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Transporte Sentimental



Sábado, 20.12.14

«autismo» de valério romão

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Valério Romão (n. 1974) é tradutor (Beckett e Virgínia Woolf), dramaturgo (autor de Posse e A mala) e contista (revistas Magma e Construções Portuárias) estreando-se no romance com esta obra de 353 páginas na qual o autismo é o protagonista. Rogério, Marta e Henrique (pai, mãe e filho) vivem todos esta doença: «E não consigo sair disto, a desordem, as mãos na boca, os saltos no mesmo sítio, o olhar vazio, a confusão, o silêncio, os guinchos, toda a parafernália que é o fogo-de-artifício pelo qual o autismo se anuncia e esconde a criança.» Henrique é uma criança diferente («O miúdo era especial, essa malfadada palavra que não quer dizer nada até ser trocada pelos cêntimos da realidade a que corresponde») ou, dito de outra maneira, «deixara de ser uma criança normal com peculiaridades para passar a ser uma criança especial com aspectos comuns a todas as crianças.» Comum aos três está a dor: «A dor tudo muda, mesmo as convicções mais enquistadas na consciência. A dor é o grande revolucionário pelo qual são feitas as revoluções mais sangrentas do interior de cada um e é pela dor que se conhecem presencialmente as várias personagens que ocupam o palco do teatro contínuo do eu.» Mas o autismo envolve também os avós maternos (Abílio e Amélia) e os paternos cujo nome não aparece – ele está detido numa prisão e ela numa aldeia do Norte. Num misto de bruxedo africano e de misantropia, Abílio afirma: «Às vezes dava por mim a abrir os olhos, no lusco-fusco de uma irradiação de candeeiro de rua que parasitava as paredes do quarto e via a sombra da minha mulher estendida , enorme colina adiposa a suar encosta abaixo o desconforto do Verão lisboeta, misto de sol, de poluição e de um ar que carrega no dorso o cheiro a sardinha assada e a mijo». Numa escrita que lembra Nuno Bragança, um dia a criança sofre um atropelamento e vai para o Hospital («Ele está mal, ele está muito mal, ele vai morrer») e ninguém comunica com os pais dentro da urgência. Às vezes, no desespero, procuram aldrabões: um que veio do Brasil, uma que veio da Alemanha e um tal Dr. Miguel Relvas. Apenas uma coincidência… (Editora: Abysmo, Ilustrações: Alex Gozblau, Revisão: Raul Henriques) --

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por José do Carmo Francisco às 08:23



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