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Transporte Sentimental



Sábado, 30.04.16

uma certa casa térrea ali perto de coruche

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«A vida é como a morte de São Bernardo; uns a rir, outros a chorar». Na região de Alcobaça, há sessenta anos, esta frase era muitas vezes usada no meu tempo de criança em Santa Catarina quando era habitual encontrar-se um miúdo nos caminhos das fazendas (as chamadas serventias) e lá saía a inevitável pergunta «Óh nino, de quem és tu?». Era assim mais ou menos. Um pouco como na Bíblia, a riqueza das pessoas media-se pelo número de filhos, de animais e de criados. Quanto mais filhos tinha mais rico era o homem da casa e muitas vezes, à saída da missa no Domingo de manhã, era o pai do rapaz que recebia a jorna do filho e lhe dava (quando dava) uma «folha de alface» para uma pequena paródia com os amigos. (Para quem não sabe uma folha de alface era uma nota de vinte escudos - porque era verde). Pois a vida, pelo menos para mim, não é uniforme nem sempre igual. Umas vezes aparece o colectivo, outras a vida é mais individual. Muitas vezes o «nós» dá lugar ao «eu». Trabalho desde 1966 e sempre estive integrado no BPA em grandes sectores, grandes secções e grandes departamentos. Mesmo no jornalismo e na literatura, a partir de 1978, sempre me liguei a grande projectos e a grandes editoras. Mas muitas vezes a solidão apetece até como contraponto ao colectivo. Um certo egoísmo parece ganhar por momentos ao espírito solidário quando passo por uma pequena casa e sonho com meia dúzia de livros, um caderno de apontamentos, um fogão no Inverno, uma sesta no Verão. Mas essas ideias são um intervalo, uma coisa de vai e vem, surge e desaparece, nasce e morre. Nada mais que um capricho solitário na cabeça de um cabouqueiro de palavras solidárias desde 1966. Primeiro como leitor das catedrais de papel, depois como obscuro construtor desse efémero semanal. --

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por José do Carmo Francisco às 10:29

Quarta-feira, 27.04.16

para mim um «glossário» é como um poema

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O livro «Alguns contos» de Carlos Pato, a terceira edição de 2012 (Editora Página a Página) inclui, além dos três contos do autor («Ao receber a jorna», «Valados» e «Graxas»), um prefácio de José Casanova (página 9), o prólogo da Alves Redol à edição de 1951 (página 23) e um glossário (página 69). O glossário aparece sem autor. Não tem grande importância nem pessoal nem literária este caso do glossário mas a ideia de o escrever foi minha e fui eu que a concretizei junto da filha do autor do livro – Clara Pato. Para o bem e para o mal, o glossário é meu, trabalhei nele muitas horas porque grande parte das palavras estão datadas, são dos anos quarenta do século XX e não foi fácil penetrar nesse tempo português determinado. Como curiosidade aqui fica o tal glossário do livro «Alguns contos» de Carlos Pato: «Acatadores – os que aceitam as ordens, Aferro – afinco, Ceres – deusa romana da agricultura, Costeiros – costas, Fateixa – âncora artesanal, Giboso – corcunda, Graxa – engraxador, Guardadores – os que vigiam o gado, Lanchão – lancha grande, Macaréu – onda do rio em direcção à nascente, Mártir Santo – bairro de Vila Franca de Xira, Méreis – mil réis, escudos, Pampeiro – vento de sudoeste, Páramos – planície, Pedida – jogo de cartas, Pirolito – água engolida pelo nadador, Safanos – malandros, Superior – marca de tabaco, Toletes – cavilhas onde assentam os remos dos barcos, Tourinas – cabeça de touro em rodas para treino de toureiros, Valadores – os que abrem valas e valados, Varino – garoto avieiro, Verdilhão – espécie de pássaro, Vezes de parto – número de filhos» Não sendo eu ribatejano ma sim natural da Estremadura, vivi no Montijo de 1957 a 1961 e em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 para além de ter trabalhado em Santarém de 1997 a 2001. Daí o meu interesse. --

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por José do Carmo Francisco às 18:05

