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Transporte Sentimental


Terça-feira, 14.02.17

dissertação breve para uma foto de josé alex gandum

Jose Alex Gandum.JPG


A foto integra a grande exposição patente no Bar «Velha Gaiteira» entre as 12h30m e as 2 horas da manhã na Rua das Pedras Negras nº 17 (ali à Sé de Lisboa) telefone 218865046. Embora não explícito, o eléctrico parece ser o «28», o mais célebre de todos os eléctricos do Mundo por dois motivos – os bons e os maus. Os bons são a sua popularidade que já vem de longe: quando comecei a trabalhar há cinquenta anos, o «28» era usado pelos empregados do Banco Português do Atlântico da Graça que vinham trazer à Baixa (Rua do Ouro nº 110) os assuntos mais urgentes daquela dependência, os que não podiam esperar pelos estafetas. Nessa altura (1966) não se chamava passe mas sim assinatura. Quem usava o mesmo documento era um empregado da Casa José Alexandre ali na Rua Garret ao Chiado. Os maus motivos são os carteiristas profissionais, portugueses e estrangeiros, que actuam em grupo para desespero dos turistas e nojo dos portugueses. Durante muito tempo fui obrigado a utilizar o dito «28» para ir à «Voz do Operário» buscar o meu neto Pedro e algumas vezes me senti mal na plataforma do eléctrico mas tudo isso acabou e ainda bem. Voltando ao tema: tudo isto na fotografia me parece belo como um pregão de Lisboa, daqueles pregões antigos («fava rica!», «morangos de Sintra!», «figuinhos de capa rôta!») que os supermercados e a velocidade da vida actual já não permitem. Hoje não há vagar para a senhora descer do terceiro ou do quarto andar do prédio e escolher peixe («ó viva da Costa!») na canastra da varina. Já não há senhoras nem varinas, a vida mudou e está sempre a mudar. Só não mudam os eléctricos de José Alex Gandum, cheios como latas de sardinha de gente que tem pressa de viver para chegar a toda a alegria, a todos os encontros e a todo o Mundo. --

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por José do Carmo Francisco às 10:51

Segunda-feira, 13.02.17

«desde o paço ao são joão / com sua torre e pombal»

Menino 1951.jpeg


O menino que era eu em 1951 não pensava em viajar. Sãos coisas (a outra é a morte) das quais uma criança não elabora conceitos. Para a criança não há morte nem distância, só começa a perceber a morte quando lhe morrem os avós e percebe tudo quando lhe morre a mãe. A morte de quem lhe deu a vida é o momento-chave de um qualquer percurso. Pois o menino que eu era em 1951 nunca pensou viajar tanto: Brasil, Espanha, Itália, Açores, Madeira, França, Bélgica, Holanda, Escócia, Inglaterra. Umas em Turismo, outras como enviado-especial do Jornal «Sporting» entre 1988 e 2006. Também no território do Continente foram muitas as viagens de trabalho: Porto, Faro, Braga, Coimbra, Beja, Setúbal, Lourinhã, enfim… Mesmo a chamada «vida militar» envolveu algumas viagens entre recruta e especialidade: Caldas da Rainha, Lumiar, Évora, Pontinha. O meu destino nesse tempo era ser navalheiro e talvez por isso ando sempre com uma navalha comigo. Mais tarde no Montijo houve quem dissesse que o meu destino era ser fragateiro porque até 1966 o comércio para Lisboa era feito pelas fragatas pois não havia ponte. A única ponte era a de Vila Franca de Xira e eu via passar na Rua Sacadura Cabral as camionetas de carga a caminho de Alcochete, Porto Alto e Vila Franca. Foi no Montijo que ouvi, dita por uma senhora toda fina, uma frase terrível «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!» E eu que era filho de um motorista não fui para o Liceu de Setúbal. Fui para uma Escola Técnica em Vila Franca de Xira onde vivi de 1961 a 1966. Sempre o Tejo na minha vida. Vim para Lisboa trabalhar com 15 anos e estive em Santarém de 1997 a 2001 no jornal O MIRANTE. Hoje estou mais na viagem da ternura: pai, irmãs, esposa, filhos, netos, sobrinhos-netos, cunhados, genros, nora, amigos. São estas as viagens de agora. --

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por José do Carmo Francisco às 08:32

