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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 11.09.15

«contos escolhidos» de cristino cortes

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Neste volume de 26 contos de Cristino Cortes (n.1953) 3 são inéditos, 10 foram publicados em revistas e jornais e os restantes 13 pertencem a dois livros publicados em 1998 e 2003. Os contos, todos eles, são narrativas de proveito e exemplo. Quem os povoa são gente de todos os dias («É tão difícil duas pessoas entenderem-se!») gente que pode perguntar entre a tristeza e a alegria: «É sempre tão rejuvenescedor confiar nas pessoas! E não será isto, no fim de contas, a felicidade?» O próprio conto enquanto género literário está sujeito a discussão: «narrativas em que se conquistam mulheres, se fazem fortunas, se vivem farras ou grandes aventuras, são normalmente descritas na primeira pessoa – porque a identificação, feita posteriormente pelos leitores, lisonjeia o inato orgulho de todo e qualquer indígena…» A felicidade («A felicidade vem mais dos braços abertos e do coração puro do que de qualquer acumulação de bens materiais») é o mote do conto de Natal em que o protagonista vende um relógio que foi do avô para comparar uma jóia que a mulher não a podia usar porque tinha cortado o seu cabelo para lhe comprar a corrente para o relógio. Há na geografia destas páginas uma oscilação entre o tempo da Província e o da Grande Cidade. Na Província é o café que organiza o Mundo: «a Filomena terminou em glória – qua já era mais do que altura de todos nós irmos aos nossos afazeres, ela a fazer fichas para o hospital, eu a receber os devedores do Estado, a Gabriela para o liceu, só dois ou três ali ficavam – de férias os sortudos.» Na Grande Cidade é outra a narrativa mas o café continua a ser central no Mundo: «Quando o Granada fechou as portas – para se transformar em agência bancária – eu tive de mudar de barbeiro e passei a frequentar a Rua do Ouro, almoçando de seguida na Rua da Conceição, no famoso Facho, bem perto do prédio onde o Mário de Sá-Carneiro fez as malas, antes de se ir matar a Paris.» Um dos mais belos contos da antologia é o da página 51, Anfitrion; eis um excerto: «Esta é a história de Anfitrion, uma rapariga cega que na terrível manhã de Pompeia estava no seu quarto. Defronte de si tinha o amado e pelo tacto jogavam uma partida de xadrez. (…) Eram seres inteligentes e sensatos que não trocavam a incógnita da velhice futura, quem sabe se a morte certa logo ao sair de casa, a saciedade e o desencanto de que à sua volta se recordavam, pelo fulgor da hora presente, e assim continuaram sacrificando no altar de Eros. Não se sabe quem ganhou a partida ou de quem era a vantagem final, mas o xeque-mate esse pertenceu ao Vesúvio que assim lhes prestou homenagem e intactos os conservou para nossa satisfação e claro exemplo.» (Edições Piaget, Selecção e Prefácio: Isabel Ponce de Leão, Capa: Dorindo Carvalho) --

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por José do Carmo Francisco às 10:12



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