Quarta-feira, 27.04.16

«uma estátua no meu coração» de soledade martinho costa

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Autora de mais de 30 títulos na área infanto-juvenil, de 3 livros de poemas, de 2 peças de teatro, de 1 inquérito ao Livro Infantil, dos 8 volumes das Festas e Tradições Portuguesas (Círculo de Leitores), Soledade Martinho Costa surge neste recente volume com uma revisitação ao passado próprio mas também social, partindo sempre das experiências pessoais para um olhar mais abrangente sobre o Mundo e a Sociedade. Colaborou em diversos jornais e revistas: Diário Popular, Diário de Lisboa, O Jornal da Educação, Expresso, Público, Diário de Notícias, Pública e Notícias Magazine. O ponto de partida é dado na página 16: «Recordações, memórias, isso sim, tenho. Mas são outra coisa. Ter recordações ou memórias não quer dizer sentir saudades. Recordo os meus pais, os meus familiares, os meus amigos que já não estão comigo. Recordo a infância dos meus filhos. A minha vida. As coisas que tive. Os locais que conheci.» Um dos pontos deste livro é na página 14 a dissertação sobre a posteridade em literatura: «Há nomes imortais, reconheço. Certezas, só uma: a de serem lembrados, enaltecidos, não pelos seus pares (raramente o fazem) mas pelos seus leitores. É aí que reconheço a glorificação, a imortalidade de uma obra.» Este é um livro diferente, não um livro mas o livro: «Talvez um livro onde estejam patentes a biografia, as memórias, as crónicas. Sim talvez um livro que represente um pouco de tudo isso.» Nascida em Lisboa, Soledade Martinho Costa foi viver para Alverca do Ribatejo com 10 anos: «Saí de casa dos meus pais quando me casei mas continuei a morar, até hoje, na mesma rua. Rua que permanece particamente igual, quando a localidade era a pequena vila ribatejana que conheço desde a infância.» Belíssima é a evocação de Fernando Assis Pacheco no Diário de Lisboa em 1979: «Vou fazer-lhe três perguntas: quando quer começar; quando terei em mão o primeiro texto e se poderei contar com uma entrevista, entregue, rigorosamente, todas as semanas, para serem publicadas às quintas-feiras.» Tal como é belíssima a memória da Banda Desenhada: «Depois de dizer «bom dia» ao Senhor Adão, ele entregava-me «O Papagaio», «O Mosquito», «O Diabrete», «O Cavaleiro Andante». Mas não é só Literatura; este livro integra memórias do sangue pisado da vida, como o caso de uma avó da autora a quem morreram dois filhos, Margarida e Bento: «A mãe que perde filhos nunca mais alivia o luto». Outra memória sentida é a de Alice Gomes, irmã de Soeiro Pereira Gomes, casada com Adolfo Casais Monteiro: «Impedidos de exercer a carreira de professores liceais em escolas do Estado, contava-me que tinha sido por intermédio (paradoxal) de Fernanda de Castro, mulher de António Ferro, que haviam conseguido colocação no ensino privado.» O título feliz deste livro está na página 207, na fala de uma neta da autora: «Olha, papá, a estátua do avô Rafael está aqui, dentro do teu coração.» (Editora: Vela Branca, Prefácio: Rui Vasco Neto, Capa: Hélder Lopes sobre tela de Peter Wilhelm Ilsted, Revisão: L. Baptista Coelho) --

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por José do Carmo Francisco às 15:02

Terça-feira, 26.04.16

os quatro elementos na voz da mulher-menina

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Há um rumor de água no timbre da voz da mulher-menina. Sobe esse rumor das linhas de água sem nome que afluem noite e dia às ribeiras conhecidas; as quais, por sua vez, debitam o seu caudal nos afluentes da margem esquerda do Rio Tejo: Erges, Ponsul, Ocreza, Zêzere, Maior e Trancão. Há um rumor de terra na altura da voz da mulher-menina, como se todo o mistério da terra adormecida nas noites de chuva se desvendasse nos primeiros raios de sol nesta manhã de segunda-feira depois de um vento inesperado ter atirado as nuvens escuras para o lado de Espanha. Há um rumor de fogo na extensão da voz da mulher menina, quente e duradouro, para lá do vidro que nos separa do seu esplendor. O gato instalou-se perto do lume, enroscado, adormecido, egoísta, capaz de inventar uma outra vida quando a vida do momento que passa se parece perder. Tal como as ondas do mar, são sete as vidas do gato. Há um rumor de ar na potência da voz da mulher-menina, o mesmo ar que entra nas casas e aquece o forno do pão ou entra mas cantigas de quem pratica as tarefas transparentes da chamada vida da casa: as refeições, a limpeza, o momento de engomar, a paz do sono merecido. É na voz da mulher-menina que o Mundo se renova todos os dias. No seu gabinete vê cinco homens que descem do avião do céu com asas de nylon e correm num relvado à procura do pára-quedas que enrolam velozmente a caminho do hangar. Água, terra, fogo e ar são os elementos que a voz da mulher-menina convoca todas as manhãs para que a vida comece de novo e haja na terra o contrário da escuridão. --

