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Transporte Sentimental



Domingo, 30.10.16

uma certa eira a caminho da senhora do monte

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Conheço muitos fotógrafos que não gostam das fotos a cores; dizem que a vida real é a preto e branco, as cores são uma invenção mecânica. Eu gosto muito destas fotografias talvez porque nasci em 1951 num tempo em que as fotografias eram tão raras. Ofereciam-se retratos «como prova de amizade» – para o meu querido padrinho, para a minha saudosa madrinha. Esta foto terá a data de 25 de Abril de 1977, dia do aniversário da Vó Mam e foi tirada na eira da Abadia. Como diz o poema «estamos todos felizes porque não tinha morrido ninguém» mas corrijo de imediato pois tinha-lhe morrido o marido em 1954, uns meses antes do nascimento da Conceição. Estão os filhos todos, além de Conceição, a mais nova – Cecília, Natália, Júlia, Ermelinda, António e José. Estão os tios, seus irmãos mas só recordo quatro nomes – Tia Corina, Tio Chico, Tio Artur, Tia Julinha. Todas as horas nos ferem e eu não sou excepção. Não me lembro de todos mas não esqueço o Paulo, aqui junto da sua Tia Natália que tem para com ele um gesto de ternura. Foi o primeiro a sair da fotografia em 1982, uma dôr absoluta para todos nós. Morreu por excesso de gentileza para com alguém a quem deu boleia inesperada e a viatura perdeu-se no meio da neblina. O olhar do Paulo permanece trinta anos depois da sua insólita morte. Outro dia no «facebook» a sua irmão Xaninha recordou esta data. O tempo voa. A vida é um mistério, não é um negócio. Por isso, nós nada sabemos nem do amor nem da morte. E tudo gira à volta dos dois: por amor entendemos a reunião, por morte a separação, por amor entendemos a felicidade, por morte a desolação, por amor entendemos o júbilo, por morte o desespero. Filosofias à parte, tudo vai lá parar, lá, a um lugar onde não há mentira nem ódio nem esquecimento porque o tempo não destrói as coordenadas de quem foi feliz. --

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por José do Carmo Francisco às 21:22

Sexta-feira, 28.10.16

crónica ou poema em prosa para joão moreira

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Estamos em Vila Nova de São Pedro, concelho da Azambuja. Há um homem antigo que vem do fundo do tempo e caminha com quatro moínhos no olhar. Aos moínhos do Belchior e do Valério juntam-se o do Narciso e do Faustino. Hoje os moínhos já não transformam grão em farinha com a qual mulheres antigas vão encher de água, fermento e sal os grandes alguidares de barro vidrado. Depois do forno já não virá a festa da mesa da qual um qualquer bocado que possa cair será tirado do chão com um beijo. Era esse beijo o respeito à vida que o próprio pão representava. Há um homem que vem do tempo antigo quando a riqueza se media (tal como na Bíblia) pelo número de animais, de criados e de filhos que cada homem tinha na Charneca, na Lezíria ou no Bairro. Sem esquecer as árvores que de nove em nove anos despiam a epiderme para dar origem a rolhas ou a mosaicos nas paredes dos estúdios de rádio. Tudo no tempo antigo era justo, intocado, circular e repetido. Mas não era; apenas parecida. Basta ver: os moínhos trazidos no olhar cansado deste homem antigo são hoje apenas uma memória. Há um homem antigo que vem do tempo em que os campinos levavam no avio da semana um pão para oito dias. Numa pequena fogueira de gravetos, colocavam uma panela em cima de quatro pedras. Com paciência cortavam com a navalha dentes de alho sobre um pingo de azeite ao lado do miolo do pão duro e duas lascas de bacalhau da Islândia. Essa massa quente saltava depois para o interior do pão, aquecendo assim a côdea dura já com uma semana de rigidez. Era assim que junto a um valado se cozinhava um prato que é hoje apreciado nos restaurantes da moda onde já não há cozinheiros mas apenas chefs. Nesse tempo os campinos não usavam telemóvel nem jeep. Apenas um cavalo de carne e osso que nada tem a ver com os cavalos-vapor das máquinas e dos motores. Há um homem antigo que vem do fundo do tempo e tem quatro moínhos no olhar. --

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por José do Carmo Francisco às 10:52

Sexta-feira, 28.10.16

«pirilampos da alma » de antónio moreira pinto carvalho (paulinas editora)

