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Transporte Sentimental



Domingo, 03.04.16

federico garcia locar no caminho do montijo

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Era pelo Inverno de cinquenta e sete. No Porto Alto um homem de capuz e oleado segurava uma lanterna com dois vidros pintados e fazia alto com a outra mão. A ponte sobre o Sorraia era de madeira e só passava uma camioneta de cada vez. Não havia ao tempo muitas Mercedes Benz de cor verde e com a chapa do Estado. Meu pai saudava o homem entre a chuva e desejava-lhe uma boa noite impossível.

Se recordo estes passos e rituais dos caminhos desse tempo é porque aquele lugar marcava para mim o principiar da circulação de uma temperatura que me fazia lembrar Lorca. Eu tinha aprendido a ler nos jornais, meu pai trazia-os à noite para casa. Terá sido num Diário Popular que li um texto sobre o poeta assassinado. Mesmo sem conhecer os seus poemas comecei a sentir naquele espaço a respiração do verde e do vermelho, a relva sem fim e o sangue dos touros, o pó levantado pelos cavalos breves, os gritos dos campinos sempre longe e a noite sempre negra e sempre longa. Mais à frente, a caminho do Montijo, respirava o sal de Alcochete, o sabor conservado de uma angústia serena, a ideia imaginada de que estes campos verdes, estas oliveiras e este som da alegria rente à raiz de tudo, poderiam ter sido caminho do poeta Federico Garcia Lorca. Ainda hoje não sei porque cavaram tão depressa os cabouqueiros da morte. Sei que entre o Porto Alto e o Montijo algures entre verde e verde, uma sombra esguia faz sinal aos deuses e os deuses páram. Lorca poderia ter morrido aqui à porta desta taberna, a caminho do Montijo. (este texto escrito no Porto Alto integra o meu livro «As emboscadas do esquecimento») --

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por José do Carmo Francisco às 13:04



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