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por José do Carmo Francisco às 19:47

Quinta-feira, 21.04.16

o assinante 186 - dua sou três coisas sobre luiz pacheco

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Sou o assinante nº 186 no ficheiro de Luiz Pacheco num país com dez milhões de habitantes; quer dizer alguma coisa. Portugal não é um país de brandos costumes nem de poetas; a maior percentagem é de analfabetos. O país real passa ao lado destas coisas: livros, poemas,crónicas, romances, artes e letras em geral. Conheci Luiz Pacheco em 1967 na Parceria A.M. Pereira na Rua Augusta em Lisboa e comprei-lhe os «Textos locais» por 7$50. A tertúlia era informal, funcionava à hora de almoço e integrava Romeu Correia, José Palla e Carmo, Ruben A., Natália Correia e Luiz Pacheco, quando calhava. Eu tinha 16 anos e estava ali apenas para ouvir. Pacheco tinha 42 anos e já era aceite pelos seus pares com toda a naturalidade. A distância era grande. Mais tarde, anos 80, vim a encontrar Pacheco com Herberto Helder e Mello e Castro; Ele recebia do dono da pastelaria «Mourisca» colchões, lençóis e cobertores para a casa de Massamá. Herberto Helder revia provas do seu novo livro «As magias» e pedia-me «Divulgue nos jornais que eu deixei de escrever». Outras vezes encontrava Pacheco nos eléctricos 29 e 30 a caminho do Príncipe Real, sempre sem pagar bilhete perante a indiferença do revisor. Mais tarde entrevistei duas vezes Pacheco em Palmela para «O Mirante» e visitei-o no Montijo e na Liga dos Amigos dos Hospitais no Príncipe Real. Pacheco escritor maldito – sem dúvida mas o que é um escritor maldito em Portugal? Responder a essa pergunta dá pano para mangas mas nunca de alpaca que não era o género do Pacheco. Experimentou mas não ficou freguês. Eu sou diferente; tive o mesmo emprego 32 anos e tenho uma reforma minúscula porque fui delegado sindical. Mas não foi para falar de mim que peguei no teclado. Sou o assinante 186 do ficheiro de Pacheco e isso me basta hoje como ponto de partida. --

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por José do Carmo Francisco às 14:30

Quinta-feira, 21.04.16

«a rh - (sanguis languens)» de patrícia baltazar

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A Poesia portuguesa actual é uma paisagem povoada por livros grandes mas também por livros pequenos. Não por acaso o editor chama a este mais recente livro de Patrícia Baltazar «pequeno objecto» embora nas suas 22 páginas caibam citações de Marguerite Duras, Manuel Cintra, Ulalume González de León, Ana Hatherly, Luiza Neto Jorge, Veronika Zondek, Maria Velho da Costa, Paul Celan, Melville e Alejandra Pizarnik. O ponto de partida é a fragilidade que se inscreve no poema da página 19: «Sou pela manhã, uma criatura tão frágil, tão trémula que só medicamentos, café de balde e dois cigarros me ajudam a suspirar o dia que aí vem.» Perante a fragilidade da vida só o amor pode ser resposta: «O amor é que transforma o Mundo. O Amor é que expande o Universo. Precisamos de amor-mesmo. E de sexo também.» A Poesia pode ser (e é) o Amor: «Parecendo que não, os artistas, os escritores, os poetas, mesmo os mortos, estão muito vivos.» O poema é uma teimosa afirmação, uma dupla negação da morte. Primeiro: «Não vou morrer ainda. Vou pôr as minhas mãos em tudo o que puder. Vou abraçar os meus amigos. Vou namorar. Vou seduzir. Vou ler. Vou abraçar a minha filha com todas as forças e vou dar todo o amor que conheço.» Segundo: «Não quero deixar os meus poemas. / Não quero deixar os meus livros. / Não quero deixar a minha tentativa de palco. / Não quero deixar de beber café e fumar de manhã. / Eu sou isso tudo e mais os meus outros sonhos.». Também na despedida há uma dupla inscrição; terra e mar. Na página 21 «Porque quando desaparecer, quero deixar um grão na terra. Só um.» Na página 20 «E quando desaparecer, gostava de levar tudo comigo no mar. É que eu sou da água. Todos sabem disso.» (Edição: Palavras por Dentro, Ilustração: Manuel Cintra, Logotipo: Bruno Broa, Impressão: Artes Gráficas de Lisboa, Arte Final: Vítor Silva) --