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A página 7 deste livro abre com a palavra «Introdução» em vez de «Prefácio» ou «Prólogo». Questão de escolha. Nela o bispo de Bragança-Miranda, D. José Manuel Garcia Cordeiro, refere o autor deste livro como «diácono» embora na página 8 já lhe chame «autor». Não é a mesma coisa pois o diácono tem funções específicas dentro das quatro paredes da igreja, sendo um mediador entre o Povo de Deus e o próprio Deus no mistério e no ministério do altar. Autor é o que cria beleza e ritmo com as palavras que valem menos de que «pétalas pisadas depois de um baile» – Maiakowsky o escreveu um dia. Outro aspecto é a contracapa onde um excerto da «Introdução» de D. José Manuel Garcia Cordeiro aparece em forma de poema e com o nome «Garcia» ignorado, desaparecido e apagado. Aqui como em tudo na vida só posso ser o que sou e dar o que tenho. Ninguém pode ser quem não é nem dar o que não tem. Aprendi em 1978 no velho «Diário Popular» com Jacinto Baptista que todo o leitor merece a indicação do ponto de partida de cada livro cuja nota de leitura vamos elaborar e assinar. Ora o ponto de partida deste «Pirilampos da alma» é a relação de causa/efeito entre os textos bíblicos, as encíclicas, os ensaios de teologia ou o catecismo da Igreja Católica e os desenhos que são quatro (páginas 9-35-69-107) para 49 poemas e 52 citações ao todo. Para quem gosta de fazer contas, convém explicar que o desenho da página 9 não tem o correspondente texto de citação, antes se segue ao prefácio de D. José Manuel Garcia Cordeiro referido no livro como «Introdução». O ponto de partida é, pois, a causa e o efeito entre a citação e a dissertação. De um lado a Bíblia, as encíclicas, o catecismo da Igreja Católica e os ensaios de teologia; do outro lado os poemas que são 48 sonetos e apenas um poema em prosa. O ponto de chegada é o poema da página 109: «As palavras que escrevo e que digo / pirilampos da alma que acendi / nos momentos mais íntimos contigo / são migalhas do amor que recebi//Foi com tua Palavra, ó Pai amigo / que quiseste nas minhas provocar / o encontro do pobre sem abrigo / com o pão que Tu negas em não dar//Pequeninos luzeiros que incendeiam / os silêncios da minha solidão / são sementes de fé que em mãos semeiam / esperanças lavradas de oração / e o chão o caminho presenteiam / p´ra rasgar horizontes de paixão!» Não é possível resumir em breves linhas o conteúdo e a forma de 49 poemas. Fiquemos pela indicação de dois aspectos: o discurso do autor e a geografia. O autor («Sem Ti não sei quem sou neste deserto») utiliza um método («Escrevo-te esta carta que o meu peito /está pedindo urgente remissão») com uma ideia formada («Não me deixes perdido, fustigado / pelos ventos desérticos da vida») pois só junto ao Senhor o poeta se sente encontrado: «É contigo que eu quero caminhar / e em Ti me encontrar se me perder». A geografia pode ficar no intervalo entre o mar e a serra. O mar tem a ver com o Turcifal («Mas agora, corridos tantos passos / sem lhe ver o calçado, nem os traços /encontrei-o nos ares do Turcifal») e a serra tem a ver com o Monte Tabor: «Andar sempre contigo ó Senhor / é ver-Te em cada rosto, em cada ser / é ter no coração do meu viver / a vida transformada no Tabor». O que torna o poeta próximo do crente é o facto de o poema ser uma forma de oração: em ambos se ligam de novo dois mundos separados pela distância, pela noite e pela morte. Em ambos os casos (poema e oração) são usadas as palavras. Ora a palavra é uma graça mas também uma responsabilidade. Na página 85 do livro «Poemas para rezar» de Michel Quoist lá surge a advertência: «Tomei a palavra, Senhor, e estou vermelho de raiva / De raiva sim pois agitei-me, gastei-me, esbanjei voz e gesto / Meti tudo o que sou em frases e palavras / E receio que o essencial não tenha sido dito / Pois o essencial, Senhor, não está ao meu alcance / E para contê-lo as palavras são estreitas de mais. / Tomei a palavra Senhor e estou inquieto / Tenho medo de falar porque é grave / É grave incomodar os outros, fazê-los sair de casa, pô-los de pé, imóveis à soleira da porta / É grave prendê-los longos minutos, mãos estendidas, coração tenso implorando uma luz ou um bocadinho de coragem para viver ou para agir / Será que não vou despedi-los, Senhor, de mãos vazias?» Por sua vez o Padre António Rego no seu livro «Eterno agora» tem um poema na página 148 intitulado «Ver bem» que conclui deste modo: «quantas vezes a mim Te dirigiste / e quantas vezes não mereci o Teu olhar/ ou o apelo sedutor da Tua apalavra // Tenho receio de esbanjar os Teus dons / e esquecer a Tua Ressurreição // Faz-me Senhor atento / ao teu afecto / às dádivas que distribuis / e às maravilhas que nos tocam // E desculpa por não saber ver-Te melhor / nos sinais do nosso tempo / quando fecho os olhos à Tua passagem / para só ver as misérias do mundo. //A Humanidade reflecte os Teus dons //Faz-nos ver isso, Senhor.» No livro «Marcha triunfal» de Júlio Dantas o recém-regressado Antão de Noronha pergunta a diversas pessoas na igreja de Santana onde estava sepultado Luís de Camões. Ninguém sabia. Uns respondiam «Quem é?» Outros: «Não sou da freguesia» Outros: «Não ouvi falar». Quando saiu da igreja Antão de Noronha viu terra revolvida de fresco mas nem uma lousa nem uma cruz.» É este o risco que corre quem pega na palavra num país de analfabetos, um país que conhece Bocage pelas anedotas e Bulhão Pato pelas amêijoas. Se Camões, o grande carpinteiro das palavras, entrou no esquecimento meses depois da morte civil muito pouco podem esperar os modestos carpinteiros, os de oficina humilde, pequena e mal iluminada. Para terminar nada como lembrar a solene advertência de São Mateus: «por toda a palavra ociosa que disserem, hão-de os homens prestar contas no Dia do Juízo, porquanto pelas tuas palavras serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado.» --

