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Transporte Sentimental



Terça-feira, 08.11.16

«cancioneiro do bairro alto» - anónimo do século xix

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Embora editado com a referência «CADIZ 1864» tudo leva a crer que este livro foi composto e impresso em Lisboa numa das catraias (oficina pequena) que havia na cidade nesse ano de 1864. O contexto deste tipo de literatura leva-nos a pensar nas poesias eróticas e satíricas da antologia em tempos organizada por Natália Correia cujo prefácio começa deste modo: «Quando Carolina Michaelis de Vasconcelos se ocupou das cantigas satíricas dos nossos Cancioneiros medievais, sacrificando os preconceitos no altar da cultura, declarou que não evitaria as obscenidades que tão desafogadamente ocorrem no género burlesco dos Cancioneiros, sempre que estivesse em causa apurara a verdade.» Este livro de 146 páginas surge atribuído a Félix da Lapa, um «padre folgazão e descarado». Desse descaramento damos nota de três momentos. Na página 32 «Um presente de amigo»: Envio, caro amigo, na condeça /Um par de cornos belos e chibantes / Foram eles dum boi dos mais possantes / E valem, a meu ver, bem uma peça // Que aceites o presente bem me interessa / Por isso os escolhi tão elegantes / Mas creio que estarão muito distantes / Desses dois que te enfeitam a cabeça.» Na página 65 o poema «Aos sacanas» ressalvando que a palavra fanchono ao tempo significava «pederasta activo»: «O ofício de sacana / De aprender não é custoso / E sem o peito cansar / É divertido e rendoso // E aí está a razão / Porque no temo presente / De tal raça de sacanas / Não se lhe acaba a semente //Entre o bando de janotas / Vão contentes figurando / E na loja do Marrare / Muitas partidas jogando // Outros vejo no teatro / Repimpados nas cadeiras / Afectando de talento / Mas dizendo só asneiras // Alguns lá nos camarotes / Com os fanchonos favoritos / Penteados engomados / Presumidos de bonitos // Muitos as ruas passeiam / Engomadinhos janotas / De casacas de alto preço / E de mui lustrosas botas //Até já ouvi dizer / A um famoso financeiro / Que o ofício de sacana / Dá carradas de dinheiro.» Para conclusão uns conselhos dados na página 142 às «meninas da vida»: «Vestir com muita elegância / Usar botinhas da moda / Dançar no Café Concerto / Dos janotas entre a roda //Beber genebra sem conta / Dar ao licor avançada / Arranchar à brincadeira / Já depois de empiteirada //Ir ao passeio da tarde / Arranjar lá seu freguês / Confundir-se com as meninas / Que se prezam de honradez // Morar em casa de luxo / Ter a cama bem macia / Não querer outra alcoviteira / Que não seja a sua tia». (Edição: Apenas Livros) --

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por José do Carmo Francisco às 13:40



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