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por José do Carmo Francisco às 13:33

Terça-feira, 19.04.16

«livro (s) do desassossego» de fernando pessoa

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Esta edição de Teresa Rita Lopes vem (mesmo) inovar o «Mundo Pessoano» pois prova que aquilo a que sempre se chamou «Livro do Desassossego» são, afinal, três livros com três autores: Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. O primeiro livro data de 1915 a 1920, o segundo é de 1928 e o terceiro de 1929. O livro de Vicente Guedes (164 páginas) começa por se definir («Este livro é a biografia de alguém que nunca teve vida»), por se explicar melhor («Este livro não é dele: é ele») e por concluir: «Para Vicente Guedes ter consciência de si foi uma arte e uma moral; sonhar foi uma religião». O que está em causa na página 91 é a sua vida: «A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro acto se representou.» Na página 42 surge uma variante: «A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos deuses, de que só primeiro acto se representou». Trata-se aqui do intervalo entre o silêncio e a glória: «A celebridade é uma indelicadeza. Dar nas vistas é ser desprezível. O homem realmente superior existe todo na consciência da sua superioridade, sem que precise de comprar tabuleta, sem atenção à superioridade que os outros possam ver nele.» O livro do Barão de Teive ocupa 34 páginas e as suas reflexões oscilam entre a ideia de agir ou de não agir: «O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender.» Mas também oscila entre a justiça e a certeza: «Quantas coisas que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo?» O terceiro livro tem 230 páginas (Bernardo Soares é Fernando Pessoa escrito de outra maneira) e reflecte sobre a Arte na Rua dos Douradores: «O patrão Vasques é a Vida. E se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a Vida, este meu segundo andar onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente». Surge no livro uma aguda noção da posteridade («Um dia terei enfim a gente que me compreenda, os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado.») e também de futuro: «Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever nato de intérprete de uma parte de um século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido.» (Editora: Global São Paulo Brasil, Capa: Homem de Melo & Troia Design, Revisão: Deborah Stafussi, Edição executiva: Jiro Takahashi, Direcção editorial: Jefferson Alves) --

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por José do Carmo Francisco às 13:12

Domingo, 17.04.16

uma história que vai acabar em vila franca de xira

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O livro antigo que está à minha frente é uma edição de 1945 (a Editora Romano Torres já não existe) e o seu autor é Rafael Ferreira. O título é «Nos bastidores do jornalismo». Nascido em 1865, o autor andou entre 1897 e 1900, a trabalhar em dois jornais ao mesmo tempo «comendo a desoras e dormindo pouco». Neles foi, em sucessivas situações, empregado da administração, revisor, redactor, repórter e, por fim, crítico teatral e tauromáquico. Ele precisava de trabalhar muito para conseguir o ordenado de que necessitava. E conclui: «Era assim nesse tempo e ainda hoje é para alguns a vida de jornalista». Desde pequeno habituou-se Rafael Ferreira a ir com o pai e com o tio à praça de touros do Campo de Santana onde apanhou alguns sustos quando o touro saltava às bancadas que ainda não eram defendidas por arames. Vamos à história: «Fui sempre grande amador de touradas e indo assistir a uma em Vila Franca, por ocasião da grande feira, como a concorrência de forasteiros fosse enorme, eu e o José Pinto de Campos estivemos em risco de não ter uma cama para dormir na véspera da corrida. Quando falávamos sobre o caso, alguém atrás de nós exclamou: «A minha casa está às ordens». Voltámo-nos. Era um campino quem assim nos falava e que nunca mais nos largou. Na sua casa, modesta mas muito limpa, apresentou-nos a sua mulher e a suas filhas. Escolheu o seu melhor quarto para nós e, quando na manhã seguinte o quisemos remunerar pela sua amável hospedagem, não só ele como a sua família se mostraram ofendidos com a nossa lembrança. Recusaram-se obstinadamente a receber qualquer oferta. Era gente do Ribatejo! E por baixo do colete vermelho daquele campino havia um coração de fidalgo.» O livro é de 1945 mas a lição e a moral da história são de todos os tempos e de todos os anos. --

