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Transporte Sentimental



Sábado, 31.12.16

júlio césar machado - as ventanias de dezembro

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Gostaria de convocar uma crónica de Júlio César Machado (1835-1890) porque estamos (no momento em que escrevo) em pleno tempo de Natal e porque o livro «Lisboa na rua» (Editora Frenesi) inclui uma excelente crónica deste autor na qual mistura de modo hábil e feliz o estilo da escrita com o sangue pisado da vida. Vejamos: «Há uma só coisa mais triste ainda do que uma gaiola sem pássaros e uma casa sem crianças: é uma criança sem mãe! Não é preciso ser órfão para compreender bem toda a amargura do destino dos que o são. Nós, todos, algumas vez, temos tido na vida a hora inconsolável de estarmos longe dos nosso e pesar-nos na alma a saudade da família – é calcular, por essa hora passageira, o que será o sempre! Quando depois da morte de meu pai em 1852, me determinei a não ir para a aldeia, onde minha mãe tem a sua casa, e ficar sozinho aqui a aprender o ofício das letras, ia a entrar o Inverno. As ventanias de Dezembro açoitavam as vidraças da janela do quarto onde eu morava. Estava pobre: sem pai, longe, muito longe da minha mãe; tinha dezasseis anos; rompera abertamente com A Dos Ruivos, o que equivalia a quebrar o passado e querer edificar o futuro no presente que me estremecia e estalava debaixo dos pés… Chegou a noite de Natal. Ouvi os sinos a chamarem para a missa do galo; vi da janela as ruas cheias de povo, que girava dum lado e do outro, muito contente, com os seus papeluchos de broas debaixo do braço… E como era a primeira vez que aquela noite, que sempre me fora alegre, me encontrava triste e só, sentado à mesa de trabalho com os livros por únicos amigos e únicos companheiros, conheci com que tristeza devem sentir-se neste mundo os que entram órfãos na vida…» Pode parecer extensa a citação mas vale a pena, trata-se de um texto de grande escritor. --

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por José do Carmo Francisco às 13:22

Sábado, 31.12.16

»alimentam toda esta região de leiria a santarém»

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No livro «Os pescadores» de Raul Brandão (1867-1930) há duas palavras hoje pouco usadas: uma é paleco (trabalhador assalariado) e a outra é presigo (conduto). Feita esta advertência aqui fica a transcrição do belíssimo texto sobre as mulheres da Nazaré: «São elas que alimentam toda esta região de Leiria a Santarém e que levam ao lavrador, ao paleco como lhe chamam, e ao jornaleiro enfastiado de pão seco o mantimento, o presigo saboroso. Com azeitonas, uma caneca de carrascão negro e espesso como tinta e três sardinhas, já a vida toma outro aspecto para o homem calcinado e farto de remover a terra. São elas que toda a noite, quando se pesca toda a noite, separam o peixe, o amanham, o secam no tendal e o levam para os armazéns de salga. E pela manhã põem-se a caminho para as Caldas (20 km) ou para Alcobaça (12 km) com o peso de duas ou três arrobas à cabeça. Infatigáveis. Em tempos chegavam a ir a Santarém, acompanhando o burro com a carga e trotando ao lado da alimária. Apregoam pelos casais dispersos e deitam a um canto os maiores e mais espertos negociantes desta terra. À noite dormem – se não há peixe na praia. Se há, partem outra vez com a canastra à cabeça e um pedaço de pão no bolso para o caminho. E o tempo ainda lhes sobra para cuidar dos filhos e para trazer a casa limpa e esteirada. Nenhum pescador vive como o da Nazaré: pode-se comer no chão.» Mais à frente, Raul Brandão conclui: «Tive sempre a ideia que quem manda em todo o país é a mulher. Valem mais que o homem, sacrificam-se mais que o homem – mas aqui o seu trabalho é tão palpável que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra.» Nota fina – esteirada quer dizer atapetada. Foi longa a transcrição mas valeu a pena. Raul Brandão é um grande escritor. --

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por José do Carmo Francisco às 11:54

Sábado, 31.12.16

leonoreta leitão - «era uma vez uma boina» em alcanena

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O livro de memórias tem o título de «Era uma vez uma boina» (Edições Colibri) e das suas 286 páginas dou destaque às que se referem a Alcanena nas palavras da sua autora - Leonoreta Leitão. Na página 12 a propósito de um estudo psicológico do Prof. Delfim Santos (teste da árvore) lê-se o seguinte: «Só em Alcanena me apercebi dessas minhas qualidades («pés bem assentes na terra») quando me achei perante uma escola do Ciclo Preparatório e com determinação consegui que ela viesse a ser uma Escola Técnica.» Na página 91 leio: «A minha Escola é um edifício camarário que não foi feito para tal. Foi o presidente da Câmara que solicitou à Direcção Geral do Ensino Técnico a criação daquela secção para os alunos que não têm condições económicas para se deslocarem a Torres Novas, Neste momento não tenho carteiras nem quadros nem secretárias… Vou preparando aquilo que posso: os horários, umas instruções… Eu sou nomeada subdirectora de Tores Novas para dirigir a secção de Alcanena. Tenho independência pedagógica mas dependência administrativa. O Ministério informa-me que vai chegar mobiliário. Por isso vou à escola. Aí uma desagradável surpresa me esperava: os pais queriam saber o que se passa. Todos se mostram apreensivos e eu dou as explicações necessárias. Até que um certo homem se adianta, de aspecto rude e procura agredir-me com uma pedra. Os outros advertem-no com dureza e a situação é ultrapassada. Mais tarde uma dessas mulheres dirá: «Nós lá nas Moitas estamos todos muito incomodados com aquele que foi incorrecto com a senhora. Ele devia estar com os copos…» Na página 263 lá vem a decisão da Câmara Municipal de Alcanena: «Atribuir à Doutora Leonoreta Leitão a medalha de prata de Mérito Municipal». --

