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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 06.01.17

a mulher-menina entre a espuma do ocreza e a calma do estuário

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Foi no teu olhar que descobri. De noite os rios não existem, são água, apenas água entre o peso da espuma e a força das pedras antigas a segurarem a terra fértil das margens. Lá para trás, entre a serra e a charneca, no meio dos pinheiros, das oliveiras e dos eucaliptos, correm as ribeiras ainda sem nome, os pequenos cursos de água, discretos e imparáveis que levam o seu saldo líquido ao Ocreza. Foi no teu olhar que descobri. O sossego do estuário tem afinal origem na agitada espuma das ribeiras primitivas. Tal como a tua voz que flutua entre o sussurro do registo quase infantil e o timbre mais áspero e adulto do desagrado tão quotidiano. Há assim como que um filtro gigante a graduar as horas do teu dia entre o alvoroço da manhã e o cansaço do fim da tarde, no atravessar do estuário do Tejo quando a noite se anuncia nos primeiros anúncios de néon.
Foi no teu ilhar que descobri. A tua voz instala o campo na cidade, transporta o som e o timbre da varanda das três meninas, com a serra no fundo e a charneca em frente. O que eu estou a a ouvir no som pleno da tua voz aqui na cidade não é um novo pregão (de figos, de fava-rica, de morangos de Sintra) mas sim o original de um chamamento a uma senhora que vende para fora o bolo chamado finto e pão a que chamam alvo na rua em frente à varanda das meninas onde o sol fica mais tempo. Foi no teu olhar que descobri. As manhãs de alegria dão origem a tardes de angústia, a luz dá lugar às sombras, o clarão da vida ao rigor da morte. E ao silêncio. Nos dias de nevoeiro então mais se nota a força do teu ânimo contra essa parede invisível que separa a tua alegria poderosa do cinzento cabisbaixo da cidade. (A foto é de José Cruz) --

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por José do Carmo Francisco às 15:09


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