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por José do Carmo Francisco às 08:20

Quinta-feira, 27.10.16

luiz pacheco na estrada de benfica

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Luiz Pacheco (1925-2008) foi meu entrevistado duas vezes entre 1997 e 2001 no jornal O MIRANTE de Santarém. Uma delas está disponível na Internte no Blog TRIPLOV coordenado por Maria Estela Guedes. Mas não é para falar de mim (era o assinante 186) que pego no teclado neste momento; é para recordar Luiz Pacheco e a sua passagem pela Estrada de Benfica lá pelos idos de 1950. Segundo o livro «Exercícios de Estilo» a «Cronologia» estabelecida por Ana da Silva refere o seguinte: «1950 - Devido ao clima húmido de Bucelas, propício às crises de asma, começa a ir dormir à casa do tio e padrinho, coronel Fernando António Gomes, num sótão, em Benfica (Villa Anna, Estrada de Benfica, 674) onde aloja ocasionalmente António Maria Lisboa.» Há um texto de Luiz Pacheco muito curioso sobre essas memórias da casa de Benfica porque ao tempo havia os «eléctricos» com atrelado (o 1 e o 5) mas depois da uma e meia da madrugada só se ia a pé. Como Mário Cesariny morava na Rua Basílio Teles ali ao IPO, vinham os dois a conversar até ao 674 da Estrada de Benfica. Curiosamente essas casas (Villa Anna, Villa Ventura) deram origem a um livro de Hélia Correia («Villa Celeste») que por acaso foi editada pela Editora Contraponto de Luiz Pacheco. Não deixa de ser curioso que estando a Estrada de Benfica assente numa ribeira antiga onde havia lavadeiras como as de Caneças, a explicação para se afastar de Bucelas tenha sido a humidade. Enfim… com Luiz Pacheco tudo é possível. Como as suas passagens pelo Bairro Tacha e por Palhavã onde fazia «parelha» com Manuel de Lima e Mário Cesariny. Mas isso já é outra história. --

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por José do Carmo Francisco às 10:35

Quarta-feira, 26.10.16

«todos os contos, novelas curtas e romances breves de camilo castelo branco»