Domingo, 12.02.17

carlos garcia de castro sobre cesário verde - poema em forma de crónica

Raul Ladeira.jpeg


Nota de abertura – a foto é de Raul Ladeira. No seu livro «Crónica da fortuna» António Osório recorda que «Poesia e prosa estão juntas no mesmo jacto, na mesma destreza, na mesma ironia e na mesma verve. Camilo, nas cartas mais torturadas, escreveu também poesia. Alguns contos de Torga pertencem à sua poesia mais genuína. As narrativas de Borges têm densidade igual à dos poemas e o mesmo se diga das crónicas de Bandeira, de Cecília e Drummond em relação à poesia deles. O poeta Octávio Paz é também um dos maiores ensaístas do nosso tempo. Poesia e prosa vivem paredes meias, quando não coabitam na mesma pessoa como sucede com Régio e Nemésio, Sophia e Eugénio de Andrade.» vamos então ao poema em crónica de Carlos Garcia de Castro (1934-2016), poeta de Portalegre: «A Cesário Verde Tenho uma loja de vender ferragens, a minha terra já não é Lisboa. Mas hoje nem sequer me arrependi. Ser-se moderno confunde, ninguém se vai proclamar… - À fava a dispersão das almas proporcional de haver contratos maiores e os menores, assegurados. Não procurei, nem li, nem disfarcei – sou vendedor de ferragens. Dou muito pouco de pensar angústias, para consultar depressões. Estarei ausente nos congressos ávidos onde há, benignas, as inócuas actas. Os meus negócios são outros. Mais fácil será, comigo, fingir qualquer literatura do que afagar as crianças dum velho amigo meu que é professor. É imoral fazer pornografia, quer solitário, quer acompanhado. Que eu nunca me esforcei por ser escritor. Não vim para a rua com panfletos rútilos, as grandes hecatombes da palavra de bem servir a condição mental. – Em cada coisa a coisa enquanto seja de haver em cada coisa a natureza. A todos vos olhei do mau olhado, escandalizei por serem meus amigos (ainda que um poeta aqui de perto!) eternos num café a conversar…desconfiado de cigarro à boa, com vinho e licores, acrobacia entre o dever, competências e o ser, de anonimato, um cidadão. Só hoje, de exercitado, com gerações esforçadas de ironias, pernas abertas, assentes os pêlos aqui do peito vorazes a descoberto - hoje! minha alma se borrifa em vocês todos. De manhã lavei-me com sabão azul, mas já não fui convosco pra correr no campo. Deu-me vontade de cantar sozinho, como só calçando tennis sou capaz, concretamente sozinho, comigo e tudo à volta como as árvores. O footing é sempre ingénuo e parvo, se vierdes, companheiros. Porque amanhã terei de novo a minha opinião e mais mulheres para beijar nevrótico; serei pálido. Terei convosco as mesmas criancinhas e os velhinhos, palmadinhas – Borotalco. Direi a toda a gente, concentrado – Boa tarde!... e vou tomar a Bica no emprego, maledicente, fresco, barbeado, solene e ao mesmo tempo saltitante como um cristão aos domingos. Assim já todos somos bem-avindos. Ser-se moderno confunde, ninguém se vai proclamar… Agora – não! Deixei-me de prever civilizações, sou novamente burguês. Apenas que a ser poeta, não sei o que hei-de ser nem que dizer. Provavelmente convicto – como vocês.» datas do texto 1987 (1955) --

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por José do Carmo Francisco às 12:17

Sábado, 11.02.17

cascais - do verdeiro ao falso, do legítimo à imitação

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«Oh minha senhora, em Cascais não há primas, são todas tias!» - A frase dirigida a Mafalda Ferro na apresentação de Maria João Bastos que ia cantar um fado no lançamento de um livro num dia de São Martinho, dita por um homem já bem «aviado» de castanhas e água-pé, é identificadora de uma ideia feita sobre uma paisagem e um povoamento. A escolha de Rita Ferro para este texto não é ingénua. Com ela quero significar um conhecimento e uma aceitação. Conheço Rita Ferro há muito tempo, fui visita de suas casas em Rio Maior: Vale de Óbidos e São João da Ribeira. Nasci em 1951 e comecei a trabalhar em 1966. As condições eram estas: ganhava 900 escudos por mês e descontava para o Sindicato 9 escudos mas não podia ser sócio, coisa que só seria possível aos 18 anos. No primeiro ano de trabalho só tive 12 dias de férias e descontava para o Fundo de Desemprego mas se ficasse desempregado não ia lá buscar nada. Apesar disso tudo eu sou amigo e respeito as pessoas de Cascais como a Rita Ferro. Mas não faço confusão entre verdadeiras e falsas, entre legítimas e de imitação. Outro dia na Estrela encontrei um pobre diabo que trata a neta por você e fala à maneira de Cascais mas nasceu num lugar perdido na Beira Alta, entre cabras, pedras e pinheiros. As pessoas de Cascais, as verdadeiras e legítimas dizem caminete por autocarro, remédio por medicamento, redondel por rotunda e enterro por funeral. Os outros, os falsos e imitadores, apenas copiam e mal. Cascais é Ruben A., Fernando Pessoa, Júlio Conrado, Fernando Grade, Rita Ferro, os romances, as crónicas, os poemas, a literatura. Tudo isto vem a propósito de um patrão que quer mais liberdade para despedir os seus brasileiros, indianos, nepaleses e filipinos. Esse apareceu na Internet mas outro que vai pelo mesmo caminho não teve direito a holofotes embora o erro seja o mesmo: há sempre advogados disponíveis para chafurdar no limite entre o Direito e a Justiça. Lembrei-me de 1966 mas estamos em 2017 e ninguém aprendeu nada. Tenho um amigo que chama a essa gente os bimbos de Cascais. Mas Cascais não merece ser associada à pocilga onde se movimentam. Cascais é outra coisa, está acima desse lamaçal. --

