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Transporte Sentimental



Domingo, 03.05.15

«caderno de significados» de graça pires

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Graça Pires (n. 1946) publica poesia com regularidade desde 1990, tendo o seu primeiro título («Poemas») recebido o Prémio Revelação de Poesia da A.P.E. em 1988. Este seu mais recente livro integra uma colecção na qual figuram textos de Casimiro de Brito, Amadeu Baptista, Maria Teresa Dias Furtado e Agripina Costa Marques. O ponto de partida é o quotidiano: «Escutar o rumor da morte na rotina dos dias, no sangue das palavras, na dor, na perda, no tédio. E renascer a toda a hora com a inocente respiração da vida. Serenamente». Aqui o olhar do poeta não pode ser indiferente: «Li no jornal que há idosos abandonados nas urgências hospitalares. Talvez se entenda a dor agarrada ao desleixo da roupa». Como resposta à aridez do dia-a-dia surge a infância: «Volta de novo, idade da inocência que foi minha. Traz-me nas tranças a cristalina alegria dos dias em que no fundo do coração nenhum nome me doía.» Infância que é também o lugar da casa: «Nós voltamos apenas para regar a sede, beber a terra, colher a paisagem, mastigar o silêncio, partilhar a fome e tornar depois a ir embora com o corpo a doer da própria ausência». Infância e casa juntam-se na emoção: «Se eu pudesse recordar uma canção de embalar na voz lentamente doce de todas as mães, escutaria, com certeza, o cantar da minha mãe só para que, em meu sono, eu não incline a cabeça para o lado onde ardem as lembranças». Podem ser a lembranças da mãe («Só na memória do teu rosto, mãe, posso encontrar agora as paredes da casa onde nasci») ou do pai: «partiste tão cedo como se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras». A única reposta no poema à desolação do seu tempo é o amor: «Tu dizes o meu nome. Eu digo o teu nome. Não há mais ninguém na terra nesta hora urgente da paixão.» Graça Pires sabe que, como Camilo Castelo Branco, «a poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». Por isso o seu grito: «Há um grito rasgando o surdo rumor da chuva de Novembro. Um grito a cortar a respiração das árvores sem folhas. Um grito que estremece nas mãos das mulheres estéreis e no silêncio das aves que não voam.» (Editora: Lua de Marfim, Capa: Miguel Pais) --

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por José do Carmo Francisco às 11:12



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