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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 15.06.15

«elegias de cronos» de nuno dempster

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O ponto de partida deste livro é uma pergunta «E agora? que farei com essa imagem / a olhar-me nos olhos? / Elegias?» Ora a imagem é uma raiz de mágoa : «Uma das minhas mágoas / é seres hoje mais bela do que eras / aos vinte anos naquela foto». Entre o tempo e a memória aparece o poema da página 68 porque «os poemas emanam da memória». Neto de um poeta maior (Armando Côrtes-Rodrigues), Nuno Dempster tem uma antiga relação com a poesia publicada: «Dantes até cheirava a tinta dos poemas / que às vezes me publicavam / coroava-me a mim mesmo de louros / como os de Alighieri em Florença». Outro poeta, Afonso Duarte, integra um poema deste livro: «Renascido do teu olhar, há sempre um dia / como este plenamente nosso / em que rosas e cedros e carros / se congregam e uníssonos ascendem / no grito vertical das aves: / Eu posso lá morrer, terra florida!» Mais à frente é um poeta não nomeado que se queixa em voz alta num poema: «É triste vê-lo assim queixar-se / da fama dos poetas vivos / dizer alto na rua à multidão / que os seus versos merecem outro fim.» Num país que nem é de «poetas» nem de «brandos costumes», só a velha oliveira resiste ao tempo e à sua erosão violenta: «Que não te angustie a oliveira anciã / já quase apenas tronco, quase / um espigão de escarpa fóssil. / Está ali no vale para ainda / podermos vê-la, olhando-a / calculando-lhe a idade em séculos / e pensarmos em quantos como nós por ela já passaram e se foram / e nas mãos que de início a seguravam / enraizando à terra a eternidade». O tempo terrível que nos é dado viver é comparado à II Guerra Mundial e é de facto uma guerra por outros meios, uma guerra de civilização: «Hoje qualquer sítio é melhor do que este / e tanto quanto mais longe estiver. / Pesa-nos o destino de nós todos / sermos pequenos /como as velhas cidades quando / a guerra as assolava / ruas que eram vielas / a gente que depois enchia / as estradas de fuga como agora / sucede sem se ver». O tempo neste livro belíssimo tem uma dupla inscrição: o geral e o particular, o público e o íntimo. Daí o poema da página 46: «Já nada sou naquela foto, nem / a foto altera o curso de outras / reciclada em silêncio / até ontem surgir / de repente numa arca. / Tinha eu doze anos / vestia um fato preto com gravata.» Entre a brevidade da Vida e o inevitável da Morte só o Amor nos resgata. Mesmo trágico como no poema da página 70: «Afinal não foi Pedro quem mandou / tirar o coração aos assassinos? / Sim, foi, mas não te esqueças de que Inês / já tinha devorado o coração do príncipe». (Editora: Artefacto / Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, Composição Gráfica: David Martins, Paginação: José Pedro Moreira, Impressão: Europress, Apoio: Fundação Calouste Gulbenkian) --

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por José do Carmo Francisco às 19:49



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