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Transporte Sentimental



Terça-feira, 23.08.16

«&etc uma editora no subterrâneo» (colectivo) edição letra livre

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O cólofon deste livro de 230 páginas é claro: «O livro &etc, uma editora no subterrâneo foi publicado pela Livraria Letra Livre em Novembro de 2013, ano 3 da Crise, nos quarenta anos de & etc – Edições Culturais do Subterrâneo, um exemplo de resistência cultural e de liberdade editorial neste país». Tal como é claro o texto de Paulo da Costa Domingos porque desde 1973 o ideal não esmoreceu: «sabotar o gozo de mandões e poderosos, instilar algum fel no reino da estupidez. As maçãs da sabedoria e da revolta colhem-se no chão. Ou mesmo no subsolo. Na Rua da Emenda desce-se até ao subterrâneo por uma rampa que sobre, e vice-versa.» Fernando Cabral Martins recorda uma cena com o empregado na «Parisiense» («tinha a mania de abrir os pacotes de açúcar e esvaziá-los no café») e refere a sua memória pessoal quando vivia na Rua da Rosa («Eu costumava passar na Rua da Emenda ao sair de casa») antes de dar uma lição de história literária: «Parece que o cruzamento entre a poesia e a pintura é a menina dos olhos dos surrealistas, a começar por Teixeira de Pascoaes (talvez) e a continuar em Julio, António Pedro e Mário Cesariny.» Já que veio à baila o assunto dos cafés e pastelarias, registo uma referência de Vítor Silva Tavares a um café do meu tempo (e de hoje!), trata-se da «Orion»: «Digo sempre doutro Fernando Amado. Tive sempre por aquele homem uma devoção extraordinária. Eu não tive universidade e sem dúvida que este homem foi um dos meus mestres. E mestre não quer dizer professor. Ele foi meu mestre porque me pôs a mim a saber. Não foi ele que me ensinou. Pôs-me em estado de saber. Por isso, mestre. Fui eu que o adoptei como tal. Um sábio gentil. Começo com os meus encantamentos de teatro, comprei a prestações o primeiro livro que cá chegou, tradução francesa da «Formação do Actor» de Konstantin Stanislavki. E como já era muito lido, um intelectual, perorava ali na Orion e tinha então conversas muito mais aprofundadas com o doutor Amado.» E por referir a Universidade é Eduardo Lourenço aqui citado na página 14: «Nascida sob referência anarco-surrealista, cedo perdeu o seu pseudo-espontaneísmo para se converter à ficção pop, ao híper-realismo com a sua tranquila paranóia objectiva, com a evacuação do histórico, do mnemónico e do discursivo.» Posto isto fica a lista dos autores sem as citações de Eduardo Lourenço, José Cardoso Pires ou António José Forte: «Adília Lopes, Alexandra Lucas Coelho, António Vieira, Cláudia Clemente, Eduardo de Sousa, Emanuel Cameira, Fernando Cabral Martins, Graça Martins, Isabel de Sá, Isaque Ferreira, Júlio Henriques, Luís Henriques, Luiz Pacheco, Manuel de Castro, Manuel de Freitas, Paulo da Costa Domingos, Pedro Oom, Pedro Piedade Marques, Rocha de Sousa, Vasco Tavares dos Santos, Vítor Silva Tavares.
E há sempre uma história para contar como aquela da página 77: «Na Tipografia Ideal, a Heidelberg plana de pequeno formato só permitia serem impressos deitados de quatro páginas por cada entrada em máquina. Contava o proprietário que a havia comprado em segunda mão, após o fim da Segunda Guerra Mundial e que a mesma tinha sido concebida daquele tamanho para poder imprimir propaganda dentro de comboios em pleno andamento.» (Editora: Letra Livre, Revisão: Andreia Baleiras, Capa: Pedro Serpa, Edição e Grafismo: Paulo da Costa Domingos) --

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por José do Carmo Francisco às 14:48



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