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Transporte Sentimental



Terça-feira, 12.01.16

à memória de olímpia do carmo almeida - foto de valter vinagre

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Numa manhã de Abril, quando não me disseram (nem poderiam ter dito) «A tua mãe morreu» porque (todos o sabemos) as mães não morrem; apenas o seu corpo se esconde nos degraus da terra e do silêncio. Nessa manhã de Abril senti que toda a terra secou; não toda a terra mas apenas a que ficou entre os meus pés e a terra propriamente dita. Lembrei-me então de como essa secura só poderia ser de facto resolvida pela água, uma certa água de 1956, tinha eu cinco anos, trazida em cântaros vermelhos do Poço do Povo para os louceiros com dois intervalos para o bojo. Havia um pano branco a tapar o sol que entrava por uma telha de vidro. Havia uns papéis com uns motivos de cores berrantes a servirem de naperon na prateleira. Havia o ar, o peso do ar de 1956, tinha eu cinco anos e só a memória desse ar me segurou. Havia a rodilha feita de um lenço azul comprado na Feira Grande de Rio Maior. Havia (enfim) a água de 1956, tinha eu cinco anos, aquela que hoje me poderia matar a sede ou resolver de vez a secura da terra debaixo dos meus pés suspensos como naquela manhã de Abril. Há oito anos, precisamente há oito anos, foi assim. Uma manhã de Abril que veio trazer o contrário da Primavera. Cada badalada do sino era uma vírgula de lágrimas na pontuação da tarde que devagar morria para o lado do Oceano Atlântico. E o comboio da Linha do Oeste apitava perto de São Martinho do Porto a fazer o ponto final desta página de angústia começada a ser escrita numa manhã de Abril. --

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por José do Carmo Francisco às 10:15



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