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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 16.10.13

«a liberdade de pátio» de mário de carvalho

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Mário de Carvalho (n. 1944) estreou-se em 1981 («Contos da sétima esfera») e tem sido um devotado praticante do conto sem esquecer os seus romances, o teatro, as novelas e a literatura infanto-juvenil. Leitor ávido que sou do conto em geral e praticante obscuro, faço uma declaração de interesses prévia: publiquei contos em «Os guarda-redes morrem ao Domingo» e sou um apaixonado da arte. Fico feliz por ver um Nobel atribuído a uma contista canadiana e admiro os contos dos nacionais como Irene Lisboa, Lídia Jorge, Ondina Braga e Judite de Carvalho ao lado dos internacionais como Tolstoi e Borges, Tchekov e Kafka.

Em «A cabeça de Mânlio» surge o esplendor do insólito: alguém que transporta a cabeça de um cadáver (diferente de um defunto) não pode entregar essa cabeça no destino porque se «acabaram as senhas». O dito normal (falta de senhas) abafa o esquisito (transporte de uma humana cabeça). Já em «A liberdade de pátio» aparece a metáfora perfeita do nosso tempo e da nossa vida: temos liberdade para votar de quatro em quatro anos mas depois os nossos eleitos votam entre si num sentido oposto aos nossos interesses, direitos e aspirações, levando o governo e a coisa pública para o «estado a que isto chegou». Mário de Carvalho não é indiferente às questões da linguagem; não por acaso surgem no seu conto expressões vernáculas como «cintura de vespa», «magala», «pronto», «asilo», «bisonha», «lacaio», «baiúca» e «colchão de palha». No conto «Os caminhos do sucesso» o autor transforma a emigração dos jovens portugueses (que é uma tragédia) numa coisa divertida e, num certo sentido, escreve à imagem de Dinis Machado que mesmo num funeral perguntava sempre - «Qual é o lado cómico disto?» A propósito do caldo verde em Inglaterra pergunta Mário de Carvalho: «Como é que um povo que conheceu tardiamente o chá e o garfo, que bebe vinho do Porto fora do Natal, que tem o palato habituado ao rosbife, que ainda não se reconciliou com o alho e tolera os kebabs, haveria de se acostumar ao caldo verde?» Já em «A força do destino» juntam-se quatro homens, todos professores aposentados, remediados e opiniosos - «eram todos viúvos, o que é uma condição irritante e, sobremaneira, antinatural». Mas este é um país de coisas insólitas: «um golfista experimentado fulminou um pobre pássaro que deambulava ao longe, um sem-abrigo encontrou uma mina de ouro quando se recostava num barranco para dormir e o Presidente da República de Portugal curou um cego pela mera imposição das mãos». Nota final: em «O passe social» percebe-se como em tempo de promessas por cumprir um empregado do Metro persegue um pobre utente que lhe perguntou pelo «passe» tendo ele vislumbrado na pergunta uma promessa de compra. E tão firme e solene que tudo se cumpre mesmo depois da sua morte. (Edição: Porto Editora, Colecção: Obras de Mário de Carvalho) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 13:07



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