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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 05.02.16

«A morte demora antes de chegar»

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Theodor Adorno afirmou um dia que «Escrever poesia depois de Auschwitz é bárbaro» mas para Paul Celan «Algo sobreviveu no meio das ruínas. Algo acessível e próximo: a linguagem». São posições antagónicas que este livro de 132 páginas, com tradução, selecção e introdução de Bruno Monteiro e Sarah Moskovitz, vem revelar e chamar a atenção. A origem destes poemas é o Arquivo Ringelblum mas nem todos eles forma escritos em Varsóvia; alguns foram compostos em Ostvosk, Lodz ou Vilnius. Todos, porém, são de autores que viveram e escreveram sob a permanente ameaça de morte. Dois exemplos: Moishe Kaufman nasceu em Varsóvia em 1908 e morreu em Buenos Aires no ano de 1991. Durante a Segunda Guerra Mundial esteve na Ásia Central, regressando à Polónia com o fim das hostilidades mas em 1948 mudou-se para Paris e para Buenos Aires em 1952 onde foi director de uma editora. Vejamos o seu poema «Sem palavras»: «Sem palavras mas com lágrimas / eu juro o meu eterno amor. / Enquanto o sangue no meu coração fluir / não vou esquecer o doce sonho. / Enquanto a minha alma puder lembrar / eu vou chorar, lamentar e buscar o amor». Kalman Lis nasceu em Kowel (1903) no noroeste da Ucrânia e estudou numa escola tradicional (kheder) tendo de seguida frequentado o Liceu e as universidades de Vilnius e Varsóvia. Especializou-se no ensino de crianças com necessidades especiais, tendo sido director de um Lar para estas crianças em Otwock, perto de Varsóvia. O Lar foi bombardeado em 1-9-1939 pela aviação alemã. Em Agosto de 1942 as tropas alemãs fuzilaram as crianças do Lar à sua frente e mataram-no a ele também. O seu poema intitula-se «Mundo, porque te calas?»: «Isto, eu sei, que não será mais do que um poema / um poema feito de ritmo e rima / talvez ele consiga falar ao espírito / e não seja apenas desperdício de tempo… / Pois pode lá haver sentido e valor / em brandir e terçar as espadas / ensanguentadas uma e outra vez / abrindo feridas no coração da terra. / Ainda assim uma força impele-me a agir / como a águia rompe a jaula para voar em céu aberto / um lobo luta com a sua armadilha para fugir para os bosques / e o tronco do carvalho lança a seiva para os ramos. / Mundo, onde está o teu coração e a tua consciência? / Presta atenção às perseguições dos assassinos! / Olha para o judeu pois ele semeou o teu campo / para tirares colheitas de amor e espírito. / O judeu porque é simplesmente um judeu/ e não um alemão – não um puro ariano / mas aquele cuja marca de nascença é semita - / atreveu-se a dar à luz o próprio deus.» Ao longo do Tempo a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes e este livro revela uma parte do que foi possível resgatar do esquecimento relativo dos anos de chumbo no ghetto de Varsóvia. Não se limitam ao testemunho, trata-se de poemas pois ao sangue pisado da vida juntam o estilo da escrita. São literatura. (Editora: Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Tradução, selecção e introdução: Bruno Monteiro e Sarah Moskovitz, Coordenação gráfica: Augusto Baptista, Capara: Arquivo Oyneg Sahbes, Emanuel Ringelblum/Yad Vashem – Museu de História do Holocausto) --

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por José do Carmo Francisco às 09:00



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