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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 08.02.17

lamentação para o menino atónito na cidade frente ao tejo

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Eu não vi o teu olhar porque não estava junto a ti quando foste mandado embora às treze horas por causa dos parasitas. Não tenho a certeza mas sinto que estavas atónito naquele momento. De uma coisa tenho a certeza: há duas coisas que nunca acabam no Mundo, a paisagem e a estupidez. Podes entrar num comboio aqui em Lisboa e ires até à Mongólia (a terra do nosso amigo pintor Ruslam Botiev) e a paisagem nunca acaba porque é sempre diferente na janela do comboio. A estupidez também se renova e aparece de modo inesperado, com as pessoas inesperadas e nas situações inesperadas. Esta dos parasitas na tua cabeça, nos teus caracóis, doeu ainda mais porque tu não és a origem dos parasitas mas apenas uma vítima lateral. Não podes ser o bode expiatório do drama no qual são outros os protagonistas. Por ti sou outra vez menino, outra vez vítima da brutalidade daquela mulher do Montijo para quem «os filhos dos motoristas não vão para o Liceu», por ti sou outra vez o menino atónito perante o director escolar inflexível que não me deixou entrar na Escola Primária do Montijo antes de fazer sete anos mesmo sabendo que logo em Fevereiro de 1959 ia fazer oito anos e continuava na primeira classe. Eu não vi o teu olhar no momento de sair à pressa pelas treze horas desse dia mas tenho quase a certeza que além de atónito estavas incrédulo e surpreendido. A violência sem limites contra ti, contra a tua inocente boa-fé, contra a limpidez do teu olhar é uma violência tão brutal e tão sem razão de ser que não tem perdão. Eu nunca vou esquecer a injusta exclusão por causa dos parasitas nos teus caracóis iluminados pelo Sol. Ao menos esse continua a encher de luz os teus cabelos, indiferente à cidade onde a estupidez tomou conta da ruas e das praças, das calçadas e das travessas. --

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por José do Carmo Francisco às 13:34



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