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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 21.06.13

helder carita - um olhar diferente sobre o b.a.

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Autor do livro «Bairro Alto – tipologias e modos arquitectónicos» e
comissário da Exposição «Bairro Alto – mutações e convivências pacíficas»
realizada na Rua do Século nº 79, o arquitecto Helder Carita (n. 1950) falou um
pouco sobre o Bairro onde vive há muitos anos e sobre o qual tem escrito e
investigado.
Sobre a idade do Bairro, eis a sua opinião: «Há várias datas mas o primeiro
documento é de 1498 e consiste num acordo entre Luís Atouguia e Bartolomeu
Andrade com a autorização do primeiro para o segundo abrir uma rua. Corresponde
a uma urbanização. Em 1502 um segundo documento refere um acordo sobre um
conjunto de ruas. Estes dois documentos correspondem à primeira fase do Bairro
Alto a sul do actual Largo de Camões, propriedades de Luís Atouguia. Em 1513
existe um novo acordo com um programa alargado que marca um conjunto de
aforamentos já na zona norte do largo de Camões. Em 1553 temos a terceira fase
com os filhos e filhas de Bartolomeu de Andrade, a partir da Travessa da
Queimada para a D. Pedro V, com a chegada dos Jesuítas à zona além dos frades
Trinos, da Trindade».
Mas a História continua: «Na zona da Rua da Rosa a caminho da Rua do Século e
na zona dos Inglesinhos havia propriedades rurais de outras pessoas como os
Caetanos e os marqueses de Niza, terrenos que o marquês de Pombal comprou para
fazer uma entrada nobre para o Bairro. Ganhou assim o Bairro essas delimitações
que o enriquecem. Ele não tem um centro ou praça central mas sim um conjunto de
jardins e praças que o envolvem como conjunto, dando ao interior do Bairro uma
certa privacidade. Não há outro Bairro com essas características. Ao longo dos
tempos o Bairro Alto foi uma fronteira entre o interior e a periferia
aumentando o sentido de identidade dos seus habitantes, tornando evidente o
entrar e o sair e também o ser ou não ser do Bairro Alto».
Helder Carita vê o presente do Bairro com lucidez: «A dinâmica do Bairro Alto
dá-lhe uma capacidade de regeneração conforme as épocas. Primeiro teve gente da
marinhagem, quadros médios como mestres carpinteiros, calafates, pilotos,
cartógrafos, artífices. A seguir teve um período de influência dos Jesuítas, a
aristocratização com a média e baixa nobreza, os funcionários régios, os
desembargadores dos tribunais. Depois chegaram os jornais que ocuparam as
antigas cocheiras, palheiros e cavalariças com as suas oficinas de tipografia.
O Bairro adquiriu uma centralidade especial por estar perto do Chiado, dos
teatros, das livrarias, dos cafés e das lojas. Tem um sentido dinâmico e
progressista com um ambiente de troca de ideias que vem do liberalismo e com a
presença activa de escritores e jornalistas além de algumas casas editoras. Na
segunda metade do século XX o ambiente noctívago passa da boémia de jornalistas
aos bares da moda. Antigas oficinas e lojas de pequeno comércio dão lugar a
ateliers, lojas de roupa e de design da moda».
Tal como uma moeda tem duas faces, o Bairro Alto tem o dia e a noite: «Se o
ambiente de dia tem a expressão de renovação numa escala humanista e de
proximidade de moradores e artistas, já a noite tem um carácter mais impositivo
e perturba numa grande percentagem a vida dos moradores. O Bairro precisa da
noite que está na sua dinâmica, a questão está na percentagem. O perigo é
quando a importância da festa da noite ultrapassa os direitos dos habitantes,
interferindo no descanso dos moradores. É um bom sintoma a política de colocar
uma esquadra da PSP na esquina da Rua da Atalaia com a Travessa da Água da Flor
e os bares passarem o fecho das quatro para as duas da manhã mas o grande
problema é fazerem da rua um bar. Um dos grandes culpados foi Santana Lopes que
na CML criou a questão do trânsito fechado quando era preferível haver
condicionamento de circulação mas sem a sua interrupção. Assim, com o tráfego
condicionado, as ruas mais facilmente se tornam bares a céu aberto».
O olhar sobre o futuro é de esperança: «O Bairro Alto, com mais de quinhentos
anos de vida, tem uma dinâmica interna que o leva a ultrapassar as várias
crises que defrontou. Dotado de excelentes infra-estruturas como hospitais,
apoios de terceira idade, escolas, centro de saúde e instituições culturais, o
Bairro Alto mesmo com a sua centralidade, não tem, espera-se, vocação para
bairro de luxo. Ainda bem que estes equilíbrios se mantêm e também não há
dinheiro para grandes operações de restauro fazendo com que a população actual
vendesse as casas que seriam substituídas por habitação de luxo. Isso aconteceu
em Paris, no Marais, um bairro onde os ricos compraram as casas requalificadas
dos pobres, perdendo assim a dinâmica social do antigo espaço. O Marais deixou
de ter pessoas, passando tudo a escritórios. Como aqui na Baixa de Lisboa onde
é perigoso andar à noite».
--

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por José do Carmo Francisco às 20:29



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