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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 27.03.15

fernando grade, «o bairro cercado» e outras palavras

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Depois de referências a Luiz Pacheco e a Herberto Helder, o meu texto de hoje passa por um livro de crónicas de Fernando Grade, outro desalinhado, tão desalinhado que em resposta ao filho Pedro Gonçalo sobre ídolos literários da sua vida ele refere Camilo Pessanha, Cesário Verde, Bocage, Mário de Sá-Carneiro e Ruy Belo. Sou um apaixonado da crónica e fiz parte do júri do primeiro prémio da dita que se realizou em Portugal na Associação Portuguesa de Escritores e na Câmara Municipal de Beja. Fui jurado com Maria Regina Louro e José Manuel Cortez e o vencedor foi um livro de Maria Judite de Carvalho. Este livro «O Bairro Cercado» (Universitária Editora) de onde retiro a fotografia de Fernando Grade inclui uma crónica exemplar – «Receita para uma crónica» – que começa com uma pergunta incómoda feita na rua por um desconhecido «Oiça lá: o senhor não está cansado de escrever crónicas?» tendo o autor respondido que não estava mas «quando estiver pode ficar descansado que eu aviso-o.» O homem era gerente bancário, tinha um filho desejoso de ser jornalista ou escritor e queria uma espécie de receita infalível mas Fernando Grade advertiu: «Não existem maneiras indiscutíveis de escrever boas crónicas. Não há assuntos que dêem para crónicas e outros que não sirvam. Tudo interessa mas depende de quem toca a guitarra… Percebe?» Pelos vistos o homem percebia mas não desistiu e obrigou o cronista a avançar: «O seu filho é que tem que descobrir o respectivo caminho, a sua própria verdade, saber o que mais lhe convém. Isso é um trabalho puramente pessoal. Se vou dizer-lhe para fazer assim, para fazer assado, posso muito bem estar a desviá-lo do seu autêntico filão.» Por fim deixa ao pai do miúdo um conselho genérico: «estar com os olhos bem abertos e não ser duro de ouvido.» É isso. --

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por José do Carmo Francisco às 08:35


1 comentário

De Manuel Barata a 28.03.2015 às 11:39

Fernando Grade é, de facto, um excelente cronista, ainda que pratique pouco o género. É acima de tudo um grande poeta, "desalinhado", é certo, mas com uma longa e profícua caminhada com as palavras.

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