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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 22.04.13

regar a sede, beber a terra, colher a paisagem, mastigar o silêncio

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«Caderno de significados» de Graça Pires
Graça Pires (n. 1946) publica poesia com regularidade desde 1990, tendo o
seu primeiro título («Poemas») recebido o Prémio Revelação de Poesia da
A.P.E. em 1988. Este seu mais recente livro integra uma colecção na qual
figuram textos de Casimiro de Brito, Amadeu Baptista, Maria Teresa Dias
Furtado e Agripina Costa Marques.
O ponto de partida é o quotidiano: «Escutar o rumor da morte na rotina dos
dias, no sangue das palavras, na dor, na perda, no tédio. E renascer a toda
a hora com a inocente respiração da vida. Serenamente». Aqui o olhar do
poeta não pode ser indiferente: «Li no jornal que há idosos abandonados nas
urgências hospitalares. Talvez se entenda a dor agarrada ao desleixo da
roupa».
Como resposta à aridez do dia-a-dia surge a infância: «Volta de novo, idade
da inocência que foi minha. Traz-me nas tranças a cristalina alegria dos
dias em que no fundo do coração nenhum nome me doía.» Infância que é também
o lugar da casa: «Nós voltamos apenas para regar a sede, beber a terra,
colher a paisagem, mastigar o silêncio, partilhar a fome e tornar depois a
ir embora com o corpo a doer da própria ausência». Infância e casa
juntam-se na emoção: «Se eu pudesse recordar uma canção de embalar na voz
lentamente doce de todas as mães, escutaria, com certeza, o cantar da minha
mãe só para que, em meu sono, eu não incline a cabeça para o lado onde
ardem as lembranças».
Podem ser a lembranças da mãe («Só na memória do teu rosto, mãe, posso
encontrar agora as paredes da casa onde nasci») ou do pai: «partiste tão
cedo como se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras». A única
reposta no poema à desolação do seu tempo é o amor: «Tu dizes o meu nome.
Eu digo o teu nome. Não há mais ninguém na terra nesta hora urgente da
paixão.» Graça Pires sabe que, como Camilo Castelo Branco, «a poesia não
tem presente: ou é esperança ou saudade». Por isso o seu grito: «Há um
grito rasgando o surdo rumor da chuva de Novembro. Um grito a cortar a
respiração das árvores sem folhas. Um grito que estremece nas mãos das
mulheres estéreis e no silêncio das aves que não voam.»
(Editora: Lua de Marfim, Capa: Miguel Pais)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 11:07


1 comentário

De Graça Pires a 22.04.2013 às 21:22


Obrigada meu amigo Zé do Carmo pelo acto generoso de comentares o meu "Caderno de significados".
Só queria dizer-te que a fotografia da capa é da Gisela Ramos Rosa.
Bem hajas e um grande beijo.

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