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por José do Carmo Francisco às 11:04

Sexta-feira, 30.12.16

alexandre herculano em vale de lobos mas sempre jornalista

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Foi graças ao produto do seu trabalho de historiador («História de Portugal») que Alexandre Herculano (1810-1877) comprou a Quinta de Vale de Lobos (Azóia de Baixo) onde veio a produzir o premiado azeite «Herculano». Hoje porém gostaria de lembrar um livro de Jacinto Baptista (1926-1993) «Alexandre Herculano Jornalista» (Editora Bertrand). Sem mais demora vamos à primeira página desse livro: «Depois que atingiu a idade adulta e até ao fim dos seus dias, sempre, de um modo ou de outro, esteve Alexandre Herculano ligado aos jornais. Colaborou em alguns; fundou ou ajudou a fundar pelo menos dois («O País» em 1851 e «O Português» em 1853) num período em que se achou muito embrenhado na política activa ; não poucos foram aqueles que, solicitando ele próprio albergue ou a expresso convite deles, utilizou como instrumentos de ataque ou de defesa nas memoráveis polémicas em que se envolveu ou viu envolvido. Já retirado, um dia recomendou a uma alta personalidade política o responsável pela direcção tipográfica de «A Revolução de Setembro», o qual era candidato ao lugar vago de porteiro do Conselho de Estado, lembrando na carta de recomendação que «há muita gente que ainda me supõe homem de Imprensa». Alexandre Herculano, depois de se demitir do lugar de segundo-bibliotecário no Porto (em atitude de protesto contra a revolução de Setembro de 1836) inaugura em Lisboa, incumbido de redigir o semanário «O Panorama» (1837) e o «Diário do Governo» (1838), uma breve carreira de profissional de Imprensa, se não é excessivo designá-la assim, transportando a classificação para uma época em que as profissões, incluindo a de jornalista, não estavam tão definidas, delimitadas e subordinadas a um estatuto específico como hoje.» --

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por José do Carmo Francisco às 23:20

Sexta-feira, 30.12.16

a marcha «tripas a ferver» entre sol e pó

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Num momento em que a bandeira americana volta a estar em foco pois há quem a queria fazer descer do mastro para a molhar de petróleo, lembrei-me como as palavras dos músicos da filarmónica da minha terra por meados dos anos cinquenta podem ser, hoje e agora, não uma corruptela mas um presságio De facto, os músicos da filarmónica da terra onde nasci, não diziam «vamos tocar a marcha Stars and Stripes for ever» mas sim «vamos tocar a marcha tripas a ferver». Eles não sabiam inglês embora muitos deles tivessem (como eu próprio e muitos de nós, quase todos nós) um tio na América ou um primo no Canadá. Eles não sabiam que a bandeira americana era a origem da marcha composta por John Philiph de Souza (com zê) ele próprio filho emigrantes açorianos. Eles não sabiam que a bandeira americana tem estrelas e tem tiras, daí as tais «Stars and stripes» do nome da marcha. Eles não sabiam que um poeta faialense (Mário Machado Fraião) publicou um livro com o sugestivo título de «Todas as Filarmónicas perdidas». É o som dessas filarrmónicas que todos nós procuramos não perder. Seja a marcha «Washington Post» seja a marcha «American Patrol», sejam todas as marchas pelas quais fomos atrás da música mesmo contra a vontade dos nossos pais ou avós nos dias de festa e arraial. Tantos anos depois a corruptela pode passar a presságio. Se a bandeira americana descer do mastro e se lançar sobre o petróleo do Iraque muitas bombas irão cair do céu e muitas tripas irão ficar a ferver. E o sangue atónito e inocente, sangue sem música nem resposta às lágrimas, irá correr na areia lado a lado com o petróleo. --

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por José do Carmo Francisco às 13:27