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por José do Carmo Francisco às 14:59

Quinta-feira, 14.04.16

a gramática do som dos sinos da igreja da minha aldeia

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O desafio para escrever esta crónica tem uma origem inesperada: o poeta e antropólogo Luís Filipe Maçarico telefonou-me a sugerir a escrita das minhas memórias de hoje para o som dos sinos de Santa Catarina - a minha aldeia. Logo hoje que isso me lembra ainda mais por causa dos sinais dobrados no funeral da minha mãe. Passaram vinte e um anos mas é sempre como se tivesse sido agora mesmo. Nestas coisas do sentimento não há datas; apenas memórias. Mas eu ainda lhe tentei lembrar os outros toques dos sinos da minha aldeia como por exemplo os repiques dos baptizados, os repiques dos casamentos ou o alegre som das procissões quando um foguete dava o sinal do arranque. Ainda hoje me faz alguma confusão como é que o som de cima (os sinos) não perturbava nem interferia no som de baixo (a filarmónica) com os seus metais, as suas madeiras e a sua pancadaria. Havia um reportório de marchas graves. Alinhados no azul das fardas, os músicos formavam logo atrás do pálio e à frente do povo. Temos na igreja da nossa terra uma santa padroeira (Santa Catarina de Alexandria) cuja festa em Novembro constitui um desafio para qualquer filarmónica. Às vezes chove, muitas vezes chove e não é possível realizar a procissão. Mas isso era eu a lembrar a alegria porque a dor maior da morte de quem nos deu a vida teve para mim no dia 14-4-1995 uma dupla inscrição: na gramática dos sinos e na biografia particular. Os sinais dobrados são um som que arrepia porque entra no cérebro a martelar uma a uma essas notas da música mais triste numa pauta invisível mas real. Como se toda essa tristeza dos sinos da minha aldeia fosse o tempo e o lugar da música que nasce e não morre nunca no coração de todos nós. Nota final – a fotografia é de Valer Vinagre e espero ter ficado na prosa à altura do seu trabalho na imagem. --

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por José do Carmo Francisco às 18:11

Quinta-feira, 14.04.16

cristiano ronaldo e as imagens que não se podem apagar

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Esta vitória sobre o Wolfsburg por 3-0 com três golos por si (Cristiano Ronaldo) assinados, dando a vitória e a reviravolta para o Real Madrid depois de uma derrota injusta por 0-2 na Alemanha, lembrou-me a primeira vez que o vi ainda no velho Lar do Jogador por baixo das bancadas do estádio José Alvalade. Terá sido em Fevereiro ou Março de 1997 quando lá entrei uma noite para entrevistar Leonel Pontes e Paulo Cardoso. A reportagem com os dois responsáveis pelo Lar do Jogador foi publicada no então existente jornal «Sporting». Nesse tempo soube que o elemento-chave para a vinda do jovem jogador foi o Dr. Marques de Freitas, um grande sportinguista da Madeira. Soube também da influência de Isabel Trigo de Mira para que a Direcção «leonina» (José Roquete e Simões de Almeida) adquirisse frigoríficos onde se guardavam os iogurtes, o queijo e o fiambre para as sandes nocturnas de quem estava a crescer. Mais tarde lembro-me de uma longa conversa com Cristiano Ronaldo no campo do União de Coimbra, mesmo ao lado da linha do comboio que já não existe. Era um campo pelado, uma entorse no tornozelo e um saco plástico com gelo. Mais tarde num Domingo de manhã em Pina Manique, com chuva, frio e nevoeiro ao mesmo tempo, um árbitro sensível e perspicaz (António Cardoso, salvo erro) suspendeu o jogo de Iniciados Casa Pia-Sporting porque aquele jogador não estava nada bem. O enfermeiro Fontinha atalhou logo o problema com uma injecção mas a taquicardia grave só se resolveu com uma intervenção cirúrgica na Clínica de Santa Cruz em Linda-a-Velha. Foi em 1999 mas parece que foi ontem. Ontem foi aquele brilharete a dar a volta ao resultado negativo que vinha da Alemanha. Os factos são recentes mas as imagens são antigas e não se podem apagar. --

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por José do Carmo Francisco às 09:09

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