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Transporte Sentimental



Terça-feira, 07.05.13

os que bebem vinho vivem mais que os médicos que os proíbem

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O vinho e os livros – a memória do vinho nos altares, nos salões e
nas tabernas
José do Carmo Francisco
Por ser uma realidade permanente, efectiva e transversal na velha sociedade
de Portugal (Clero, Nobreza e Povo) o vinho tinha um lugar insubstituível
nos altares, nos salões e nas tabernas. Na nova sociedade o vinho tem
direito a lojas gourmet nos centros comerciais, a bares e esplanadas de
vinho a copo e à organização das regiões com demarcação de origem (DOC) a
começar por Alenquer, Alentejo e Bairrada para terminar em Palmela,
Portimão e Ribatejo. Os velhos tonéis e os antigos garrafões deram lugar às
modernas boxes de 5 e 10 litros. Tudo muda na vida social mas a importância
do vinho permanece.
O livro «O vinho» de Celso Luiz de Moraes (edição Padrões Culturais)
adverte: «Ao beber vinho bebemos passado, já que o vinho é tempo em
garrafa, o de uma plantação, de uma cultura, de uma vindima, de uma
vinificação, de uma criação paciente.» Tal como o vinho, a Poesia é uma
resistência ao esquecimento. Omar Khayyam louva o vinho e adverte: «Uma vez
que ignoras o que te reserva o dia de amanhã / procura ser feliz,
hoje./Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe». Entre a
Pré-História e a Grécia, entre Roma e a Gália, a história do vinho faz-se
por hipóteses: «Os primeiros viticultores podem ter sido pastores cabreiros
das florestas, de uma região entre a Geórgia e a Arménia, pois viviam em
clareiras onde devido à exposição solar, as videiras frutificavam
regularmente». Mas é na Bíblia que se lê o ritual de Jesus hoje repetido
todos os dias: «E, tomando o cálice do vinho e dando graças, deu-lho e
todos beberam dele. E disse-lhes: isto é o Meu sangue, o sangue do novo
testamento, que por muito é derramado». Os vários elementos na prova de
vinhos, o vocabulário mais frequente e a relação de figuras médicas com o
vinho integram capítulos deste livro do qual saímos com uma frase de Eça de
Queirós: «Os que bebem vinho vivem mais que os médicos que os proíbem».
O mesmo Eça surge na obra de José Quitério «Escritores à mesa (e outros
artistas)» -edição Assírio & Alvim. O autor convoca, entre outros, Camões,
António José da Silva, Garrett, Camilo, Bulhão Pato, João de Deus, Júlio
César Machado, Ramalho Ortigão, Cesário Verde, Fialho de Almeida,
Teixeira-Gomes, Albino Forjaz Sampaio, Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa e
José Gomes Ferreira. Eça de Queirós citou vinhos da Alemanha, da Hungria,
da Itália, da Austrália, da Grécia, da Argélia, da Rússia, da Espanha e da
França. Depois de referir o vinho do Porto, José Quitério enumera os outros
vinhos portugueses nos livros de Eça: «Vinhos de mesa do Douro apenas uma
nomeação genérica. O vinho da Bairrada aparece em três situações. O vinho
do Cartaxo surge duas vezes. O vinho de Torres Vedras é referido três
vezes. O Colares é o vinho de mesa português mais referido na obra
queirosiana. O Bucelas é honrado por Afonso da Maia. O vinho da Madeira não
é esquecido. No cômputo das referências só não figuram vinhos do Dão e do
Alentejo».
Gil Vicente criou na genial farsa «O Pranto de Maria Parda» uma personagem
inesquecível: uma mulher, que sendo bebedora inveterada, não consegue que
lhe fiem mais vinho: «Eu só quero prantear / Este mal que a muitos toca; /
que estou já como minhoca / que puseram a secar. / Triste, desaventurada /
que tão alta está a canada / para mim como as estrelas; / Ó coitadas das
goelas / ó goelas da coitada!». Depois de evocar os locais de Lisboa onde
muitas vezes atenuou a sua sede, resolve dirigir-se aos taberneiros seus
conhecidos para pedir: «que me dêem uma canada / sobre o meu rosto fiada /
a pagar lá pelas eiras». Todos lhe negam o favor e, desiludida, Maria Parda
dispõe-se a morrer «de sequia». Anuncia no seu testamento diversas
disposições e termina com humor: «Não digam missas rezadas: / todas sejam
bem cantadas / em flamengo e alemão / porque estas me levarão / às vinhas
mais carregadas».
José Duarte Amaral é o autor de «O grande livro do vinho» (edição Círculo
de Leitores), volume que nas suas 415 páginas recorda o vinho na chamada
civilização ocidental (filosofia grega, direito romano, religião cristã)
não só na tecnologia mas também na atitude cultural: «Beber vinho, apreciar
um vinho, é algo que faz parte de uma arte delicada, conducente, em certa
medida, à introdução, na vida de todos os dias, de um valor novo, um motivo
de prazer, um pretexto de são convívio, um reforço da amizade, um sinal de
civilização». Nas páginas deste livro junta-se História e Lenda: «Uma lenda
grega atribui a descoberta da videira a um pastor, Estáfilo, que ao
procurar uma cabra perdida, a foi encontrar comendo parras. Colhendo os
frutos dessa planta levou-os ao seu patrão, Oinos, que deles extraiu um
sumo cujo sabor melhorou com o tempo». O vinho a tudo tem resistido: a
concorrência de outras bebidas, uma publicidade agressiva a favor da
cerveja, as mudanças de hábitos alimentares nas camadas mais jovens, a
confusão entre alcoolismo e consumo de vinho. Para permanecer na vanguarda
precisa de duas políticas – esclarecimento e qualidade. Pasteur disse
um dia: «Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os
livros». E tinha razão.
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por José do Carmo Francisco às 08:09



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