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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 10.11.16

dissertação das casas mortas da atalaia da barroca

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Atalaia da Barroca: nome antigo, fonte sem água, caminhos de silvas e pó. Ao lado passa uma estrada do século XXI. São vinte metros de distância e dois séculos de diferença entre o asfalto de hoje e os caminhos do século XIX. Ao som da água contra as pedras da ribeira apenas os pássaros replicam a melodia que nunca termina. Vejo a levada a desviar a água para uma azenha que agora já não faz farinha e de onde roubaram a pedra da janela. Junto à ribeira são cinco casas onde outrora houve vida, gente a nascer e a morrer, guerra e paz, soldados e casamentos, fotografias em gavetas fechadas no esquecimento. Mais acima são três casas brancas e só uma não perdeu o telhado. Aqui dormiam animais, mulas e machos, bois de quarenta e oito notas, galinhas e perus, patos e coelhos para os dias de festa. À direita a casa do tio Portalegre que vinha de manhã e cuidava da horta durante o dia. À noite voltava com o animal e a sua carroça para a casa na Atalaia do Ruivo. Aqui houve uma adega; este é o tempo da vindima. As uvas são pretas e estão ao lado das pedras na ribeira mas ninguém as vem colher. Davam um vinho escuro, forte, com grau, capaz de dar vida a um morto. Ou quase. Os figos também hoje ninguém os quer. Aqui houve rapazes (tio Manuel, tio João, tio Nascimento) que subiam às figueiras à procura dos mais maduros. Maria do Rosário, a irmã, ficava em casa junto da mãe. Aqui comia-se o que a terra dava: couves e batatas, batatas e couves. Feijões secos ou grão-de-bico. Ou favas, ervilhas, os mimos da horta. Pepino, tomate, pimento, cebola, feijão-verde. Atalaia da Barroca, lugar onde respira o que sobejou do primeiro paraíso, onde tudo era justo, suficiente, pleno e circular. Entre sementeira e colheita, entre esforço e prémio, entre suor e adiafa, entre luz e sombra, ser feliz era então aqui um ofício de todos os dias. --

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por José do Carmo Francisco às 21:58



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