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Tudo no escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890) é grandioso, admirável e insólito; tanto na vida (o sangue pisado) como na escrita (o estilo). Tendo nascido em Lisboa no ano de 1825, fica sem a mãe antes dos dois anos e sem o pai apenas com dez anos. Na viagem com destino ao Porto em 1837 (com a irmã e uma criada) uma feroz tempestade obriga-os a desembarcar em Vigo. Tragédias na vida, grandezas na obra – esta poderá ser uma possível legenda. Torna-se tarefa impossível resumir em 20 linhas um livro de 669 páginas que o organizador dedica a Alexandre Cabral, Romeu Correia, Xela Arias e Raúl Ruiz. Primeiro de quatro volumes, esta obra monumental mostra algumas facetas do «grande mestre» como lhe chamou Carlos de Oliveira em entrevista a «O Primeiro de Janeiro». Sobre a obra de Camilo Castelo Branco existem trabalhos de Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, José Régio, Vitorino Nemésio, Jacinto do Prado Coelho ou Alexandre Cabral, entre outros estudiosos. O humor camiliano está na página 67 deste livro na sua resposta a um poetastro tripeiro que lhe enviou um livro para apreciação: «Segundo as fábulas, houve tempo em que os animais falavam, agora escrevem…». Ou na página 96 no prólogo de «A Caveira» quando o mestre escreve: «Quem disser que em Trás-os-Montes não há romances é capaz de dizer que a Lua não tem habitantes e as alfândegas ratos. A província de Trás-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de Portugal segregado da civilização; mas não deixa por isso de ter ruma crónica de tradições bárbaras, que virá arquivar-se em folhetins quando os caminhos de ferro, construídos pelos capitalistas da Ovelhinha, aproximarem o contacto das inteligências com as florestas virgens daquela região polar.» O único senão neste livro (mais que livro fica como acontecimento literário em 2016) é o chamado «acordo ortográfico» que dá origem na página 237 a uma estranha palavra (adota) em vez de adopta. Camilo, ele-mesmo, deve dar umas quantas voltas no jazigo, revoltado com a heresia. Mas isso já é outra história; Camilo resiste a tudo, até aos abortos da ortografia. (Editora: Círculo de Leitores, Revisão: Pedro Ernesto Ferreira) --

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por José do Carmo Francisco às 12:25

Terça-feira, 25.10.16

canção breve para cristina e raquel em são roque

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Estou em São Roque. A cidade que olha o Tejo todas as manhãs levanta os vossos nomes do chão verde dos jardins e das pedras dos passeios para os levar até ao ar onde as sílabas se misturam com as campainhas dos velhos eléctricos com atrelado, os pregões das varinas, os fados nos aparelhos de telefonia nas tabernas escuras ou as mulheres que da janela chamam os filhos para o almoço depois da brincadeira da manhã. Os vossos nomes são cantados na Travessa da Queimada e o som chega ao Largo de São Roque a quem chamam da Misericórdia mas que se chama de facto Trindade Coelho como se fosse um prémio de lotaria, uma cautela premiada, uma alegria que ninguém espera. Cristina é uma mulher-menina, Raquel é uma menina-mulher e no tempo que demora a fumar um cigarro fico a saber que aquele número de telemóvel já não funciona. Nada sei de Cristina nem de Raquel e, contudo, canto sempre. Seja a luz dos seus nomes, seja a sombra da sua ausência, seja ainda a magia que nasce de um desencontro nas ruas da cidade que olha o Tejo. Levanto do chão do tempo estas palavras numa canção breve para Cristina e Raquel, nomes perdidos num caminho de todos os dias mas encontrados nas linhas de uma crónica quase poema em prosa aqui perto do Tejo. Tão perto que ainda se ouvem os gritos dos calafates e dos marinheiros na azáfama da partida para longes terras. Como a «Menina e Moça» afinal. Como Cristina e Raquel que nunca mais vi no turbilhão da cidade e cujos nomes perdi mas espero um dia poder olhar de novo entre a terra verde dos jardins e as pedras pequenas dos passeios das ruas da cidade. Nota final- Esta crónica pode e deve ser lida a ouvir a balada cujo título é «Once» interpretada na guitarra por Jesse Cook. --

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por José do Carmo Francisco às 12:27

