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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 30.11.16

«a hora das coisas» de fernando chagas duarte

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Depois de «quase cem poemas de amor e outros fragmentos» (2014) surge em 2016 este segundo livro de Fernando Chagas Duarte (n.1964). O título vem da página 11: «um cronómetro incerto / trabalha pelo lado de dentro de todas as rotinas felizes / são ciclos de outras – serão tantas outras – coisas cheias / apeadas e em marcha / digo-me as horas uma a uma – como se fossem coisas com ideias próprias de serem ideias. Digo-as e penso: é a hora das coisas! O volume organiza-se em três capítulos: «Dez espontâneos», «Ciclos in vitro» e «Da guerra». O autor coloca-se entre a Vida e a Morte, definindo-se como indivíduo: «o pensamento ou a tristeza profunda / é a profusão amadurecida da beleza humana / - o indivíduo, eis o desamparo formulado da ironia.» É no intervalo entre esses dois grandes espaços que a Poesia surge qual balança que «tudo pesa»: «Querer ir à praia, quando falta para o Verão / sonhar com a amada, quando falta para o quarto / colorir o céu de pálido amarelo, quanta tinta gasta /recordar os mortos, quanto a mim me falta». A guerra no seu absurdo («As aves voavam ao contrário») significa morte: «o meu avô / que regressou da guerra para se enforcar / com triste galhardia na janela de casa / no quarto ao lado dos que são seus / foi soldado raso sobrevivente que se recusou / ao jogo das peças brancas.» A relação «guerra/morte» surge noutro poema na página 100: «eu, sob o chapéu-de-chuva / só caminhava como um ladrão / mas nunca roubei nada / nesta vida / que me assalta todos os dias / à mão armada.» A solução do absurdo da Vida será sempre o Amor que é a outra palavra da Poesia, só acessível a crianças e poetas: «As crianças e os poetas/ não enlouquecem, não sabem enlouquecer (…) são eles os exploradores definitivos da alma / quaisquer que sejam as profundidades / oceânicas em que banhem os pés. / Recordam um fim do mundo jovial / logo adiante.» (Edição: Pastelaria Studios, Colecção: A poesia pode durar um dia) --

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por José do Carmo Francisco às 12:12



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