Quarta-feira, 28.12.16

gaspar - um nome que se perdeu entre vale da bairrada e água das casas

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O grande jornalista brasileiro Cláudio Abramo (1923-1987) foi um dia convidado para falar numa Universidade da qual saíam centenas de licenciados em jornalismo. Quando um aluno lhe perguntou que livro ele poderia aconselhar aos estudantes, respondeu de imediato «A Bíblia» e explicou que «está lá tudo». Na verdade todos os conflitos, todas as paixões, todo o amor e toda a morte têm lugar naquelas páginas. Este caso de um nome (Gaspar) que se perdeu entre dois lugares (Vale da Bairrada e Água das Casas) também lá existe. É só procurar nas centenas de páginas mas com cuidado porque tudo tem um contexto e, por exemplo, «subir aos terraços para falar ao Povo» hoje em 2016 passa pela Rádio e pela TV. Tenho um compadre que nasceu no Vale da Bairrada mas o pai da sua mãe, ao ficar viúvo, foi casar de novo a Água das Casas e levou consigo o filho mais novo, deixando o outro filho ao cuidado daquela que foi a doce «mãe pequena» daquela casa – a mãe do meu compadre. Com essas trocas e baldrocas (outro tio do meu compadre foi para as Sentieiras) o nome «Gaspar» perdeu-se e ficou apenas outro nome. E é por esse nome que ele é conhecido nas Fontes, onde casou e tem uma bela casa. Comigo passou-se algo parecido pois o nome «Almeida» que me pertence de facto está omisso na minha cédula pessoal. Nasci em 13-2-51 e no momento de festejar entre pai, avô, padre e delegado do Registo Civil de Caldas da Rainha, ninguém, entre as eufóricas testemunhas, reparou na omissão. Meu nome deveria ser José do Carmo Almeida Francisco. Mas isso já é outra crónica. Para a história fica uma imagem «neutra» tirada por Ana Francisco em 31-7-2016 em São Domingos num campo de futebol onde chegaram a jogar rapazes tanto das Fontes como de Água das Casas como do Vale da Bairrada. --

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por José do Carmo Francisco às 22:05

Terça-feira, 27.12.16

luis alberto ferreira - método, fôlego e estilo ou elogio da crónica e do cronista

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A propósito de um livro de crónicas, Arnaldo Saraiva escreveu esta advertência: «A crónica está longe de ser um subgénero, embora seja um género híbrido porque participa, ou pode participar, da notícia, da nota, do apontamento, do comentário, do artigo, do ensaio, da crítica, da reportagem, da memória, da biografia e, até, do conto.» A citação pode parecer longa mas nela está tudo o que eu penso sobre este género literário e não encontro melhores palavras do que as de Arnaldo Saraiva para dissertar sobre as crónicas de Luís Alberto Ferreira à boleia de uma bela foto devida ao artesanato paciente de Mestre Carlos Vilas. Outro dia neste Blog («transporte sentimental») tive o prazer de evocar uma crónica deste autor a propósito da figura de Vítor Damas. Nessa crónica está o «tempo», aquilo que é mais importante numa crónica, um certo tempo português entre 1947 e 2003,digamos um certo jornalismo que não volta mais porque o «Mundo Desportivo» acabou. É uma belíssima crónica que ocupa no livro «Vítor Damas A baliza de prata» (Editora Gato do Bosque) desde a página 208 até à página 217. Começa por invocar um verso de Vicente Aleixandre («Lá onde o mar é sereno») e continua com Ortega y Gasset na sua definição de geração: «compromisso dinâmico entre massas e indivíduo». Foi em A BOLA que li as primeiras crónicas de Luís Alberto Ferreira sobre uma Luanda perdida no tempo (NGola Ritmos, «Liceu» Vieira Dias, Fernando Peyroteo) mas uma cidade recuperada nos granéis de chumbo de que eram feitos os jornais daquele tempo. Talvez 1978 quando comecei no «Diário Popular» com Jacinto Baptista, meu guia qualificado e sereno neste ofício ao mesmo tempo luminoso e cheio de alçapões mal escondidos. Porque, quer queiramos quer não, é sempre do pó e da posteridade que tratamos quando sopramos com alegria fraterna os clarins das novidades, das luzes acesas e das maravilhas. O Mundo é uma terrível fábrica de esquecimento, o jornal do dia sepulta o jornal do dia anterior. As nossas crónicas mesmo que tenham método, fôlego e estilo vão embrulhar lancheiras de operários e forrar caixotes de lixo. Nunca me esqueço de um gesto de Luís Alberto Ferreira na Rua da Misericórdia quando uma senhora foi atropelada à frente da delegação lisboeta do «Jornal de Notícias» e ele foi a correr buscar uma almofada para a senhora ter um conforto relativo enquanto não chegavam os Bombeiros. É essa «humanidade» que este homem coloca em todas as suas crónicas; escreve com método, fôlego e estilo mas, no fundo, a argamassa do texto é o seu forte sentido de humanidade. --

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por José do Carmo Francisco às 09:33

Quinta-feira, 22.12.16

«os guarda-redes morrem ao domingo» em «vítor damas a baliza de prata»

