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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 15.02.16

«céu nublado com boas abertas» de nuno costa santos

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Soren Kierkegaard (1813-1855) terá escrito «é a sucessão de gerações que nos salva do desespero». O ponto de partida são apontamentos do avô do autor (João Pereira da Costa) com uma data (1944), um texto e um recado: «Fora desterrado para a Lagoa das Furnas para substituir um colega que tinha morrido. Mais tarde seria informado que a causa da morte fora uma tuberculose galopante. Se tiver um descendente que se interesse pela escrita, peço-lhe para ir a São Miguel e trazer no regresso um conjunto de histórias do presente da ilha.» No regresso à Ilha o narrador regista os anúncios das «massagistas» de 2014 («Ruiva do Pico, peitos bonitos, corpo picante, tudo nas calminhas») e as «pupilas» de Dona Leonor em 1944: «Chamavam-na Perneta porque coxeava o que não a impediu de ter sido muito procurada e apreciada.» A ida para o Caramulo leva o avô do autor a perceber uma velha estranheza: «escandalizava-se com o desconhecimento que os continentais tinham das ilhas. Confundiam o arquipélago dos Açores com o da Madeira. (…) explicava a Eunice que as ilhas dos Açores eram nove, que não se podia ir a nado de uma ilha para outra. Nem a barco de remos.» Mas as coisas não são simples «Os próprios açorianos pouco sabiam da sua História e geografia. Atribuía esse facto ao propósito nacional de impedir a radicalização da velha aspiração de se governarem a si próprios.» O Caramulo vem mostrar ao doente dos Açores a força do egoísmo: «Se cada um fosse sofrer pelos males dos companheiros, onde iria arranjar forças para combater o seu próprio mal?» Na freguesia dos Fenais da Luz o autor visita a terra de origem do avô e procura a sua casa acabando por encontrar a resposta: «Foram todos para fora. Um para Lisboa, outro para os EUA e outro para o Canadá. A emigração, fatalidade açoriana de muitas décadas, umas vezes vencedora, outras falhada». No Caramulo o avô descobre um dia o todo-poderoso Salazar, amigo de Jerónimo Lacerda, director da estância onde o ditador por vezes descansa ao fim de semana. Também descobre livros e autores: Ferreira de Castro, Alves Redol, Axel Munthe, John Steinbeck, Sommerset Maugham, Aldous Huxley, Louis Bromfield, Ernest Hemingway.» Franz Kafka surge na página 189: «Não sou Kafka mas gosto dele. Tornei-me fanático a partir do momento em que os meus colegas de liceu começaram a dizer que eu sou muito parecido com Kafka.» Não se estranha uma citação de Kafka - «Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de medusa.» Entre a Terra e a Água, um homem reza («sem vergonha, sem medo, sem pressas, sem calendário») partindo do «eu» para o «nós»: «rezo por mim, rezo pelos homens de todas as freguesias da ilha, rezo pelos meus irmãos que estão emigrados, rezo por quem me quer mal, rezo por ti, irmão, rezo por todos os da tua família, os que estão, os que já foram, aqueles que sofrem, aqueles que sofreram. Rezo pelos irmãos que ficaram sem tecto. Rezo por todos os aflitos.» O início foi o testemunho de um avô, as últimas linhas são para um futuro neto: «É a minha vez de me expor, de contar histórias, de as cruzar comigo, o meu modo de ser, as minhas contradições e alterações de humor. De escrever um livro que um neto um dia encontrará e com o qual poderá tentar um diálogo.» (Editora: Quetzal, Design de capa: Rui Rodrigues, Foto capa: Aron Mifsud Bonnici, Fotografias: Jorge Vaz Gomes, Revisão: Carlos Pinheiro, Foto contracapa: Vitorino Coragem, Composição: José Campos de Carvalho) --

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por José do Carmo Francisco às 19:08



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