») e também de futuro: «Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever nato de intérprete de uma parte de um século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido.» (Editora: Global São Paulo Brasil, Capa: Homem de Melo & Troia Design, Revisão: Deborah Stafussi, Edição executiva: Jiro Takahashi, Direcção editorial: Jefferson Alves) --

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por José do Carmo Francisco às 13:12



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