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O meu conhecimento pessoal com Vítor Damas verificou-se na Lourinhã em 1999 quando este grande guarda-redes assumiu o comando técnico da (ao tempo) equipa-satélite do Sporting Clube de Portugal. Recebeu-me cordialmente como enviado-especial do jornal «Sporting», abria-me a porta da cabina para poder despachar as entrevistas mas com uma advertência - «Só falo nas derrotas, nas vitórias fala o meu adjunto». Mais tarde, à frente da equipa «B» dos «leões», recordo uma longa conversa que mantivemos em 21-1-2001 no aeroporto de Ponta Delgada depois de um jogo «União Micaelense, 0 – Sporting «B», 3». Nessa tarde soube pelo Vítor Damas que Manuel Fernandes, ao tempo treinador da equipa micaelense do Santa Clara, ia treinar a equipa «A» do Sporting Clube de Portugal. Nenhum de nós poderia adivinhar que um jogador pequenino em tudo (na altura e no futebol) iria estar no centro do posterior afastamento de Manuel Fernandes. Ainda hoje ele fala nesse «anão» que se estreou pela equipa «B» do SCP no Campo da Grotinha, freguesia da Relva, nessa tarde de Domingo. Albert Camus escreveu um dia que «O que finalmente sei de mais seguro da moral e das obrigações dos homens é ao futebol que o devo». Ele tinha sido guarda-redes na selecção universitária de Argel. Num certo sentido esta frase elaborada por um grande escritor (Prémio Nobel) entronca no lugar-comum que diz «Um equipa de futebol tem um guarda-redes e dez jogadores». Na verdade o homem da baliza tem uma dupla inscrição no jogo: é actor e observador, participa e observa, está ao mesmo tempo dentro e fora do conflito, do encontro, do desafio. No meu livro «Os guarda-redes morrem ao Domingo» (Padrões Culturais) dedico um poema ao meu avô materno José Almeida Penas, guarda-redes numa equipa rural em Santa Catarina (Caldas da Rainha) que conclui deste modo: «Levanta-te e vem à linha / receber as instruções para a segunda parte / que só agora começou: / Pôr um boné por causa do sol / mudar de equipa e de lugar / trocar a morte pela vida». Esta ideia de «trocar a morte pela vida» é a base do projecto deste livro que junta depoimentos orais e textos escritos dispersos em volumes que era urgente juntar. Dedico este trabalho à memória de José Almeida Penas (1906-1979), meu avô, de Olímpia do Carmo Almeida (1929-1995), minha mãe e de José Carlos Correia Almeida (1969-1989), meu afilhado e primo direito. Todos admiravam Vítor Damas, cada um à sua maneira, cada um no seu tempo, cada um na sua circunstância. (A foto é de Nunos Costa Santos e foi obtida na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) --

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por José do Carmo Francisco às 08:53

Quarta-feira, 21.12.16

«a cidade das fontes» de vergílio alberto vieira

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«As cidades são o luxo das nações; não passam disso» - estas palavras de Júlio César Machado (1835-1890) no seu livro «Lisboa na rua» (1874) ajustam-se bem a estes poemas sobre Braga em «A cidade das fontes» de Vergílio Alberto Vieira (n.1950). A capa do livro de Júlio César Machado recebe uma homenagem na fotografia de José Rocha na página 25 do livro de Vergílio Alberto Vieira tal como no poema da página 40 («As palhotas») se faz uma memória afectuosa do escritor Altino do Tojal, autor do clássico «Os putos», cujo título inicial é «Sardinhas e lua»: «As casas davam à rua / A alma que mais nenhuma / Entre sardinhas & lua / Todo o pobre perpetua / Em troca de coisa nenhuma.» A cidade de Vergílio Alberto Vieira é, pois, uma cidade revisitada pelos poemas como em «A Brazileira» na página 24: «Da má-língua costurada / Entre dois cafés-de-saco / Viveu, pois, a assim crismada / Roma então evaporada / Em lentos rolos de tabaco / Fumado a ver quem passa / No eléctrico da tarde / A tempo de levar à praça / A fleuma, que a chalaça / Reduz a cinza, enquanto arde.» A cartografia da cidade de Braga é feita em 20 poemas e 20 fotografias: além dos já referidos «A Brazileira» e «As palhotas» os poemas referem: Arco da Porta Nova, A Sé de Braga, Livraria Cruz, Sete Fontes, S. Bentinho do Hospital, Procissão do Enterro, Campo da Vinha, Rua dos Pelâmes, Theatro-Circo, Rua do Janes, O nosso café, Largo do Paço, Rio Este, Bacalhau à Narcisa, Montariol, Fonte do Ídolo, Pachancho e Braga por um canudo. As fotos de José Rocha são outro olhar sobre os mesmos temas e recantos da Cidade. Apenas difere a ordem entre os poemas e as fotografias. O Prefácio de Francisco Duarte Mangas é também um regresso às origens: «O primeiro desempregado que conheci vivia no outro lado da rua: trabalhava na Pachancho. A mulher desse operário triste, a Glorinha, passava o dia à janela.» (Editora: Crescente Branco, Prefácio: Francisco Duarte Mangas, Fotografias: José Rocha) --

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por José do Carmo Francisco às 11:01

