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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 20.05.15

fernando pessoa e raul leal

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O texto de Fernando Pessoa abre em advertência: «Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria provincianismo». E explica: «O amor às grandes cidades, às novas modas, às últimas novidades, é o característico distintivo do provinciano». De seguida define as três camadas mentais; povo, classe média e elite: «O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. O que caracteriza a segunda camada é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. O que caracteriza a terceira camada, o escol, é a capacidade de criticar com ideias próprias.» E conclui: «A tragédia mental de Portugal presente é que o nosso escol é estruturalmente provinciano». Sobre escritores e políticos, Fernando Pessoa começa por advertir («Não sei de poeta português de hoje que seja de confiança para além do soneto»), de seguida explica-os («Ignoram que um poema não é mais do que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio») e termina afirmando: «O nosso ecol político não tem ideias excepto sobre política. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias». Raul Leal escrevia quase sempre em francês e começa por avisar: «Em cada coisa e em cada elemento de Ser encontramos o Infinito e nada encontramos: tudo são trevas e luz em tudo». Mas faz uma longa pergunta: «Não é o Universo uma viva reunião caótica e ao mesmo tempo sistemática de uma infinidade de aspectos convulsivos em Vertigem? Não há nele força, espasmos, delírios, prazeres, dores, luxúria, ânsia, poder, luz, trevas, humilhações, orgulho, vida e morte? E tudo isso, todos esses fantasmas da Vida, não surgem em grandeza colossal através do Mundo inteiro? E não surgem ainda labirinticamente, espasmodicamente, emaranhados uns através dos outros, formando um mundo autêntico de Vertigem Pura? Porque não vedes assim em tudo uma loucura universal?» (Editora: Padrões Culturais, Introdução: Alberto Cardoso, Capa: Mário Andrade) --

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por José do Carmo Francisco às 12:15



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