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Transporte Sentimental



Terça-feira, 17.11.15

«a dieta ideal» de francisco josé viegas

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O dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) terá escrito algo como isto que cito de cór: «é a sucessão das gerações que nos salva do vazio». Francisco José Viegas (n.1962) revisita neste seu livro de 71 receitas o espaço (paisagem e povoamento) de Trás-os-Montes, o mesmo espaço que já tinha povoado o seu livro de poemas «Se me comovesse o amor». As receitas deste livro nasceram nas honestas cozinhas da família, dos avós Álvaro, Isabel, João e Palmira, da tia Maria de São José, dos pais, isto num tempo em não havia «chefs» na televisão nem produtos ditos «biológicos» nas feiras das cidades para deslumbramento de gentes urbanas sem raízes nem referências e que, por isso, mais facilmente podem ser enganadas. As 71 receitas estão divididas em quatro grandes grupos: «Nem carne nem peixe» (19), «A leveza das coisas» (18), «As obsessões do arroz» (12) e «As grandes euforias» (22). Não deixa de ser curioso que o autor, tendo nascido em Foz Côa e vivido em Chaves, tendo família espalhada por uma Província onde há batatas magníficas e onde a castanha é rainha, mostre a sua especial predilecção pelo arroz a ponto de lhe reservar 12 receitas em 71. No entanto a batata não é esquecida na introdução do livro, na página 15: «a batata é o alimento com mais serotonina, a molécula da alegria». As batatas de Ramalho ortigão não faltam na página 31 mas são vastas as referências a grandes autores a começar por Camilo Castelo Branco e por Machado de Assis. O humor está presente em algumas frases deste livro. Na página 10, por exemplo, o autor afirma «as regras da Comissão Europeia sobre o calibre dos produtos agrícolas deviam ser levadas a tribunal». Por sua vez na página 13 escreve: «A verdade é que já vi pessoas comerem «delícias do mar» e, estranhamente, continuam vivas.» O próprio título do livro será irónico pois não existem (felizmente) dietas ideais sabendo nós que a gramática da nossa cozinha, a chamada gramática básica da nossa gastronomia nada tem de liofilizado pois engloba quatro elementos-chave, a saber: cebola, azeite, tomate e arroz. Produtos naturais, enfim. Concluindo: o ponto de partida é a cozinha da família mas o livro viaja com o autor pelo tempo e pelo Mundo e tem, por isso, receitas mexicanas, brasileiras e de outros lugares como Roma ou o Iraque mas também recolhe memórias como as do refeitório do Liceu de Chaves onde à quarta-feira se servia «rancho» e havia meninas que preferiam «filetes de pescada». E para terminar com outro sorriso, veja-se a página 13: «As mães não podem telefonar enquanto deixam comida ao lume». (Editora: Quetzal, Revisão: Teresa Machado e João Assis Gomes, Design da Capa/Composição e Imagem: Rui Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 13:15



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