Segunda-feira, 19.12.16

luis alberto ferreira sobre vitor damas

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O jornalista Luís Alberto Ferreira (n.1933) tem uma belíssima recordação de Vítor Damas: «Procuramos no ar a sombra volátil da plasticidade de Vítor Damas, no ar se plasmavam as estiradas do guarda-redes elástico, talentoso e inteligente. Diz o poema de Vicente Aleixandre: «Lá onde o mar é sereno / onde a tristeza sacode a sua crina de vidro / onde o alento suavemente expirado /não é uma borboleta de metal / mas um ar». O ar, os ares –o habitáculo assoprador da inspirações subitâneas de um excepcional guarda-redes de futebol. Não se pode evocar ou descrever o desportista Vítor Damas de uma forma vulgar. Por isso se invoca Vicente Aleixandre – poeta de todo em todo mediterrânico. O génio que, no exercício da poderosa influência sobre os seus contemporâneos ibéricos, almejou fundir o Homem com a Natureza. Damas, como Eusébio, poetizou o jogo com a magia dos rasgos que o tornaram sinónimo de elementos tão naturais quanto o ar, as aves e os relevos montanhosos. A sobrepujança de mais difícil caracteriza com rara eloquência o que foi o guarda-redes Vítor Damas. Ortega y Gasset interpretava as gerações como compromisso dinâmico entre massas e indivíduo – talvez o conceito mais importante da História. Vítor Damas emblematiza uma geração, no interior e à margem do futebol. Na Península Ibérica. Vítor é um «rapaz simples» vinculado a uma geração transmutativa. Na rua e na baliza. Veste, com simpleza, a elegância, é-lhe congénita uma galhardia que vai da relação esmerada com os jornalistas às intervenções mais arriscadas entre os postes. Vejo-o, nos bastidores do Europeu de 1984, em Nantes (França) assumir a condição de segunda escolha com essa galhardia viril dos homens seguros de si próprios. Vítor Damas foi um bom exemplo – e é uma boa recordação. Belíssima recordação. Vítor Damas no «Mundo Desportivo» No Highbury Park, em Londres, a 26 de Novembro de 1969, num Arsenal-Sporting, Vítor requinta-se na descomplicação. Sofre 3 golos. Os centrais, Caló e Alexandre Baptista, não têm cintura para os rompantes de um acutilante Radford. Um número 10 british, Graham (2 golos) goza de espaço para construir duas Amadoras. No final, Vítor, a partilhar um tanque com Marinho e Gonçalves, água até ao tronco, explica-me sem veleidades nem artimanhas: «No primeiro golo, do Radford, ele remata bem à meia volta. Saí para diminuir o ângulo. A bola bateu-me nas mãos e escapou-se para as redes.» Coloquei-lhe as «circunstâncias» do segundo dos arsenalistas e Vítor reagiu assim: «Há que ser realista. O golpe de cabeça do Graham foi colocadíssimo.» Sempre assim, o Vítor: simples, sóbrio e objectivo. Mais: alérgico à auto-justificação a qualquer preço. Enquanto redactor do histórico e outrora influente Mundo Desportivo, testemunhei várias das muitas actuações de Vítor Damas em Portugal e no estrangeiro. Há um registo a que poderia chamar «Vítor Damas no Mundo Desportivo», fazendo a síntese de apreciações assinadas, umas vezes por Manuel Mota ou Couto e Santos, outras por mim próprio ou David Sequerra. Veterano de muitas missões cá dentro e lá fora, Manuel Mota descrevia nestes termos a actuação de Vítor num Sporting-Benfica realizado em Alvalade a 9 de Novembro de 1969, um Domingo: «O jovem Damas, extraordinário de atenção e reflexos, ofereceu-nos, num lance decisivo, momento de beleza sem par. Quando, num prodigioso golpe de rins, desviou para canto uma bola cabeceada por Eusébio, bola em arco e com o «keeper» do Sporting já adiantado.» O «velho» Mota, sóbrio na exigência, observava, ainda: «Bem, ele, Vítor Damas, estava lá para isso. Mas francamente já não há a mínima dúvida acerca da classe do felino e ágil guarda-redes de Alvalade. Damas teve de fazer três defesas primorosas, uma delas a exigir todos os adjectivos disponíveis. Daí a nota alta (4) a atribuir-lhe». Venceram os donos da casa por 1-0, golo solitário de Marinho quando eram decorridos 21 minutos. Esta terá sido uma das edições do derby lisboeta mais marcadas pelos desempenhos de Vítor. No final, sportinguistas indefectíveis como Octávio Barrosa, José Travassos e Manuel Vasques, consideraram Damas «o melhor em campo». Com diferente estado de espírito, o técnico dos benfiquistas, Otto Glória, exclamava: «Que fazer, se era o Damas quem estava na baliza do Sporting? Sensacional, em absoluto, o poder de reposição e a rapidez de reflexos dele. Não fora o Damas e o Benfica teria agora, no mínimo mais um ponto!» À frente do guardião haviam estado Pedro Gomes, Caló, José Carlos e Hilário. Na