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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 11.06.15

«a maldição de ondina» de antónio cabrita

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A maldição de Ondina que dá título ao livro, não é ficção: «Um golfinho só pode adormecer um dos lóbulos cerebrais, o outro está em vigília para lhe manter o automatismo das funções vitais, como a de assomar à superfície de cinco em cinco minutos para respirar.» É nessa maldição como metáfora do seu Mundo que repara Raul (polícia), amigo de César (escritor) desde o quinto ano do liceu: «Olha o desenho que as balas fazem. É a constelação do golfinho.» Dito de outra maneira - embora nesta história se cruzem três linhas (o amor, a literatura e a acção), de comum a estes três eixos narrativos existe o pano de fundo dum território (África) onde não se pode dormir: «O anel mágico torna as pessoas felizes e generosas durante algum tempo até que se dão conta de que não conseguem passar a vida a só desejar o bem, que mais vezes do que gostariam desejam o mal de terceiros.» Por isso em África tudo é diferente, pensa Raúl: «É o que mais lhe custa desde a guerra, ver como a doença e o crime não deixaram de engrossar o exército de órfãos em que o país se tornou.» Além da história policial (César e Raul) e da história de amor (Argentina e Beatriz), a narrativa introduz outras figuras (Aurora, Filipa) e resgata da tela uma actriz (Rita Hayworth) que salta da ficção para a Ilha de Moçambique. Mas também existe a reflexão de Beatriz: «Acreditei durante muito tempo que a literatura era uma coisa e a sociedade outra. A literatura é uma coisa benigna e fechava os olhos ao resto. Hoje já não consigo separar os livros das suas condições de produção.» E Beatriz conclui: «Estás a ver a grandeza moral dum fedelho de 17 anos com a quinta classe a quem a vida só pisou, que é comida e cuspida por um safado com o dobro da idade e que tira as consequências morais dos seus actos… Senti-me uma charlatã: interessava-me mais um novo livro de Mia Couto do que conhecer o inferno que ele resgatava…» Percebe-se no fim destas 233 páginas que a vida em África é difícil, complicada e problemática, há por aqui um assassino que deixa no bolso das vítimas uma frase de Albert Camus, uma mulher com a mão feita em sal, os feitiços e os espíritos (gente invisível) tudo fazem para que não haja descanso na vida dos atónitos espectadores da narrativa. Como atónita está a viúva da página 19 a ouvir os cunhados partirem a mobília da sua casa porque «Curandeiro disse que tem muito dinheiro em casa do mano…» (Editora: Abysmo, Ilustrações: João Maio Pinto, Posfácio: Nazir Can, Revisão: Raul Henriques) --

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por José do Carmo Francisco às 11:43



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