Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Transporte Sentimental



Terça-feira, 10.03.15

«ao sabor dos dias» de manuel barata

Image.jpg


Sexto livro de um autor com trabalhos de poesia e ensaio em publicação desde 2003 embora se defina de modo insólito («não sou poeta»), este «Ao sabor dos dias» (dedicado a Filipa Barata in memoriam) tem uma capa que lembra o Círculo de Poesia da Moraes Editores. Manuel Barata sabe ser a poesia (tal como a oração) o modo mais rápido, certeiro e efectivo de juntar de novo tudo aquilo que a morte separou. Tudo o que no breve prefácio de Filipa Barata é referido como «tempo passado» está de novo presente em cada poema. Todos nascem num lugar e num dia; o poeta também: «Cheguei numa manhã de Junho, segunda-feira, e já o sol ia alto. Chovia. Esperavam-me, ansiosas, minha mãe e minha avó paterna. Cheguei, pois em dia de sapateiro.» Mas esse lugar (Mata) está inserido num Portugal «miserável, triste e sem humor». O poeta, porém, não se limita à pátria doméstica (mesmo quando dela pode dizer «Nada devo à Pátria e a Pátria nada me deve») porque a sua Pátria é o Mundo. Ele sabe que hoje (2015) o Gueto de Varsóvia fica na Faixa de Gaza: «Neste tempo de cólera, de ódio sem fim, eu temo, ó minhas irmãs, que até estas palavras que quero amáveis vos possam magoar.» Mas não é apenas feita de «sangue pisado» esta Poesia; ela integra uma dose forte de «estilo», tudo aquilo que a pós-modernidade considera «intertextual». Pode ser o português António Nobre («Não venhas, Georges! Que este país, Portugal, que outrora foi das naus e das frotas, é de novo a apagada e vil tristeza de que falava o Épico») ou o espanhol António Machado: «A minha infância decorreu nas saudosas ruas da Mata, térreas até muito tarde – bem mais amplas que o pátio sevilhano de António Machado.» Pode ser o argentino Jorge Luís Borges («Passou pelo mundo, excêntrico e atrevido, um argentino a quem os deuses, um dia, negaram a luz») ou o português Eugénio de Andrade: «Só em Monfortinho, na infância longínqua, podia ter aprendido a falar do deserto, da brancura da cal, da incontornável brancura da cal. Foi ali, naquela terra sáfara, que bebeu a música e o silêncio.» Cesário Verde, Nuno Júdice, José Gomes Ferreira e António Ramos Rosa, por exemplo, estão convocados nos poemas deste livro onde na página 14 se cruzam duas realidades – o sangue pisado da vida e o estilo da poesia: «Nós, os filhos, nunca esqueceremos as lições de nossos pais recebidas, que encerravam mais poesia que todos os versos de Camões.» E sem esquecer por fim a sagrada esperança de Agostinho Neto, presente no registo de autobiografia da guerra colonial: «Resignados, iam comer e beber e cantar e amar, nos subúrbios da cidade ocupada, com as almas repletas daquela sagrada esperança que sempre souberam preservar, mesmo nas horas mais sofridas. Pareciam estrangeiros na sua própria terra,,,» (Edições Alecrim, Capa: Hugo Feio, Prefácio: Filipa Barata, Paginação: Ana Nunes) --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 17:55



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  






Visitas