Domingo, 23.10.16

sérgio lucena, os peixes de são pedro e os «anais» de tácito

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Comecemos pelo princípio porque, como dizia a sorrir o meu amigo Dinis Machado (1930-2008) «qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar». Sérgio Lucena é o autor do desenho da capa e das ilustrações do miolo do meu livro «Mansões abandonadas» publicado por Escrituras Editora em São Paulo- Brasil no ano de 2007. Eu não estava lá mas contaram-me que nas instalações da Editora da Rua Maestro Callia, 123 foi muito rápida a decisão do autor da capa que terá explicado ao editor Raimundo Gadelha algo como isto: «O autor dos poemas do livro é cristão, percebe-se logo e daí a lógica do desenho do peixe na capa e no interior.» Os peixes que vou procura colocar junto ao texto são de um lago com três nomes: para uns Genesaré, para outros Tiberíades e para outros ainda Mar da Galileia. São os chamados peixes de São Pedro porque, diz a antiga tradição, os peixes do tempo de Jesus Cristo eram assim como estes. Estão aqui mas podiam estar na capa do meu livro publicado no Brasil. Só não estão porque Sérgio Lucena fez uma interpretação e não uma cópia. Dito de outra maneira: a arte não copia a realidade. E por referir realidade eis as palavras de Tácito sobre os Cristãos nos seus «Anais» no ano de 115: «Este nome veio-lhes de Cristo que, sob o domínio de Tibério, o procurador Pôncio Pilatos mandara supliciar. Dominada naquela ocasião aquela superstição horrível apareceu de novo, não só na Judeia, onde o mal começara mas também em Roma, onde abunda tudo o que há de mau e vergonhoso no mundo e ali encontra numerosa clientela.» A citação de Tácito é do livro «Cristo Fonte de Vida» do Padre Dheilly (Instituto Católico de Paris) com tradução de Raul Machado e edição da União Gráfica – 1960. Afinal aquilo que Tácito escreveu em 115 D.C. continua vivo e multiplicado como os peixes. --

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por José do Carmo Francisco às 18:22

Domingo, 23.10.16

devir nº 3 - revista ibero-americana de cultura

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De uma revista com 109 páginas muito há para referir mas o espaço é curto e o tempo também. Já não há paciência para grandes conversas, o tempo que vivemos é veloz por excelência. Mas os directores da «Devir» advertem: «Ao espectáculo circense prefere antes a contemplação e a expectação». Fixemos apenas alguns aspectos. Na página 22 o poema de Carlos Frias de Carvalho faz uma homenagem ao poeta Miguel Hernandez (1910-1942): «abandonaste as cabras / que guardavas desde a infância / e foste à procura / de outras cabras / que só a vida guarda / de forma tão obscura / e desse embate intenso / sobre a pedra dura / ergueste o teu ofício / seguindo cada cabra / até ao cimo / do último precipício». Na página 53 Rui Almeida faz uma homenagem ao anjo do julgamento final na Catedral de Notre Dame de Paris num poema cujos primeiros versos são: «Quanta vezes já acabou o mundo / E quantas já / Trouxe este anjo à sua trombeta o sinal / Da violência?» Os dois lados da Poesia (canção/reflexão) estão presentes nos textos de Joana Ruas sobre Fernando Assis Pacheco, de Maria Estela Guedes sobre Herberto Helder ou de António Carlos Cortez sobre Nuno Júdice. Ruy Ventura em «Por uma poesia arborescente» refere um livro de Andrew Joron («On New-Surrealism») para avançar numa ideia: «se uma teologia negativa leva à desumanização de Deus, também a Poesia, correspondendo ao seu mais alto desígnio e chamamento, deve resultar numa desumanização da linguagem.» Nuno Matos Duarte apresenta um capítulo de um texto teórico extenso sobre «Um lugar para a Arte». A revista conta com outras colaborações assinadas por: Adriano Wintter, Alberto Velho Nogueira, Alfredo Pérez Alencart, Ana Horta, Ángel Manuel Gomez Espada, Carlos Barbarito, Harold Alvarado Tenório, Heleno Godoy, Joan Navarro, João Rasteiro, Joel Henriques, José Rui Teixeira, Nestor Diaz de Villegas, Régis Bonvicino, Rento Suttana, Thiago Ponce de Moraes, Angel Campos Pámpano e Manuel Vilariño. Nota final - Os apoios são da Editora Licorne, Câmara Municipal de Marvão e Galeria de Arte Carlos Carvalho. --

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por José do Carmo Francisco às 09:46

