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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 05.11.15

«jacarandá» de francisco duarte mangas

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Francisco Duarte Mangas (n. 1960) poderia ter chamado a este livro «Pátria cabisbaixa» (pág. 69) ou «Morte minuciosa» que é um título de Orlando Neves porque são 41 os capítulos desta dissertação sobre um crime julgado em 1941 na cidade do Porto. Ao contrário das frases feitas. Portugal nem é um país de poetas nem de brandos costumes. O analfabetismo, a miséria e a intolerância são o cimento comum a estas duas realidades: a gente da pátria cabisbaixa não preza os seus poetas, artistas e escritores nem se rege pelos chamados brandos costumes. As sombras tutelares desta narrativa sobre o chamado «crime do Bonjardim» são Camilo Castelo Branco (1825-1890), Raul Brandão (1867-1930) e Carlos de Oliveira (1921-1981). O primeiro foi mestre no desmontar do edifício social português do século XIX, o segundo fez o inventário completo da alma do Povo, o terceiro juntou em livros a paisagem e o povoamento, a geografia e a história, a terra e a gente, a casa e o coração dos portugueses. Com Raul Brandão se aprende que em Portugal sempre houve magistrados dóceis perante o poder político – veja-se o caso de Gomes Freire de Andrade e dos outros mártires da Pátria. Este livro também mostra como nos anos 40 do século XX houve imprensa dócil perante a força bruta da PVDE que antecedeu a PIDE nas mesmas sinistras funções a quem o monstro Salazar chamava «safanões dados a tempo». O chamado «crime do Bonjardim» deu origem a um processo no Tribunal Militar Especial Político mas as folhas desapareceram no Arquivo Histórico Militar ou então nunca lá chegaram. O conjunto terá sido desviado entre o Porto e Lisboa. Este «desaparecimento» diz muito sobre a chamada verdade oficial: «A realidade na Ditadura é uma realidade forjada, conveniente. Esta versão será pois a versão da verdade histórica, o mundo prospera na mentira acintosa». Ou dito de outra maneira: «Estão tramados. Sejam eles ou não, serão eles os autores do crime da Rua do Bonjardim». A narrativa de Francisco Duarte Mangas procura o processo desaparecido, o autor sabe que «certos livros trazem o fogo» embora não possa responder à pergunta da página 114: «quanto tempo dura um livro?». A sombra de Salazar está em todos os lugares e em todos os espíritos: «nem fascista no sentido pleno do termo nem integralista lusitano. Salazar é uma aranha, tece devagar o viver habitualmente.» Um livro fascinante, uma leitura a não perder, setenta anos depois dum certo tempo português afinal muito mais perto do actual do que parece. (Editora: Teodolito, Foto da capa: Germano Silva) --

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por José do Carmo Francisco às 14:27



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