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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 27.04.15

adelina soares «o barulho do silêncio»

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Adelina Soares (n.1959) estreou-se em 2011 com «Fonte das Escadinhas» e regressa à ficção narrativa neste «O barulho do silêncio» de 2013. O ponto de partida é o percurso de vida de Xavier que, de forma circular, começa num Hospital perante um papiloma a ser removido para terminar no mesmo Hospital com o paciente a descobrir na enfermeira de turno o seu amor perdido da adolescência – Marta. Fruto do amor clandestino entre a sua mãe e um homem casado, Xavier nasceu e viveu os primeiros anos da sua vida em Lisboa, num tempo posterior ao «25 de Abril»: «Ela via todas as telenovelas e queria que eu fizesse o mesmo». Nunca conheceu o pai biológico e, mais tarde, a mãe trouxe para a sua vida um padrasto (Paulo) o mesmo é dizer, um ciclo de medo e terror bem diferente das aparências: «Parecia bem formado, cheio de princípios, valores, católico, temente a Deus». Paulo era violento («eu era como as vacas, tinha que ser marcada, era o meu dono») e manipulador: «quantos mais filhos tivéssemos mais difícil seria libertar-me das suas garras». Por oposição às ameaças e agressões de Paulo («tabaco, vinho, jogo») um indivíduo violento e capaz de matar (apesar do seu aspecto seráfico) surge o senhor Joaquim em pleno na vida de Xavier: ele tentava que o jovem acreditasse na honra, na virtude, na palavra e na esperança e foi o pai que Xavier não teve além de «amigo, conselheiro, confidente». Numa narrativa bem portuguesa (personagens, pano de fundo, situações) as referência ao tempo presente (Barragem do Alqueva, ano 2000) não fazem esquecer o ambiente social, político e económico dos anos 50 em Portugal com referencial desta ficção. Foram anos de chumbo com a entrada do país na OTAN em 1949 e na ONU em 1955 – uma onda de conformismo cinzento e de gritante diferença entre fachada e interior. Tal como Paulo, Salazar («Deus, Pátria, Autoridade») também ia à missa todos os domingos mas mandava prender e torturar no Aljube, em Peniche, em Caxias e no Tarrafal todos os que dele discordavam e, portanto, não eram seus filhos. Daí a sua frase emblema desse tempo: «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!». Nas suas 132 páginas esta narrativa exemplar não deixa de surpreender o leitor com o inesperado e, quando parece já ter sido atingido o ponto mais negro de violência, agressão e brutalidade, há sempre um novo patamar de maldição ainda mais abjecta. Descobre-se o falso herói da narrativa não apenas como mentiroso, violento e cínico mas também como repugnante chulo, capaz de vender o corpo da mãe dos seus filhos todos os domingos ao fim da tarde. Numa rua de Lisboa, num certo escritório de advogado onde, anos a fio, Paulo fazia à tarde tudo ao contrário das palavras do Evangelho que ouvia de manhã. (Editora: Fonte da Palavra, Prefácio: Elsa Andrade, Capa: Tânia Marques, Revisão: Branca Vilallonga, Nota: Luciano Reis) --

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por José do Carmo Francisco às 15:08



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