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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 03.05.13

o ontem e o hoje nas caldas da rainha

60_b.jpg

60.jpg


Da CP à REFER, do sépia antigo às cores actuais
Hoje, em 2013, muitos anos distanciam estas duas fotos; talvez 80 ou mesmo 90
anos possam separar a velha da nova fotografia. A foto actual faz, perante a
outra, um contraponto a cores. Nunca mais andei de comboio desde 1997. Antes
disso andei em 1977, eu ainda não tinha automóvel, era Março e minha mãe veio
dizer adeus ao Rossio e chorar umas lágrimas doces enroladas numas bananas da
Madeira, simpatia de última hora. Os táxis não paravam na plataforma, a
automotora para as Caldas (para a Figueira?) estava prestes a partir e o tempo
urgia. Foi rápida a despedida, a viagem era de duas horas. Sabíamos que, como
sempre, a camioneta (a carreira) das sete e vinte esperava por nós, era o
serviço combinado com a CP. E depois ainda havia a paragem do Clementino. Muita
gente perdia a carreira para Santa Catarina mas o senhor Guimarães e o Vítor
davam o conselho de ir depressa até ao Clementino porque ali na taberna, entre
tremoços e copos de três, havia sempre uma paragem informal. Era a força do
costume.
A Linha do Oeste está muito ligada à minha vida toda – infância,
juventude, vida militar, idade adulta. Perder a Linha do Oeste é perder um bom
bocado da minha memória e isso custa muito. Em 1957 fui para o Montijo com a
família e muitas vezes viemos no vapor do lado de lá até ao Terreiro do Paço
para atravessarmos a correr a Rua do Ouro e compararmos o bilhete para a
automotora das cinco e vinte. Era certo e sabido que a carreira para Santa
Catarina esperava por nós na estação das Caldas duas horas depois. Nunca a
perdemos mesmo no Inverno quando chovia e o comboio se atrasava um pouco, ela
esperou sempre.
Na vida militar em 1972 utilizei muitas vezes a Linha do Oeste ao fim-de-semana
entre Abril e Julho desse ano aos Sábados para Lisboa e aos Domingos para as
Caldas onde ia jantar a casa dos meus avós de Santa Catarina. Foi de comboio
que vim com o meu grupo para a EPAM do Lumiar (Alameda das Linhas de Torres) e
estava uma velha Berliet à nossa espera. Nunca percebi uma piada do tempo («És
filho dum cabo miliciano?») mas a verdade é que os meus filhos podem dizer com
orgulho que são filhos de um cabo miliciano com um louvor na caderneta militar
por ter participado no «25 de Abril» mas isso foi em 1974 na Pontinha, não é da
Linha do Oeste em 1972.
Em 1977, em plena lua-de-mel, fui para e vim das Caldas da Rainha sabendo que
havia outra lua-de-mel em Julho na Holanda e na Bélgica com sete contos e
quinhentos de divisas mas tudo se resolveu. Ainda tenho esse passaporte com as
contas de quantos florins davam os famigerados sete contos e quinhentos. A
felicidade não se mede pelos cifrões, a vida é um mistério; não um negócio e
ainda bem.
Um dia mais tarde, já como jornalista do semanário «Sporting», fui em Maio de
1997 à Figueira da Foz num comboio para fazer uma reportagem sobre a Ginástica
do Sporting Clube de Portugal. Mas estranhei pois a viagem só começou no
Cacém, enfim agora é em Meleças, qualquer dia acaba a Linha do Oeste. E depois,
que será de nós? De qualquer modo hoje fico contente pois vi que as memórias
não se perderam.
Inaugurada em 1888, a Linha do Oeste ligava Lisboa à Figueira da Foz e passou
em 1891 a estar em comunicação com a Linha do Norte em Alfarelos. Já existiam
as linhas do Norte, do Leste e do Sul. Os principais pontos da nossa Linha eram
Torres Vedras, Bombarral, Óbidos, Caldas da Rainha, Valado, Marinha Grande,
Leiria e Figueira da Foz. Outros pontos de passagem eram (cito de memória)
Cacém, Malveira, Pêro Negro, Dois Portos, Sapataria, Outeiro, São Mamede, São
Martinho, Martingança, Monte Real, Monte Redondo, Guia e Louriçal. Digo os
nomes das terras porque tal como os nomes das pessoas, são reflexos de vida. E
tudo isto se está a perder. E nós todos vamos perdendo um pouco da nossa vida
na Linha do Oeste que, como eles agora dizem, está a ser «descontinuada».
José do Carmo Francisco
--

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 22:38


1 comentário

De Luis Eme a 04.05.2013 às 09:02

também viajei muito na Linha do Oeste.

era uma viagem deliciosa, apesar dos atrasos... tantos livros que li nas viagens de comboio, JCF.

Abraço

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