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Transporte Sentimental



Terça-feira, 01.10.13

«os que mandam são feitos / de papel reciclável»

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Depois de «Lábio cortado» (edição Livro do Dia) e de «Cadernos de Milfontes» (edição Volta d´mar), este terceiro livro de poemas de Rui Almeida (n. 1972) abre com uma citação de Fernando Assis Pacheco com data de 1984: «o mais simples verso / tem manchas cicatriciais / embora não se note». As «Leis da separação» que dão título ao livro surgem na página 7. O poeta adverte («Não digas a ninguém que estás contente») e conclui: «Os que mandam são feitos / de papel reciclável.» Esta mesma separação aparece no poema da página 13 dedicado a Arménio Vieira, poeta de Cabo verde e do Mundo: «Ao leitor se reconhece a distância / Entre o corpo e o texto que remete / A vontade a um lugar no inferno.» Mas está também no poema da página 39: «Em cada lugar / Se acolhem, se aconchegam / As partes separadas / Autónomas e reais / Com seus próprios nomes.» A escrita serve para unir o separado («Uma vírgula a mais altera / Todo o texto») e um dos poemas do livro convoca o Natal como espaço oposto à separação: «A noite é sempre uma bênção / Mesmo quando o calor do lume se apaga / E apenas vemos o que está perto / Demasiado perto para perceber / Contornos e cores ou distinguir / Cheiros. A noite tem texturas / De caminho difícil até / Ao limite do mais belo. / Devagar é noite e dói / Subir à manhã com os olhos.»

«Falaremos depois»- escreve o poeta no derradeiro poema do livro. Vai voltar. A Poesia é isso mesmo: a tarefa inacabada de juntar de novo tudo o que a morte separou. Se por morte entendermos o silêncio, a escuridão e o esquecimento. (Editora: Medula, Capa: Manuel Domingos, Desenho: Carla Ribeiro) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:39



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