mesma partida, na execução de dois livres, Eusébio disparou de forma contundente e Vítor correspondeu com defesas magistrais, a segunda em particular. Clubismos à parte, Vítor tinha em cada profissional do Mundo Desportivo um admirador e um amigo. O mais veemente dos quais seria o repórter Frederico Cunha, um sportinguista assumido mas com critério. Probo, humilde, infatigável repórter, Cunha «sabia» ser sportinguista e, em simultâneo, jornalista cônscio do seu dever de isenção. Estou em crer que Frederico Cunha identificava em Vítor Damas «o melhor guarda-redes do planeta». Um Damas verdadeiramente internacional Como enviado do tri-semanário outrora chamado Os Sports e dirigido pelo excelso Raúl de Oliveira – num tempo em que os jornais desportivos eram dirigidos por cidadãos impolutos – testemunhei outras actuações de Vítor Damas na Grã-Bretanha. Houve um Glasgow Rangers-Sporting, na Escócia, abundante em momentos deliciosos. Foi a 20 de Outubro de 1971, em Glasgow, no Ibrox Park, recinto cuja construção datava de 1929.Noventa minutos, claro, mas duas partes muitíssimo distintas no ritmo e nos protagonistas. Numa pausa do treino de «adaptação» ao relvado do Ibrox reparei num Damas melancólico, pensativo, encostado a um dos postes, a contemplar a clássica estrutura britânica do estádio. Imaginei-o a reflectir sobre o que é inseparável da massa do sangue dos avançados do Reino Unido: os cruzamentos aéreos como formulação de um sentido do Mundo… O encontro derivou em coisa deliciosa porque o Sporting ao intervalo perdia por 3 golos sem resposta, iria precisar de um Damas excepcional em absoluto quando na segunda parte tentasse, no mínimo, e já seria muito, chegar à igualdade no marcador. Recordo que eu e o magnífico Carlos Pinhão, enviado de «A Bola», gastámos o intervalo na sala destinada aos jornalistas. Era uma noite bastante fria e souberam-nos «que nem ginjas» o chá e o leite quentinhos, o Pinhão, decepcionado com o números do placard e a sair-se com uma das suas muito suas: «Nós não estivemos juntos no Arsenal-Sporting, em Londres? Também apanhámos. Pois é, eu confesso que nestas deslocações à Grã-Bretanha já só venho por causa do chá com leite, repara na qualidade do leite. É autêntico. Estes aqui não lhe acrescentam água, é puro leite. Não viste as vaquinhas nos pastos de Troon? Gordinhas e autênticas…» E lá fomos nós para a segunda parte. À frente de Damas estavam Laranjeira, Caló, José Carlos e Hilário. Eu e o Pinhão coincidíramos: «Chovem cruzamentos sobre o Damas a partir do flanco esquerdo dos escoceses. O Laranjeira a «lateral» parece um tanto incómodo…» A verdade, sintetizada, é que, com o Damas «verdadeiramente internacional» dos segundos 45 minutos, ressurgiu o colectivo sportinguista. Nas centrais do Mundo Desportivo da sexta-feira posterior ao jogo, escrevi eu: «Formidável reacção «leonina» em Glasgow: Ibrox Park de bico calado ouvindo a «Patética de Alvalade». E noutro texto, subsequente: «Eh,« leões» das Arábias – Uma recuperação de truz!» O Glasgow Rangers venceu por 3-2 e a igualdade escapou por um triz. Não sem que os escoceses sujeitassem Vítor Damas a trabalho de se lhe tirar o chapéu. Resumi assim a sua actuação: «Antes de finda a primeira parte, Damas, de início algo estonteado pela maré dos cruzamentos, «apareceu» em pelo menos três intervenções magníficas. No segundo tempo, Damas foi somente ele próprio, atento, desinibido e corajoso. No capítulo das referências individuais, destaquei ainda, a valiosa prestação de Hilário, José Carlos, Caló, Nelson e Lourenço. A «classe» de Vítor Damas podia avaliar-se, também, noutros aspectos comportamentais. Antes desse Glasgow Rangers-Sporting, a nossa selecção nacional havia defrontado, em Hampden Park, a congénere escocesa. Ganhou a Escócia (2-1). O 2º golo dos britânicos, constava, teria sido irregular (marcado com a mão). No estágio, em Troon, que antecedeu o Glasgow Rangers-Sporting, Vítor expôs-me sem rodeios a sua versão: «Não, eu não notei qualquer infracção do avançado escocês. Pergunta-me se fui, no mesmo lance, carregado de forma irregular. E eu confesso: não. Nas bolas altas, emboras vigorosos, por vezes duros, tão pouco eles usaram deslealdades. Portaram-se sempre dentro das mais elementares regras. Houve desportivismo.» Na agenda histórica dos guarda-redes do Sporting há nomes relevantes a acompanhar Vítor Damas na O jornalista Luís Alberto Ferreira (n.1933) tem uma belíssima recordação de Vítor Damas: «Procuramos no ar a sombra volátil da plasticidade de Vítor Damas, no ar se plasmavam as estiradas do guarda-redes elástico, talentoso e inteligente. Diz o