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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 31.07.13

manuel neto - um olhar que não tem preço

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Manuel Neto – dissertação sobre um instante na cidade Uma cidade é, para além das suas ruas e das suas gentes, também todas camadas de memória que se apresentam no horizonte a quem a procura descobrir. A fotografia de Manuel Neto precipita uma viagem na memória pessoal com os seus invisíveis carris, suas campainhas e seus homens de bigode ao comando dos carros eléctricos. Na minha memória era o ano de 1966, era Setembro, eu tinha começado a trabalhar na Rua do Ouro, ganhava 900 escudos por mês e o «28» chegava ao Rossio pela Rua Augusta acima. Para a Estrela esse eléctrico «28» descia a Rua do Ouro até à Rua da Conceição mas só aos fins-de-semana. Já então era intenso o trânsito na Baixa de Lisboa com um sinaleiro em cada esquina. Nesse tempo não se dizia «passe» pois «assinatura» era o nome do cartão anual da CCFL para viajar em todos os seus eléctricos. Os empregados do BPA traziam todas as manhãs da Graça no «28» o saco com as letras descontadas sobre a praça e com os cheques para a Câmara de Compensação. Hoje, quando vou buscar o meu neto Pedro ao colégio, vejo a gramática da velocidade deste eléctrico a registar-se nas máquinas fotográficas dos turistas. Aqui, na fotografia de Manuel Neto tudo começa no peso das pedras que a chuva revelou debaixo do asfalto. Há nesta sua foto (como nas outras) um olhar atento, comovido e sensível que capta a cidade nos fotogramas sucessivos da sua alma e da sua paisagem povoada. Numa certa loja de artesanato na Rua da Misericórdia nº 94 os turistas compram e levam para o Mundo um instante de Lisboa que é Lisboa num instante. Quase pelo preço de um bilhete postal (parado, repetido e mecânico) o que os turistas levam, na verdade, nas suas malas atafulhadas de recordações e de objectos é uma feliz contradição – No preço dum olhar, um olhar que não tem preço. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:47


1 comentário

De João Viegas a 31.07.2013 às 10:15

Um Poeta atento e sensível à cidade que o rodeia junta-se numa cumplicidade repetida a um Fotógrafo com atenção e sensibilidade similares obtendo-se, mais uma vez, o casamento perfeito (será que existe?)entre texto e imagem.
Já imaginaram um livro em que as fotografias do Manuel Neto fossem "legendadas"pelo José Carmo Francisco? Até já tenho título e tudo "FOTO - GRAFIAS"...

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