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por José do Carmo Francisco às 14:23

Quinta-feira, 09.02.17

«nunca direi quem sou» de vergílio alberto vieira

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Vergílio Alberto Vieira (n.1950) é poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e autor de livros para a infância. Celebrou os 45 anos de edição de poesia com «Todo o trabalho toda a pena» dado que o primeiro livro («Na margem do silêncio») é de 1971. Nestas dez narrativas dois dos títulos são da autoria de Sophia de Mello Breyner («Todas as cidades são navios») e Marguerite Yourcenar («O último acampamento do nómada»). Dou o nome de «narrativas» mas sem esquecer as lições de Italo Calvino: «Estou convencido que escrever prosa não deve ser diferente de escrever poesia; em ambos os casos é a busca de uma expressão necessária, única, densa, concisa, memorável». Cada uma das dez «narrativas» faz uma homenagem a um autor: Chuan-tzu, Sapho, Epitecto, Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny, Dinis Machado, Clarice Lispector e Herberto Helder. Sendo «a literatura uma homenagem à literatura» o ponto de partida do livro de Vergílio Alberto Vieira é a vida («Fumando o último cigarro, dou-me conta de que passei parte da noite à janela do meu quarto») não uma vida em abstracto mas uma vida que se escreve: «A contradição é regra e escrever a mais suspeita forma de estar só». As perguntas são fortes («Ninguém sabe onde começa o mundo. Em que lugar da terra repousa a vida?») e as respostas só podem ser as do Estoicismo («Não cedas companheiro ao prazer») ou do Amor: «As mulheres as mulheres, não irradiam certas mulheres aquele aroma que só algumas flores, uma vez por outra, oferecem?» Memória de um lugar que já não existe (o «Expresso» onde minha filha Ana Maria ia todos os dias tomar um café com livreiro José Vicente) existe na página 85 deste livro uma revisitação que não se pode perder: «Ao Expresso onde às oito, tmg – sôr Assumpção, ao telefone – cairá o pano, Albertini, o acrobata, lá estará, olhem só este agora – para medir a temperatura de Deus, entre as demais, e depois será Verão, para que Lisboa, em camisa, esteja com ele e não arrefeça o carioca de limão, pedido à lista, já se vê, enquanto comentado, até que chegue mais algum porque à quarta é certo, anda a roda, e lá fora o bronzeado cauteleiro faz-de-conta-que-dá-sorte aos pombos revelhudos que a Dona Rosa adoptou há anos até que a morte e a Santa Casa os separe para sempre.» (Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado, Foto do autor: Sérgio Granadeiro) --

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por José do Carmo Francisco às 13:26

Quinta-feira, 09.02.17

o rei salomão da rua luz soriano (a gonçalo pereira, amigo e mestre)

