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Transporte Sentimental



Sábado, 24.10.15

bruno vieira amaral venceu prémio saramago; livro foi referido na «gazeta das caldas» em 25-7-14

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A literatura é o estilo da escrita mais o sangue pisado da vida. Se é só estilo fica-se pelo exercício; se é só sangue pisado fica-se pelo testemunho. Bruno Vieira Amaral (n.1978) tem o segredo feliz da mistura que resulta. O ponto de partida é o Bairro Amélia e a sua paisagem («candeeiros de globos partidos, balizas ferrugentas, paredes encardidas, bancos lascados») mas a paisagem não existe por si. É povoada por gente: no «bairro dos retornados» vive um «exército de derrotados». O protagonista descobre um livro com poemas de Pablo Neruda num caixote do lixo e percebe: «encontrar consolo na arte é um razoável substituto da religião». O seu regresso ao Bairro de onde saiu é impossível: «Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia visitar aos lugares queridos sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia». O Bairro Amélia é o pretexto para a viagem no tempo e na memória. Também no amor: «Os amores de infância duram para sempre, como múmias. São mausoléus erigidos à própria ideia de amor. Cuidamos deles como da campa de um ente querido». Ou então na luz da realidade: «Ao contrário das fotografias, a realidade tem pouca luz». O que mais impressiona nesta escrita sobre uma cartografia particular é a sua segurança. Bastam dois exemplos. Na página 92 um texto sobre a Mãe: «Os filhos são os parasitas da mãe. Comem-lhe o coração que cresce da noite para o dia para que nunca lhes falte o pão-coração. O que é que a mãe quer? A mãe não quer nada. Quem tem mãe, tem tudo, diz a quadra, e quem é tudo não precisa de nada». Na página 117 um texto sobre a morte: «O bailado de Ernesto, o seu lábio descaído, as suas rotinas, o chocalhar dos trocos na bolsa, a casa onde não tinha ninguém à espera, a sua tristeza imponderável, os pensamentos íntimos, a sua felicidade secreta, a morte rápida sem demasiado sofrimento, a perfeição». Uma confusa distribuição de itálicos, deixando de fora palavras como palyboy, collants ou old spice e marcas como Pingo Doce, Ovolmatine ou Teobar, a referência a Sarilhos por Sarilhos Pequenos ou Sarilhos Grandes (71), a troca de letras em Loanda e Luanda (194-196), o tabaco SG Ventil ou só Ventil (162-163) ou a troca de Alto por Baixo Alentejo (249) são pequenas discrepâncias que em nada alteram a cotação deste primeiro romance: muito bom. (Editora: Quetzal, Capa: Rui Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 09:23



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