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Transporte Sentimental



Terça-feira, 01.11.16

joana ruas - «todos os anos em novembro»

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Com a devida vénia transcrevo uma memória justificativa e um poema de Joana Ruas: «Todos os anos em Novembro é Primavera no jardim dos mortos. Todos os anos a face dos mortos, entre lágrimas e flores, se oculta. Cria-se entre a massa dos vivos um elo de irmandade no luto. Se confraternizamos na alegria, na dor que nos irmana existe uma separação sagrada. Somos parecidos no riso e diferentes nas lágrimas. Foi em Roma que compreendi, através das esculturas mandadas erguer pelas mães q seus filhos falecidos, do que de triste, carnal e terno é feita a Piedade. Michelangelo Buonarroti prestou-lhe um verdadeiro culto, legando ao mundo a representação esculpida mais formosa deste complexo sentimento – a Pietà. A mutos causa estranheza a extrema juventude patenteada no rosto da Virgem Mãe que colhe no regalo o seu filho Jesus Cristo, morto na cruz. Facto é que velho, jovem, criança ou recém-nascido, um filho morto é um antepassado vivo, pois franqueou primeiro a passagem para esse tempo sem duração que é a Eternidade. Foi diante de uma dessas inumeráveis esculturas que escrevi este poema que dedico a todas as mães órfãs de seus filhos.» Um túmulo romano Deitado num coxim de pedra nua / O adolescente morto, morria / Sonha-lhe no ombro a cabeça fria. Aquece-lhe a mão maternal a coxa de mármore / Imóvel e latino renascia / Num corpo de pedra fria. Ferida pelo silêncio que a ignora / Envolve-o a mãe com o olhar que a morte estremece. / Apega-se-lhe à memória o peso triste / Do repousado olhar do corpo a que assiste / E na pausa sensual do corpo / Ressuscita o olhar morto / Que reflecte o olhar que olha / A calma mudez daquele olhar sem olhar. Sofria-lhe na memória o que sofrera / E no pálido assombro que a envolvera / Círios de paixão ardiam nos escombros / Das margens de um tempo que silenciosas fugiam. Pelos rios da tarde estival / Do passado lhe traziam / Do amor ausente a taça vazia. Deitado num coxim de pedra nua / O adolescente morto, morria / Sonhava-lhe no ombro a cabeça fria. (Roma 1978) --

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por José do Carmo Francisco às 11:27



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