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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 26.08.15

elegia breve para a mulher-menina na cidade (foto de oleg basyuk)

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Todas as manhãs são sempre um pouco tristes porque passa a haver uma a menos no nosso Mundo e na nossa Vida mas o olhar da mulher-menina transporta, conserva e incorpora a força dessa luz que empurra todas as neblinas e chega à cidade grande com o vigor capaz de fazer durar a força da manhã até ao fim da tarde. Para trás ficaram as ondas e a sua espuma na praia como uma borracha gigante a apagar o desenho dos pés de quem, na noite passada, ali veio rezar uma oração sem palavras na liturgia dum tempo de dizer adeus ao amor de Verão. Entre a areia das praias e a pedra da serra, a voz da mulher-menina sobe até ao timbre da canção entoada de modo discreto por quem atravessava as ruas a apregoar os morangos e os figos mais frescos das várzeas, dos brejos e das hortas. De repente é como se entrassem de novo no meu quotidiano os apitos dos sinaleiros, as campainhas dos eléctricos de atrelado, a cidade de Lisboa tal como era em Setembro de 1966 quando aqui cheguei com o diploma de um curso comercial e uma mala onde nem os sonhos cabiam nem eu podia com a carga do seu peso específico. O castelo em frente tem pedras com História onde se cruzam o passado, o presente e o futuro mas para mim o castelo é um pretexto para lembrar as minhas filhas que tanto em Londres como em Sydney juntam pedras para o meu castelo de saudade. Na rua aqui ao lado passavam há cem anos algumas mulheres a caminho dos moínhos da Cotovia. Porque aqui havia e continua a haver muito vento. Cem anos passaram num instante mas o olhar da mulher-menina não passa e permanece neste lugar iluminado pela luz do campo no centro da cidade. --

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por José do Carmo Francisco às 10:12



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