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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 25.07.14

leituras de 2009 - «a casa e as sombras» de joaquim do nascimento

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Este é um título feliz para o conjunto de 18 crónicas sobre uma aldeia do Alto Douro (Pereiros) e os seus quotidianos entre 1930 e 1980. A casa pressupõe sinais de vida; as sombras são sinais de morte. Entre a vida e a morte, estas crónicas são povoadas por pessoas e pelas suas memórias. Ou seja: «As casas fizeram-se para serem habitadas. Mas não chegaram a cumprir o seu destino, mudada que foi a sina de quem lá iria viver e, desabitadas, começaram a sofrer de frio, a criar fantasmas, a revelar segredos antigos. E o povo começou a olhá-las de lado.» O autor domina a geografia do espaço («Esta rua, sem deixar de ser a mesma, toma várias designações ao longo da sua extensão: Fonte da Ladeia, Rua de Cima, Cômbaro, Fundo do Povo, Rua de Baixo, Acácias») mas também a dos afectos a partir dum retrato a enviar para Angola: «Vê lá tu António estão lindas as nossas filhas, olha como cresceram e se fizeram mulheres. Que mal te fizemos nós, António?» A partir de uma foto de estudantes surge outra memória: «Sinto um terno prazer em revisitar cada um de vós, nome, rosto, voz, a circunstância, a terra, já soube de cor a terra de cada um de vós, nesse tempo era mais natural perguntar a alguém donde és do que perguntar quem és porque o lugar onde se nascia era um elemento importante da identidade». Entre a casa e as sombras fica o registo das tarefas agrícolas («Vindimas pobres, sem rogador, nem rancho, nem concertina, nem ferrinhos, nem bombo») dos artistas de ofício («carpinteiro, pedreiro, sapateiro, modista, alfaiate, tecedeira, ferrador, barbeiro») e das viagens: «Da Meda para o Pinhão era jornada de meio-dia. Antes do Vilarouco fica os Pereiros, aqui entrava pouca gente e saía ainda menos, mas quem quisesse ir dos Pereiros a Penedono ao mercado quinzenal subia a pé o Monte Airoso que começa nas margens do rio Torto, Póvoa, Bebezes, Granja, Santa Eufémia, o castelo sempre à frente, para descer à tardinha. A Fernanda sabe.» (Editora: Padrões Culturais, Apoio: Associação Amigos de Pereiros, Capa: Mário Andrade) --

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por José do Carmo Francisco às 19:32


1 comentário

De Joaquim Nascimento a 25.07.2014 às 20:11

Obrigado, Poeta, por ter voltado comigo aos Pereiros, na Carreira da Viúva que já nem passa, para me lembrar a mim, antes de mais ninguém, o tempo inicial que ali vivi e que marcou a minha vida de forma tão indelével. E voltou mesmo na véspera da Festa anual que se celebra neste fim de semana, a festa do Padroeiro, São Salvador do Mundo, veja só a pretensão do Santinho, que para cativar os adeptos do futebol e os cronistas de guarda-redes, como você, segura na mão uma bola de razoável tamanho. Se fôr a Pereiros & Douro, no facebook, apresento-lhe essa figura, mas devo dizer-lhe que ainda temos uma outra idêntica e mais bem vestida porque não foi repintada como fizeram a esta, num tempo que a memória dos vivos já não abarca. Penso que já lho anunciei, mas há amigos que querem ir comigo a a Riolindo para encenarem "A Prova do Fogo" e, nessa altura você será meu convidado particular para eu lha apresentar os santos e os demónios da minha meninice e até as minhas primeiras namoradas que me vão morrendo. Porra, Poeta! O meu obrigado muito sincero.

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