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Transporte Sentimental



Domingo, 16.10.16

a academia sueca nunca irá saber quem são as netas bastardas de raúl brandão

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Quando em 1986 Óscar Lopes se surpreendeu com o facto de, perante o Mundial do México, Fausto Lopo de Carvalho conhecer todos os futebolistas que disputavam um jogo nos relvados mexicanos e em cima da hora era transmitido na televisão da sede da A.P.E. eu, obscuro escritor que estava entre os dois, percebi o alcance da frase de José Régio: «Há mais mundos». Fausto Lopo de Carvalho conhecia o Tigana, o Giresse, o Platini e todos os outros mas Óscar Lopes não reconhecia ninguém nem nunca iria preocupar-se com isso. O indiferente ao futebol acamaradava com o apaixonado mas cada um seguia o seu caminho. O futebol não era comum aos dois, só a Literatura os juntava. Agora que o escândalo rebentou (mais um!) com uma escolha de todo imprevista, inaceitável e inquietante por parte do Júri Sueco, lembrei-me de um poema da António Rebordão Navarro («As mulheres da Cantareira») que termina deste modo: «São putas? São fidalgas? São senhoras? / Netas bastardas de Raúl Brandão? / Meigas, transparentes, adejantes / antes de os elementos / cismarem em criá-las / já elas eram feitas / como deusas cumpridas / entre fumo, mito e névoa. / Como estátuas fenícias? / Como estátuas.» A Academia Sueca vive num Mundo que nada tem a ver com a Poesia de António Rebordão Navarro. «Há mais mundos» como escreveu José Régio. Hoje o poeta não se fez ao mar, Ficou a escrever um poema para «As mulheres da Cantareira» que começa assim: «Naturalmente, antes de as manhãs / pegarem fogo a todas as palmeiras / gastaram elas os perfumes nas rochas / levaram elas os seus seios para as ondas / lavaram os sexos no rio / lavraram os limos com os lábios.» ( A foto é de Filipe Francisco) --

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por José do Carmo Francisco às 16:00

Domingo, 16.10.16

alexandre herculano «um camponês dos arredores de santarém»

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Em 28 de Novembro de 1871 Alexandre Herculano respondeu ao «questionário de Proust» que lhe foi enviado em francês por D. Camila Ribeiro de Faria, amiga de Bulhão Pato. Assim: Qual a sua virtude favorita? – A lealdade. Que mais admira no homem? – A franqueza. Que mais admira na mulher? – A timidez. Qual a sua ocupação favorita? - O trabalho livre no campo. Principal atributo do seu carácter? – Pouco autodomínio na indignação. O seu conceito de felicidade? – A felicidade é uma miragem que se tenta agarrar às apalpadelas nas profundezas escuras do futuro. Qual a maior das desgraças? – Penso que é a falta de coragem e de bom senso para aceitar a realidade da vida. Qual a cor e a flor preferidas? – Todas as cores e todas as flores são belas. O que falta àquelas são combinações harmoniosas e a estas o orvalho da manhã. Quem gostaria de ter sido? - Conheço um pouco da história dos homens célebres mas ignoro o que eles sofreram ou gozaram no teatro do mundo debaixo da sua máscara. Assim recearia seriamente fazer alguma enormidade se escolhesse ter sido na vida outro diferente de mim mesmo. Onde preferia viver? – Precisamente onde estou. Os seus autores preferidos em prosa? Os que me ensinaram algo que eu ignorava antes de os ter lido. Os seus poetas preferidos? – Ai de mim! Já não leio os poetas. Quais os pintores de que mais gosta? – Deus que compôs os quadros do nascer e do pôr do Sol nesta região de colinas e árvores esparsas, é hoje o meu único pintor. O rouxinol que canta ao luar, numa noite de Primavera empoeirado num salgueiro gemebundo e inclinado para o regato que murmura, é o meu único músico. No entanto eu apreciei muito Martin, pintor do espaço e Bellini de quem se dizia que era um compositor fácil. Os seus heróis na vida real ou na História? - Eu não gosto de heróis. Suas heroínas na vida ou na História? – Também não gosto de heroínas. Heróis de ficção? Heroínas de romance? – Nos romances os heróis e as heroínas agradam-me quando os seus carácteres se definirem pelo terrível e pelo profundo. São pesadelos escritos em vez de pesadelos sonhados. O pesadelo dá, às vezes, o que eu chamo o prazer do horror, o que me atrai. Alimento e bebida preferidos? – Bifes, água com um pouco de vinho e fruta. Quais são para si os nomes mais belos? – De modo geral não tenho preferência mas antes um preconceito: há nomes que, por uma espécie de previsão instintiva, só se aplicam a tolos. O que é que mais detesta? – Entre os homens o hipócrita e nos animais o réptil: são viscosos. Quais os carácteres históricos que mais abomina? – Os tiranos. Creio, porém que detesto um pouco mais os falsos amigos do povo. Estado presente do seu espírito? – Demasiado longo para uma ou duas linhas. Que faltas lhe parecem merecer mais indulgência? – As faltas de gramática onde não houver muitas nem boas escolas. Qual a sua divisa? - Querer é poder. Todos desejam mas só os grandes carácteres querem. --

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por José do Carmo Francisco às 12:42


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