Foto Jacinto Baptista.jpeg


A cena passa-se na redacção do «Diário Popular» nos anos 80 do século XX. Há uma mesa na qual um empregado (o senhor Seminário) coloca ao longo do dia pacotes de livros enviados pelas editoras portuguesas ao cuidado de dois jornalistas: Jacinto Baptista e Abel Pereira. Os redactores vão levando os livros para os lerem e escreverem uma nota sobre os mesmos. Às vezes há livros com vários candidatos: o «Fabulário» do Mário de Carvalho, por exemplo. Aí Jacinto Baptista vê-se obrigado a decidir. Outras vezes há livros nos quais ninguém pega. Recordo a «Lira de Líquen» do Nuno Júdice. Quando eu me propus a levar esse livro para o ler e escrever para o «Diário Popular» uma nota de leitura, logo algumas vozes se levantaram contra a ideia porque, no fim de contas, eu era apenas um colaborador, não um redactor efectivo. Na altura não percebi muito bem mas era o preconceito a funcionar porque até 1966 (fundação do CNID) os jornalistas desportivos eram sócios do Sindicato dos Tipógrafos e Ofícios Correlativos. Toda a gente ali sabia que eu tinha sido apresentado em 1978 a Jacinto Baptista por Carlos Pinhão porque o jornal A BOLA era impresso nas oficinas do «Diário Popular». Mas Jacinto Baptista tomou uma decisão salomónica: resolveu dar-me o livro do Nuno Júdice e marcou um prazo de oito dias para ter a nota de leitura despachada e entregue. Claro que na semana seguinte lá fui levar o resultado da minha leitura, ainda se escrevia à máquina num «linguado» com o logotipo do jornal no cabeçalho. Correu tudo nos conformes mas Jacinto Baptista já estava cansado e farto de ser o rei Salomão da rua Luz Soriano. Como se vê por esta amostra o pó e a posteridade estão às vezes separados por um pequeno acaso. Se eu não tivesse pegado no livro do Nuno Júdice ninguém tinha feito a notícia. --

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por José do Carmo Francisco às 09:42

Quarta-feira, 08.02.17

lamentação para o menino atónito na cidade frente ao tejo

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Eu não vi o teu olhar porque não estava junto a ti quando foste mandado embora às treze horas por causa dos parasitas. Não tenho a certeza mas sinto que estavas atónito naquele momento. De uma coisa tenho a certeza: há duas coisas que nunca acabam no Mundo, a paisagem e a estupidez. Podes entrar num comboio aqui em Lisboa e ires até à Mongólia (a terra do nosso amigo pintor Ruslam Botiev) e a paisagem nunca acaba porque é sempre diferente na janela do comboio. A estupidez também se renova e aparece de modo inesperado, com as pessoas inesperadas e nas situações inesperadas. Esta dos parasitas na tua cabeça, nos teus caracóis, doeu ainda mais porque tu não és a origem dos parasitas mas apenas uma vítima lateral. Não podes ser o bode expiatório do drama no qual são outros os protagonistas. Por ti sou outra vez menino, outra vez vítima da brutalidade daquela mulher do Montijo para quem «os filhos dos motoristas não vão para o Liceu», por ti sou outra vez o menino atónito perante o director escolar inflexível que não me deixou entrar na Escola Primária do Montijo antes de fazer sete anos mesmo sabendo que logo em Fevereiro de 1959 ia fazer oito anos e continuava na primeira classe. Eu não vi o teu olhar no momento de sair à pressa pelas treze horas desse dia mas tenho quase a certeza que além de atónito estavas incrédulo e surpreendido. A violência sem limites contra ti, contra a tua inocente boa-fé, contra a limpidez do teu olhar é uma violência tão brutal e tão sem razão de ser que não tem perdão. Eu nunca vou esquecer a injusta exclusão por causa dos parasitas nos teus caracóis iluminados pelo Sol. Ao menos esse continua a encher de luz os teus cabelos, indiferente à cidade onde a estupidez tomou conta da ruas e das praças, das calçadas e das travessas. --

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por José do Carmo Francisco às 13:34

Quarta-feira, 08.02.17

saudação breve a ana cruz - nova alfarrabista de lisboa

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A sua nova loja de livros antigos fica na Calçada do Combro nº 27 em Lisboa, e fica muito bem ali entre o Alfarrabista do Calhariz (José Manuel Rodrigues) e a Nova Eclética (Alfredo Gonçalves). Num certo sentido a Ana Cruz vem «substituir» a Livraria Bocage de Fernanda Aguiar que ali esteve uns anos em frente do outro lado da Calçada quando este seu lugar era uma loja de televisões e frigoríficos. Que seja feliz na sua tarefa de divulgar livros e antiguidades, colecções e curiosidades – são os meus votos. Vai demorar tempo a criar raízes, a ter os clientes certos e fiéis mas o caminho faz-se caminhando. Fico a dever ao meu amigo Cândido Bogarim a notícia da novidade deste alfarrabista na Calçada do Combro. Fica bem perto da Pastelaria ORION onde se pode falar dos livros entre o café saboroso e o bolo acabado de fazer. É uma alegria saudar o aparecimento de uma nova casa deste ramo mas, ao mesmo tempo, é uma tristeza registar a mágoa da partida de José Vicente, o homem da Livraria Olisipo no Largo Trindade Coelho nº 7 que, não por acaso, surge na página 72 do livro «Iniciação à Bibliofilia» de João José Alves Dias. É desse livro uma definição feliz de bibliófilo: para o ser «é necessário amor, carinho e estudo pelo livro que se comprou, seja ele a primeira edição de «Os Lusíadas» (1572) ou a da «Mensagem» (1934)».Cícero disse um dia que «uma casa sem livros é um corpo sem alma». Já Guilbert de Pixérecourt afirma «o livro é um amigo que não engana nunca». Talvez esteja nestes dois verbetes do «Dicionário Excêntrico» de Amadeu Ferreira de Almeida a razão de ser da minha antiga e cada vez maior paixão pelos alfarrabistas: nascido em 1951 numa terra sem livrarias e criado numa casa sem livros eu continuo à procura, hoje em 2017, desses amigos que não nos enganam nunca. --

