Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Transporte Sentimental



Sexta-feira, 05.04.13

no bairro alto com aniceto carmona

Image.jpg


Um encontro com Aniceto Carmona ou «Os grilos não cantam ao Domingo»
A cidade de Lisboa tem no Bairro Alto uma peculiar quadrícula de pedras, de
cores e de afectos. No fim desta tarde a ameaçar trovoada, desço a Rua da
Atalaia para ir aos correios do Camões com uma carta para um poeta amigo
– Ruy Ventura. Até quando haverá cartas, estações de correios, amigos e
poetas? Não sabemos porque a vida é um mistério. Mas haverá um dia em que tudo
isso vai acabar. Não se sabe qual o substituto electrónico deste mundo mecânico
onde as coisas como cartas, selos, poetas e amigos (já agora, marcos do
correio) deixarão de ter razão, sentido e conteúdo. Na esquina da Atalaia com
os Fiéis de Deus encontrei Aniceto Carmona, meu amigo. Logo fomos visitar em
romagem o nº 9 da Rua da Rosa, lugar onde nasceu em 1825 o escritor Camilo
Castelo Branco. A seguir passámos à Luz Soriano para recordar os nossos amigos
do «Popular» e do «Lisboa». Foi aqui que em 1978 comecei no jornalismo com
Jacinto Baptista a receber-me com grande simpatia apresentando-me a outros
jornalistas como Abel Pereira, Ângelo Granja, César da Silva e Baptista-Bastos.
Como Aniceto Carmona falou do Zé de Lemos e do seu «Riso amarelo», de repente a
Luz Soriano encheu-se de gente a entrar e a sair dos dois jornais. Vi de novo
Santos Fernando a entregar os originais da sua coluna dominical «Os grilos não
cantam ao Domingo». Vi de novo Mário Ventura a guardar livros num saco que um
contínuo do «Diário Popular» levará, conforme combinado entre as duas
administrações, ao «Diário da Manhã» onde a PIDE nunca os poderá procurar. E vi
de novo o senhor Armando na ORION a entregar ao meu pai as garrafas de leite
para as meninas do Restelo, netas da patroa. E também a Lena da ORION a descer
a Rua Fernandes Tomás com a São e com as minhas duas irmãs. Iam, rua abaixo,
atrás do D. João da Câmara da Emissora Nacional, uma voz para sempre. E vi de
novo como era o tempo em 1966 quando aqui cheguei atónito, curioso e incapaz de
perceber a gramática da cidade com seus tempos e seus modos, seus pregões e
suas cantigas, seus ardinas e seus galegos, suas mulheres da fava-rica e suas
camionetas de bilhas da água de Caneças. E as cégadas com os mesmos actores de
sempre (homem, mulher, polícia e rufia) e, no fim, os quatro rapazes com o
lençol velho onde o povo lançava da janela as moedas para o jantar da «troupe».
Quando Aniceto Carmona estava a contar o drama por si vivido antes do 25 de
Abril de 1974 no balcão do aeroporto de Casablanca onde, por duas vezes, o
mandaram ir para o fundo da fila de espera porque o empregado não gostava do
governo português, nessa altura já a caricatura estava pronta. Obrigado, amigo.

José do Carmo Francisco
--

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 21:22


2 comentários

De carlos cardoso luis a 05.04.2013 às 23:17

Vi a caricatura e o texto que li ao comum amigo Aniceto Carmona e ele pediu-me para lhe transmitir o seguinte comentário: Fiquei muito satisfeito e admirado com a facilidade e rapidez com que escreveu o resumo da nossa conversa hoje no velho Bairro Alto. Aqui lhe deixo o meu agradecimento e é sempre um prazer ler os escritos de um jornalista da sua craveira. Obrigado.

De Helena Quaresm pedro a 10.04.2013 às 19:41

Boa tarde, amigo!
Sou a....Lena da Orion!
O meu filho, fez-me chegar às mãos a sua crónica. Fiquei sensibilizada e com a lágrima no olho. Fez-me recordar com uma certa saudade, os meus tempos de criança. Uma vez que conheceu o meu pai tão bem, e se recorda de mim em menina, gostaria de saber quem é. Pela descrição que o meu filho fez, não me consigo lembrar de quem seja. Ainda moro na mesma rua e na mesma casa. A Pastelaria Orion, como ficou a saber través do meu filho, continua a ser minha. Muito obrigada, amigo, por ser quem é!
Um abraço
Helena (Lena)

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2013

D S T Q Q S S
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930





Visitas