Domingo, 23.10.16

nuno perestrerlo tem razão mas falta o resto

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Mão amiga chamou a atenção e trouxe-me para a Livraria Bonecos Rebeldes o recorte do texto de Nuno Perestrelo intitulado «O buraco negro» em A BOLA na coluna «Bola na rede». O articulista tem razão quando escreve «é imperioso falar do Campeonato de Portugal» mas já não acerta quando refere o «povo do futebol» como «responsável pela desvalorização» do Campeonato de Portugal que se disputou entre 1921/22 e 1937/38. Essa «desvalorização» começou por ser feita pelo jornalista Ricardo Ornelas no seu livro «Números e nomes do futebol português» de 1950 e não pelo «povo do futebol» que (coitado dele) nem escreve livros nem lê muitos livros. A vigarice é simples: como em 1935/36, 1936/37 e 1937/38 o SLB ganhou três «Ligas», Ornelas «fez de conta» que nessas épocas desportivas não se disputou o Campeonato de Portugal cujos vencedores foram: SCP em 1935/36, FCP em 1936/37 e SCP em 1937/38. Dito de outra maneira: além de somar os Campeonatos de Portugal de 1929/30, 1930/31 e 1934/35, o SLB teria ainda mais 3 títulos «fazendo de conta» que as «Ligas» não foram de facto provas particulares, experimentais e disputadas nos Domingos deixados livres pelos jogos do Campeonato de Portugal. Foi isto que Nuno Perestrelo não escreveu. De qualquer modo (e todos o sabemos!) o Campeonato de Portugal era uma prova que atribuía uma Taça. Os rapazes do SCP que em 24-6-1923 ganharam à Académica em Faro por 3-0 vieram de comboio até Lisboa a cantar uma canção em voga nesse ano cujo refrão terminava assim: «Que a malta trazia a Taça/ Já toda a gente sabia!» e nos anos 20 e 30 outra cantiga celebrava essa prova desportiva que era a única a atribuir o título de campeão de Portugal. Era assim: «Olha o balão / Olha o arraial /Olha o (nome do clube) / Campeão de Portugal!». --

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por José do Carmo Francisco às 09:00

Quarta-feira, 19.10.16

«a conquista das almas» de aniceto afonso e carlos de matos gomes

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O ponto de partida deste livro de Aniceto Afonso (n.1942) e Carlos de Matos Gomes (n. 1946) é a análise e revelação do acervo do coronel Rodrigo Sousa e Castro entregue a José Pacheco Pereira ainda em fase de inventário. O pano de fundo da acção é a política de Salazar nos anos do pós-guerra. Não havia viaturas tácticas nem blindados para o Exército nem aviões bombardeiros para a Força Aérea e nem navios de fiscalização para a Armada porque «Salazar preferia ter as contas acertadas em vez de fazer investimentos, mesmo que estes se destinassem à defesa das suas políticas.» O próprio Ministério do Exército reconhecia: «Num conflito deste tipo, a Acção Psicológica é fundamental. Atingir o inimigo, minando-lhe o moral, tentando inverter a sua posição ideológica, mostrando a falsidade das suas doutrinas e os pontos fracos dos seus ideias, tornou-se um dos objectivos da guerra de métodos não ortodoxos. O panfleto tomou a dimensão de uma arma; a acção de efeito psicológico passou a ser encarada, neste tipo de guerra de ideias, como um meio de elevado alcance para a obtenção dum fim.» Ao mesmo tempo a chamada «politica dos aldeamentos» gerou mais descontentamento do que adesão porque se por um lado a aglomeração de pessoas em número elevado facilitou o seu controlo por outro lado quebrou os laços dessas populações com a terra, «afectando as relações familiares que sempre assentaram no território.» Como afirma Pacheco Pereira no prefácio «os cartazes e os panfletos falam por si» e no caso de Moçambique estão escritos em suaíli, maconde, ajaua, nianja e macua-meto. Por sua vez os autores situam a doutrina portuguesa na guerra colonial como beneficiária das experiências dos franceses e dos ingleses, na Argélia e na Malásia. De notar que os textos em Português sobre Uria Simango, «Humu» Ngaga e o capitão-mor Nchinha estão repetidos e o texto de 26-8-67 refere Alvário em vez de Álvaro. (Editora: Tinta-da-China, Prefácio: José Pacheco Pereira, Capa: V. Tavares) --

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por José do Carmo Francisco às 11:44

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