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por José do Carmo Francisco às 09:24

Domingo, 05.02.17

dinis machado «bairro com cidade e mar ao longe»

Bairro Alto.jpeg


O texto pertence a Dinis Machado (1930-2008) é de Fevereiro de 1988 e foi publicado no livro da Marcha do Bairro Alto em 1997: «Estive aqui desde 1930, quando nasci, para ficar a aprender mais de 30 anos de acontecimentos. Moradia complexa, atribulada, sacudida de alegrias violentas e de tragédias estúpidas. Também lugar de heranças, de trocas e de percursos. Um bairro, um país a crescer dentro do País, o mudar de casaco, sempre curto nas mangas, onde se exibiam os portadores do caos e do rigor, os contrabandistas e os idealistas. Um vulcão de ideias e de palpitações, de conspirações, de senhas, de contra-senhas, de livros, de jornais, de artistas, de espectáculos, de lutadores, de visionários e outros mensageiros do futuro. Como se organiza a exposição de metade de uma vida, a mais densa e caótica, em atmosferas itinerantes de estruturas suspensas, lojas de esfumada arrumação, com ventos brancos, feitos de roupa lavada, nas janela do dia? E que noite se anuncia? E que luz persiste no que ainda amo? A Capital da memória, o trabalho do calendário nos caminhos do corpo é isto: o sol que tudo aqueceu, a noção mais equilibrada do que se sente, a força, agora mais enxuta, de continuar. É a sombra morna, em horizonte devolvido, do miúdo que se gastou. A dar pontapés em caricas e a comer castanhas assadas. Eu e um velho amigo, de cinquenta anos de diálogos, saíamos então de um quadro, espalhando no real a cor do entardecer. O bairro fica com menos duas pessoas. – A infância não envelhece – diz ele, metendo por portas e travessas de labirintos da vida. – Pois não – respondo – Mas, com os anos ganha ferrugem nas articulações. Rimo-nos. Escrevemos uma legenda a meias: «Bairro com cidade e mar ao longe». Ou como dizia o Necas, pála num olho e joelhos esfolados (desconhecendo que já encontrara o que procurava): «A Ilha do Tesouro». --

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por José do Carmo Francisco às 21:51

Sexta-feira, 03.02.17

américo durão - do couço para «o centro do mundo»

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Américo Durão (1896-1969) surge na página 22 do livro «Coração Arquivista» de António Manuel Couto Viana (Editora Verbo) com as seguintes palavras sobre a peça «O Centro do Mundo» que era a reconstituição quase fiel da sua casa de família no Couço (Coruche): «O Centro do Mundo é a mais sentida e a mais difícil de todas as minhas obras de teatro. Se dissesse que não a estimo, faltaria à verdade. Com as qualidades e os defeitos que com certeza tem, dela poderia dizer, parafraseando Flaubert: todas as personagens desta peça, desde D. Madalena a Rosária, de Vítor a Pedro, existem em mim, são eu próprio. O fulcro do drama, porém, é a aldeia. Os seus acontecimentos mais relevantes, os seus mais recônditos segredos, como pequenos rios, vão dar a casa de D. Madalena que, pelo seu espírito largamente compreensivo e cristão, a todos acolhe com tolerância e generosidade. Uma peça desta natureza é natural que não possua aquela unidade que eu próprio muito desejaria ter-lhe dado. Poderei, talvez, compará-la a um friso de painéis de azulejo unidos pela mesma cercadura. Incindindo sobre cada um dos painéis um foco de luz ilumina-o isoladamente, ficando os outros na obscuridade. Mas, se quiserem olhar com atenção e boa vontade, hão-de descobrir nos painéis desse friso aquela unidade que só aparentemente lhes falta. É essa benevolente simpatia que eu desejo para a minha peça e com humildade vos peço.» --

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por José do Carmo Francisco às 10:10


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