poema de Vicente Aleixandre: «Lá onde o mar é sereno / onde a tristeza sacode a sua crina de vidro / onde o alento suavemente expirado /não é uma borboleta de metal / mas um ar». O ar, os ares –o habitáculo assoprador da inspirações subitâneas de um excepcional guarda-redes de futebol. Não se pode evocar ou descrever o desportista Vítor Damas de uma forma vulgar. Por isso se invoca Vicente Aleixandre – poeta de todo em todo mediterrânico. O génio que, no exercício da poderosa influência sobre os seus contemporâneos ibéricos, almejou fundir o Homem com a Natureza. Damas, como Eusébio, poetizou o jogo com a magia dos rasgos que o tornaram sinónimo de elementos tão naturais quanto o ar, as aves e os relevos montanhosos. A sobrepujança de mais difícil caracteriza com rara eloquência o que foi o guarda-redes Vítor Damas. Ortega y Gasset interpretava as gerações como compromisso dinâmico entre massas e indivíduo – talvez o conceito mais importante da História. Vítor Damas emblematiza uma geração, no interior e à margem do futebol. Na Península Ibérica. Vítor é um «rapaz simples» vinculado a uma geração transmutativa. Na rua e na baliza. Veste, com simpleza, a elegância, é-lhe congénita uma galhardia que vai da relação esmerada com os jornalistas às intervenções mais arriscadas entre os postes. Vejo-o, nos bastidores do Europeu de 1984, em Nantes (França) assumir a condição de segunda escolha com essa galhardia viril dos homens seguros de si próprios. Vítor Damas foi um bom exemplo – e é uma boa recordação. Belíssima recordação. Vítor Damas no «Mundo Desportivo» No Highbury Park, em Londres, a 26 de Novembro de 1969, num Arsenal-Sporting, Vítor requinta-se na descomplicação. Sofre 3 golos. Os centrais, Caló e Alexandre Baptista, não têm cintura para os rompantes de um acutilante Radford. Um número 10 british, Graham (2 golos) goza de espaço para construir duas Amadoras. No final, Vítor, a partilhar um tanque com Marinho e Gonçalves, água até ao tronco, explica-me sem veleidades nem artimanhas: «No primeiro golo, do Radford, ele remata bem à meia volta. Saí para diminuir o ângulo. A bola bateu-me nas mãos e escapou-se para as redes.» Coloquei-lhe as «circunstâncias» do segundo dos arsenalistas e Vítor reagiu assim: «Há que ser realista. O golpe de cabeça do Graham foi colocadíssimo.» Sempre assim, o Vítor: simples, sóbrio e objectivo. Mais: alérgico à auto-justificação a qualquer preço. Enquanto redactor do histórico e outrora influente Mundo Desportivo, testemunhei várias das muitas actuações de Vítor Damas em Portugal e no estrangeiro. Há um registo a que poderia chamar «Vítor Damas no Mundo Desportivo», fazendo a síntese de apreciações assinadas, umas vezes por Manuel Mota ou Couto e Santos, outras por mim próprio ou David Sequerra. Veterano de muitas missões cá dentro e lá fora, Manuel Mota descrevia nestes termos a actuação de Vítor num Sporting-Benfica realizado em Alvalade a 9 de Novembro de 1969, um Domingo: «O jovem Damas, extraordinário de atenção e reflexos, ofereceu-nos, num lance decisivo, momento de beleza sem par. Quando, num prodigioso golpe de rins, desviou para canto uma bola cabeceada por Eusébio, bola em arco e com o «keeper» do Sporting já adiantado.» O «velho» Mota, sóbrio na exigência, observava, ainda: «Bem, ele, Vítor Damas, estava lá para isso. Mas francamente já não há a mínima dúvida acerca da classe do felino e ágil guarda-redes de Alvalade. Damas teve de fazer três defesas primorosas, uma delas a exigir todos os adjectivos disponíveis. Daí a nota alta (4) a atribuir-lhe». Venceram os donos da casa por 1-0, golo solitário de Marinho quando eram decorridos 21 minutos. Esta terá sido uma das edições do derby lisboeta mais marcadas pelos desempenhos de Vítor. No final, sportinguistas indefectíveis como Octávio Barrosa, José Travassos e Manuel Vasques, consideraram Damas «o melhor em campo». Com diferente estado de espírito, o técnico dos benfiquistas, Otto Glória, exclamava: «Que fazer, se era o Damas quem estava na baliza do Sporting? Sensacional, em absoluto, o poder de reposição e a rapidez de reflexos dele. Não fora o Damas e o Benfica teria agora, no mínimo mais um ponto!» À frente do guardião haviam estado Pedro Gomes, Caló, José Carlos e Hilário. Na mesma partida, na execução de dois livres, Eusébio disparou de forma contundente e Vítor correspondeu com defesas magistrais, a segunda em particular. Clubismos à parte, Vítor tinha em cada profissional do Mundo Desportivo um admirador e um amigo. O mais veemente dos quais seria o repórter Frederico Cunha, um sportinguista assumido mas com critério. Probo, humilde, infatigável