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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 10.09.15

«beijo técnico e outras histórias» de fernando venâncio

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Fernando Venâncio coloca uma frase de José de Almada-Negreiros no fim deste livro mas poderia fazê-lo na primeira página porque a frase é todo um programa de escrita: «Nós não somos do século d´inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século d´inventar outar vez as palavras que já foram inventadas.» Trata-se, sem dúvida, de uma «homenagem à literatura» no sentido total e completo da ideia. Vejamos o texto da página 61: «Gostava de Almada, de Leiria, de Bragança. Gostava. Muito e muito. Viu Almada ainda na televisão, conheceu Bragança em pessoa, mas para Leiria já chegou tarde. Leu-os a todos três. Com entusiasmo. Com a conformada certeza de que melhor ninguém faria. Um dia deixou até de lê-los. Já os sabia de cor.» Magnífica esta confusão estabelecida entre os nomes dos escritores que nem todos conhecem e das localidades portuguesas que todos conhecem. Essa «homenagem à literatura» renova-se no texto da página 37: «Deu-lhe muito trabalho mas ao fim de cinco semanas tinha metido tout Leiria no computador. Descarnara-lhe as histórias uma a uma e apertara-as em fórmulas algébricas que até faziam dores à vista. Mas detectava-se já um princípio de movimento.» O mundo deste livro engloba o futebol («Sempre aquele fenómeno o havia fascinado: o clamor que se ergue dos estádios quando, algures longe dali, num jogo paralelo mas igualmente decisivo, houve uma mexida no marcador») mas também as auto-estradas: «Surgiram primeiro os agrimensores, depois os engenheiros, logo a seguir os catrapilas. O que era um carreiro arborizado, por onde, dia ou noite, voavam os braços um do outro, eis o que foi removido, entulhado, aplainado, alcatroado.» Afinal é o amor que tudo faz mover neste livro. Pode ser o amor propriamente dito («O amor é tão grande que até no escuro encontra a luz») ou também o amor cósmico, presente na última página do volume: «O último homem sobre a Terra entrou no Facebook e escreveu: «Está aí alguém?» Uma semana depois voltou a ligar. Havia um like. A cinco mil quilómetros. Pôs a mochila aos ombros e partiu.» Poderá ser esta a provisória moral das histórias: a única medida do amor é amar sem medida. (Editora: Ulisseia, Revisão: Ana Salvador, Capa: Love St. Studio) --

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por José do Carmo Francisco às 15:07



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