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Transporte Sentimental



Terça-feira, 30.07.13

«se eu quisesse, enlouquecia» - herberto helder

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De Herberto Helder poeta obscuro ao Coelacanto da Revista homónima De Herberto Helder (Funchal, 1930) tenho as vacinas todas em dia. No dia em que, nos anos 80, lhe fui apresentado por E.M. Melo e Castro na Pastelaria Mourisca na Fontes Pereira de Melo fiquei logo com a ideia profunda, total e completa das suas contradições. Estava a rever provas tipográficas dum livro (salvo erro «As magias») mas advertiu-me que tinha deixado de escrever. Era o total antagonismo entre o praticado (revisão de texto) e o proclamado - fim da actividade. Mais tarde convivi com Herberto Helder no Bar Expresso (entre duas livrarias) e no restaurante «As Galegas» nas Escadinhas do Duque. Ofereci-lhe alguns dos meus livros embora soubesse que ele não lhe daria a importância relativa que, por exemplo, Mário Cesariny me afirmou ter dado aos meus livros nas visitas que em 1984 fiz a sua casa junto ao IPO. Um dia H.H. explicou-me que o seu interesse em ir ao Funchal estava reduzido a zero depois de descobrir que o seu maior amigo do tempo de Liceu tinha agora uma farmácia e o especial prazer de viajar com a equipa do Marítimo pelas cidades e vilas do Continente de 15 em 15 dias. Tenho um poeta amigo que guarda religiosamente uma edição do livro «Cobra» de H.H. devidamente alterado pelo autor no que se pode afirmar ser uma edição única, original e irrepetível. Nos tempos do Bar Expresso havia quem chamasse àquela mesa o «Chernobyl» porque o cérebro de H.H. era o reactor nuclear que fazia aquecer a assembleia de devotos. Admiro a obra de H.H. e tenho muitos dos seus livros mas não sou devoto incondicional nem fanático da sua escrita. Nesse aspecto lembro e recordo a ideia de Pedro Tamen que um dia me lamentou as circunstâncias que levaram à ausência de livros de Carlos de Oliveira e de Herberto Helder na colecção «Círculo de Poesia» da Moraes Editora. Mais tarde, em 1977, organizou uma antologia dos 20 anos do Círculo de Poesia e conseguiu incluir poemas dos dois autores nesse belo volume. O «Diário de Notícias» de 20 de Julho de 2013 dedica-lhe 4 páginas. Leio o jornal em Armação de Pera numa esplanada. E fixo as palavras de H.H. «Se eu quisesse, enlouquecia.» Nem de propósito; a meu lado uma senhora poderia ter dito o mesmo na dignidade magoada do seu olhar. Tem a seu cargo, numa cadeira de rodas especial, um jovem de 18 anos quase sem cérebro que se exprime por monossílabos. Passa por mim um casal cujo filho mais velho morreu no mar há vinte anos e tinha no olhar 18 primaveras de esperança. Recordo um campeão do Mundo que me disse um dia: «Trocava todos os meus campeonatos pela vida da minha filha que morreu com 18 anos». Todos eles poderiam ter dito como o poeta: «Se eu quisesse, enlouquecia». Uma das chaves para a poesia de H.H. pode ser essa: a sua mãe morreu quando ele era ainda uma criança e ele escreve para ligar de novo o que a morte separou. Todos os poetas afinal o fazem mesmo quando não parece. A Revista Coelacanto dirigida por Nádia Silvestre aí está com muita coisa interessante sobre Música, Fotografia, Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Banda Desenhada e outras artes além da homenagem a António Maria Lisboa (1928-1953). Em «Os passos em volta» H.H. recorda um coelacanto «peixe quase fabuloso que até há poucos anos se julgava desaparecido da terra». Já Mário de Carvalho em «O homem do turbante verde» lhe chama celacanto - «peixe que existe na terra há mais de setenta milhões de anos». Foi uma boa escolha para título da Revista. O António Maria Lisboa viveu vertiginosamente mas a sua obra tem estado num silêncio de fundo do mar. Como um coelacanto? Talvez. --

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por José do Carmo Francisco às 16:37



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