repórter, Cunha «sabia» ser sportinguista e, em simultâneo, jornalista cônscio do seu dever de isenção. Estou em crer que Frederico Cunha identificava em Vítor Damas «o melhor guarda-redes do planeta». Um Damas verdadeiramente internacional Como enviado do tri-semanário outrora chamado Os Sports e dirigido pelo excelso Raúl de Oliveira – num tempo em que os jornais desportivos eram dirigidos por cidadãos impolutos – testemunhei outras actuações de Vítor Damas na Grã-Bretanha. Houve um Glasgow Rangers-Sporting, na Escócia, abundante em momentos deliciosos. Foi a 20 de Outubro de 1971, em Glasgow, no Ibrox Park, recinto cuja construção datava de 1929.Noventa minutos, claro, mas duas partes muitíssimo distintas no ritmo e nos protagonistas. Numa pausa do treino de «adaptação» ao relvado do Ibrox reparei num Damas melancólico, pensativo, encostado a um dos postes, a contemplar a clássica estrutura britânica do estádio. Imaginei-o a reflectir sobre o que é inseparável da massa do sangue dos avançados do Reino Unido: os cruzamentos aéreos como formulação de um sentido do Mundo… O encontro derivou em coisa deliciosa porque o Sporting ao intervalo perdia por 3 golos sem resposta, iria precisar de um Damas excepcional em absoluto quando na segunda parte tentasse, no mínimo, e já seria muito, chegar à igualdade no marcador. Recordo que eu e o magnífico Carlos Pinhão, enviado de «A Bola», gastámos o intervalo na sala destinada aos jornalistas. Era uma noite bastante fria e souberam-nos «que nem ginjas» o chá e o leite quentinhos, o Pinhão, decepcionado com o números do placard e a sair-se com uma das suas muito suas: «Nós não estivemos juntos no Arsenal-Sporting, em Londres? Também apanhámos. Pois é, eu confesso que nestas deslocações à Grã-Bretanha já só venho por causa do chá com leite, repara na qualidade do leite. É autêntico. Estes aqui não lhe acrescentam água, é puro leite. Não viste as vaquinhas nos pastos de Troon? Gordinhas e autênticas…» E lá fomos nós para a segunda parte. À frente de Damas estavam Laranjeira, Caló, José Carlos e Hilário. Eu e o Pinhão coincidíramos: «Chovem cruzamentos sobre o Damas a partir do flanco esquerdo dos escoceses. O Laranjeira a «lateral» parece um tanto incómodo…» A verdade, sintetizada, é que, com o Damas «verdadeiramente internacional» dos segundos 45 minutos, ressurgiu o colectivo sportinguista. Nas centrais do Mundo Desportivo da sexta-feira posterior ao jogo, escrevi eu: «Formidável reacção «leonina» em Glasgow: Ibrox Park de bico calado ouvindo a «Patética de Alvalade». E noutro texto, subsequente: «Eh,« leões» das Arábias – Uma recuperação de truz!» O Glasgow Rangers venceu por 3-2 e a igualdade escapou por um triz. Não sem que os escoceses sujeitassem Vítor Damas a trabalho de se lhe tirar o chapéu. Resumi assim a sua actuação: «Antes de finda a primeira parte, Damas, de início algo estonteado pela maré dos cruzamentos, «apareceu» em pelo menos três intervenções magníficas. No segundo tempo, Damas foi somente ele próprio, atento, desinibido e corajoso. No capítulo das referências individuais, destaquei ainda, a valiosa prestação de Hilário, José Carlos, Caló, Nelson e Lourenço. A «classe» de Vítor Damas podia avaliar-se, também, noutros aspectos comportamentais. Antes desse Glasgow Rangers-Sporting, a nossa selecção nacional havia defrontado, em Hampden Park, a congénere escocesa. Ganhou a Escócia (2-1). O 2º golo dos britânicos, constava, teria sido irregular (marcado com a mão). No estágio, em Troon, que antecedeu o Glasgow Rangers-Sporting, Vítor expôs-me sem rodeios a sua versão: «Não, eu não notei qualquer infracção do avançado escocês. Pergunta-me se fui, no mesmo lance, carregado de forma irregular. E eu confesso: não. Nas bolas altas, emboras vigorosos, por vezes duros, tão pouco eles usaram deslealdades. Portaram-se sempre dentro das mais elementares regras. Houve desportivismo.» Na agenda histórica dos guarda-redes do Sporting há nomes relevantes a acompanhar Vítor Damas na abrangência da memória colectiva: João Azevedo, Joaquim Carvalho e Carlos Gomes, todos eles barreirenses, e Octávio de Sá, nascido na antiga Lourenço Marques. Apenas Joaquim Carvalho nos faz companhia, hoje, nos estádios da vida. abrangência da memória colectiva: João Azevedo, Joaquim Carvalho e Carlos Gomes, todos eles barreirenses, e Octávio de Sá, nascido na antiga Lourenço Marques. Apenas Joaquim Carvalho nos faz companhia, hoje, nos estádios da vida. --

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por José do Carmo Francisco às 21:05

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