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Transporte Sentimental



Terça-feira, 18.06.13

o livro de recibos verde é editado pela assirio & alvim

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«Melancómico – aforismos de pastelaria» de Nuno Costa Santos
A aproximação a este livro breve mas muito estimulante, pode ser feita a partir
de três referências: José Palla e Carmo, Dinis Machado e Santos Fernando. Em
José Palla e Carmo (1923-1995) que assinava José Sesinando o seu
«Escrituralismo» no «JL» lembramos o lado mais lúdico do humor com o seu
inesquecível «O Adágio de Albinoni, depois de muito tocado na rádio, tornou-se
um adágio popular». Dinis Machado (1930-2008) escreveu que «mesmo num enterro
procuro sempre o lado cómico daquilo». Santos Fernando (1927-1975) sintetizou
tudo na expressão: «O humor é uma lágrima entre parêntesis».
A escrita deste livro está dividida entre o cómico e o melancólico ou seja,
entre a piada e a lucidez. O subtítulo (aforismos de pastelaria) tem a ver com
a brevidade de cada texto, passível de ser elaborado no balcão da pastelaria,
esperando o bolo de arroz ou o queque. Sendo o autor jornalista e escritor, não
admira o número de graças sobre esta actividade. Vejamos: «O problema não era
ser um ghost writer. O problema era ser um ghost writer de um fantasma» na
página 15. Segue-se na página 68: «É um escritor tão moderno que manda os
romances por SMS para a sua editora». A chamada «vida literária» está presente
num aforismo («Para apresentar um novo livro só convidava pessoas que o tinham
odiado») antecipando um outro que define muita coisa neste meio: «Há escritores
que quando ainda estão a terminar um livro, já têm recensões sobre a obra em
todos os jornais»
O autor consegue fazer graça com o Estado - «Há sempre um que está mais
apaixonado do que o outro. Sim, todas as relações amorosas são desequilibradas.
Sobretudo as relações entre os cidadãos e o Estado». Mas também com a Vida -
«Da maneira que isto está, para se conseguir inscrever a filharada em certas
escolas é preciso fazê-lo com um século de antecedência». E com o Mundo - «Dois
homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas».
Paulo Coelho não escapa: «Fiquei a saber que há livros do Paulo Coelho à venda
nos correios. Parece-me bem. Depois do correio azul, o livro azul – o
livro que é consumido em tempo recorde». Por fim a graça sobre os recibos verde
que é a coisa mais sem esperança que existe: «Era tão intelectual, tão
intelectual que até o seu livro de recibos verde era editado pela Assírio &
Alvim».
(Editora: Guerra e Paz, Capa: Ilídio Vasco, Foto: João Pedro Gomes)
José do Carmo Francisco
--

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 13:48


1 comentário

De M. Elvira a 19.06.2013 às 14:51

Os livros estão caros...
As bibliotecas não estão à mão de semear...
O youtube, o facebook e o google basicamente têm tudo...
Tudo menos os livros com carimbo verde dos correios com o "tudo fácil"... ´
É sempre muito bom ler os teus comentários!
Obrigada por partilhares as tuas escolhas!
Até breve* Maria Elvira

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