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Transporte Sentimental



Domingo, 26.04.15

levi condinho ou uma crónica de 1995 que não foi publicada em «a bola»

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Tinha como título «Arqueologias do Sentimento» e integrava-se na rubrica «As visitas de sábado à tarde» mas não foi publicada devido à «reestruturação do jornal». Aqui fica: «Arquitectura e arqueologia. Duas distintas actividades humanas que, na classificação disciplinar do saber, frequentemente dialogam e se entrelaçam. A Arquitectura é, provavelmente, a mais democrática e «aplicada» das Artes. Sei que há muitos especialistas que discordam deste juízo, pela possível carga desprestigiante que esse utilitarismo conceptual possa trazer à Arte em si. Mas não é este o espaço apropriado para polémicas desse tipo; e digo democrática, porque objecto de convívio, utilização, apropriação, gosto ou desgosto do mais comum dos cidadãos. O cronista será, entre outras coisas, pela abordagem, evocação, prospecção às sombras do passado, à memória dos factos, objectos e pessoas que por alguma «obra valerosa» se distinguiram, um arqueólogo de sentimentos. Interessou-me esta introdução para criar a atmosfera propícia a me pronunciar um pouco sobre um dos bairros mais característicos de Lisboa, no qual sempre encontrei um pequeno e inusitado toque de «diferença», precisamente o Bairro de Campo de Ourique, cuja história não será das mais antigas no contexto variegado dos múltiplos «lugares» de Lisboa – esse mosaico histórico/arquitectónico sempre em movimento, sempre em metamorfose, sempre esfarrapado, organismo vivo, por vezes «doente», como, de resto, qualquer grande metrópole deste conturbado mundo. Campo de Ourique sugere-nos uma ténue ambiência finissecular, republicana e airosamente pequeno-burguesa no seu carácter de transição do século XIX para o XX, marcado por alguns belos imóveis Arte Nova e Art Déco, um deles (a precisar de alguma reparação) com lápide alusiva à Revolução de 1910. Temos depois o traçado protomodernista dos arruamentos cujo núcleo central, numa das zonas principais se «resolve» no belo Jardim da Parada, com o seu monumento à Maria da Fonte e uma boa diversidade de árvores e arbustos, lódãos, palmeiras, coríseas, ameixieiras de jardim que constituem um pequeno pulmão para as crianças que brincam e para os reformados que ali vão utilizando o seu tempo jogando às cartas, conversando, recordando. Pena é, aí como em toda a cidade (como em todo o país) que os utentes e visitantes não tenham um mais arreigado amor ao que é seu … sempre o lixo no chão ou a destruição gratuita, algures. Há ainda noutra zona central, a Igreja do Santo Condestável, inaugurada em 1951, exemplo de arquitectura religiosa modernista/nacionalista, esteticamente afim de outros templos edificados em Lisboa nas décadas de 30 e 50. E não posso deixar de referir a velha catedral da Dança de Salão que é a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, fundada em 26 de Maio de 1872, bem como a recente e esplêndida inovação que constitui a recuperação e aproveitamento da Casa Fernando Pessoa. Quando em Janeiro de 94, pela primeira vez entrei no pequeno quarto onde o genial e enigmático poeta viveu parte da sua via, não pude evitar um estremecimento interior, uma comoção breve e enternecida por tanta modéstia para tamanha grandeza. Mas e voltando à «arqueologia sentimental», grandes não são só as figuras da Poesia, da Arte e da Cultura. Campo de Ourique é, ainda e sempre, o seu Desporto, o seu glorioso Clube Atlético, os seus antigos ases do Ciclismo como João Francisco, José Brás, Quirino de Oliveira, José Marquês, Ezequiel Lino ou José de Albuquerque, «O Faísca». É de notar que, no início dos anos 40, por várias vezes e com imensas dificuldades financeiras e logísticas, foi o Atlético de Campo de Ourique o organizador da Volta a Portugal. E esquecer o Hóquei em Patins seria indesculpável. O C.A.C.O. foi Campeão Nacional de Seniores em 1954 e, por diversas vezes, em Juniores, tendo fornecido à Selecção Nacional jogadores famosos como Pompílio, Bernardino, Vaz Guedes e António Matos a quem foi atribuído o epíteto de «o gato do ringue». Em 27 de Maio de 1955, Matos, mesmo com cinco dentes partidos num treino, foi defender estoicamente as cores nacionais em Itália. E jamais esquecerei aquela final em Montreux, 1954, em que vencemos a Espanha por 1-0, golo de penalty de António Figueiredo do Infante de Sagres, com a consequente vitória no importante Torneio daquela cidade, em que Matos, contra a fúria dos Puigbós, Orpinellis & Cª, defendeu tudo… o possível e o impossível. Raras eram as alegrias colectivas do humilde povo português, por esses tempos. Assim, terminado que foi o relato de Amadeu José de Freitas na Emissora Nacional, o foguetório estalou, festivamente, por toda a parte nessa noite de segunda-feira pascal. Levi Condinho --

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por José do Carmo Francisco às 18:11



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