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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 07.05.15

«a redenção das águas» de carlos querido

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Com o subtítulo de «As peregrinações de D. João V à vila das Caldas», este é o terceiro volume publicado de Carlos Querido (n. 1956) depois de «Salir d´Outrora» (2007) e de «Praça da Fruta» (2009). As 219 páginas não registam apenas as viagens de D. João V à vila das Caldas para alívio do seu sofrimento entre 1742 e 1750. O livro tem esse pano de fundo real («não haverá maior solidão do que o poder absoluto»)mas existe nele um a espécie de filtro no olhar dos narradores – Pedro e Sara. Pedro, filho de um fidalgo e de uma lavadeira, nasceu nas Caldas, foi para Lisboa e daí partiu para o centro da Europa com o infante D. Manuel, o irmão do rei D. João V: «Chamo-me Pedro e nasci nas Águas Santas, muito próximo daqui. Fui ferido na batalha de Timisoara.» Por sua vez Sara é filha do rei D. João V e de uma criada do Paço: «O meu avô materno estudou em Coimbra onde tomou ordens mas pediu dispensa quando descobriu que era mais forte o chamamento do mar.» Pedro («Sou um homem comum») conta a verdade («leia com paciência; os factos são verdadeiros») mas para Sara («Com a minha mãe aprendi piano, recato e solidão») a dura verdade é o rei só reconhecer como filhos os meninos de Palhavã: D. António, D. Gaspar e D. José. Não as filhas. As viagens do rei D. João V são neste livro um pretexto feliz para o autor nos fazer viajar pelo país que somos: «Cresce na cidade e no reino um vago sentimento de tristeza e desolação. Há militares a quem não é pago o soldo. Há operários ao serviço do rei que não recebem o salário devido, para desespero das famílias». Sem esquecer o Povo que o habita: «Somos um povo com uma alma religiosa mas sensível e compreensiva perante a tentação da luxúria.». Nem o rei que o governa (37 anos de pacífico reinado) entre birras com o Vaticano («gastou 500 mil cruzados na compra do direito a tomar a hóstia pela sua mão») e as malhas da Inquisição («ao serviço do rei e não ao serviço de Deus») a quem o narrador não hesita em definir como «fanáticos que querem travar o movimento do mundo, incluindo a rotação em volta do Sol». Tudo termina na vila das Caldas, no lugar onde nasce a narrativa: «Começou por ser lugar de destino dos deserdados mas as suas águas também curam os poderosos do reino.» Caldas, outro nome para o paraíso perdido, «esse lugar onde o mundo parece fazer sentido, porque não se avista nem se sente a loucura dos homens». (Editora: Arranha-céus, Capa: Elisabete Gomes, Revisão: Raul Henriques, Apoio: Câmara Municipal de Caldas da Rainha) --

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por José do Carmo Francisco às 12:01



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