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Transporte Sentimental



Sábado, 26.03.16

«A luz de Lisboa» numa magnífica foto de Artur Pastor

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Nota prévia – No Torreão Poente do Terreiro do Paço tem estado patente uma exposição com imagens e palavras sobre Lisboa. Um verso de Fernando Assis Pacheco dá o tom ao conjunto: «Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa». A não perder porque vale mesmo a pena a deslocação a quem vai de propósito ou a paragem a quem anda por ali. Em 1966 já esta fotografia tinha 16 anos mas o Cais das Colunas era o mesmo na maré alta que eu recordo hoje das nossas voltas da Rua do Ouro nº 110. «Vamos dar a volta ao carro» dizia o grupo a sorrir mas não era verdade: íamos a pé a tagarelar sobre a vida que estava pela hora da morte. Todos nós tínhamos alguém na guerra mas não se podia dizer porque oficialmente se tratava de acções de pacificação. O grupo era informal, não pagava quotas de militância e pontualidade mas eu que era muito jovem estava ali mais para ouvir porque pouco ou quase nada tinha para dizer além do medo. Muitas vezes era eu que ia buscar os câmbios ao Banco de Portugal na Rua do Comércio. Era tudo muito lento: os câmbios para os bancos e para os clientes eram fixados pelo Banco Central e entregues a um representante de cada Banco ainda a cheirar a stencil como os pontos escritos nas Escolas e Liceus. Em 1966 havia estes pescadores todos e os mirones que às vezes eram repreendidos por alguém mais solene e orgulhoso: «Quem está de fora não racha lenha!» O Tejo é o mesmo de 1966 e de hoje mas as fragatas foram levadas pela Ponte Salazar (hoje 25 de Abril) a partir da sua inauguração em 1966, faz agora 50 anos. Mas o Tejo de 2016 não é igual ao Tejo de 1966 porque em Espanha páram, desviam e levam a maior parte da água para a Andaluzia. Se não fosse o Zêzere, o Tejo seria hoje um resíduo do que em tempos foi um rio. --

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por José do Carmo Francisco às 21:17

Sexta-feira, 25.03.16

de caló a murillo lopes ou quando um azar nunca vem só

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Ainda e sempre, para mim o jornalismo é literatura e a literatura é artesanato. Nunca foi nem será indústria. Ainda sou dos que escreve à mão e usa uma régua para avançar nas linhas dos apontamentos quando os passo a limpo para o computador. Vamos aos factos. Fui convidado em 4-5-2015 pela Editora Gato do Bosque para trabalhar num livro sobre Vítor Damas. O projecto era simples, na aparência: juntar alguns entrevistas, a de Murillo Lopes (n. 1944), falhei porque não a passei para o livro. Erro crasso e sem desculpa. Não sei explicar como é que as 25 linhas de apontamentos são saíram do caderno respectivo e saltaram para o «Word» e, por sua vez, para a arte final do livro «Vítor Damas – A baliza de prata». Também não sei explicar como, nas sucessivas revisões, não fui capaz de descobrir a minha falha. Estou desolado com o meu erro que é meu e só meu. Murillo Lopes que me perdoe. Tudo aconteceu numa sucessão de erros em cadeia. Quanto a Francisco Caló (n.1944) só agora, já o livro estava impresso, descobri o seu contacto e o escritório onde trabalha mas, apesar de tudo isso, o seu nome aparece sete vezes neste livro, nas páginas 26 (2 vezes), 27, 210, 213, 215 e 216. Nem o facto de ter trabalhado como repórter no Jornal «Sporting» entre 1988 e 2006 me levou textos dispersos e ouvir algumas pessoas. Metade era um trabalho de arquivo, a outra metade era uma reportagem. Neste momento em que o livro saiu da Gráfica Simões & Gaspar Lda mas ainda não foi apresentado ao público, percebo que falhei uma das a ter os contactos do popular Caló. Nunca calhou mas calha agora. Para já temos João Barnabé e Luís Alberto Ferreira a lembrarem Caló a propósito de Vítor Damas. Com Caló foram as circunstâncias, com Murillo Lopes foi um erro crasso que me tem tirado o sono há dois dias. --

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por José do Carmo Francisco às 10:31

Quarta-feira, 23.03.16

da antiga morna «mar eterno» à moderna voz de santos cabral

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Sou apaixonado pela arte da rua, a mais efémera porque desaparece com a noite ou com um aguaceiro. No relógio da vida as horas da tarde são mais rápidas do que as da manhã. Gosto da arte da rua, gosto muito da vida. Parece um lugar-comum mas «Apostar na vida é teimar no que os filósofos antigos julgavam perdido: o amor é frágil mas a vida é o amor em movimento.» A primeira vez que ouvi som de Cabo Verde foi na morna «Mar eterno», um «disco pedido» no «programa dos doentinhos» dos Emissores Associados de Lisboa - «serviço seis, sala dois, cama quatro». Mais tarde li poemas de Jorge Barbosa no livro de leituras do Ciclo Preparatório e no Curso Geral do Comércio tive como professor de Noções de Comércio, Direito Comercial e Economia Política um homem de Cabo Verde – Terêncio Anahory. A sua alcunha era «Tofa»: nesse tempo apareceu uma marca de cafés e a cor da sua pele era quase igual. Detestava a alcunha e dizia: «Gostava de saber quem foi o minino que me pôs a alcunha de Tofa». Quando os jovens procuravam dar a volta às suas perguntas atalhava logo: «Tão pequenino e já é um inventor». Tinha um lema: «Viver é escolher: a felicidade não está em viver mas sim em saber viver» Dito de outra maneira: «A alegria da vida está em saber evitar as suas comédias e as suas tragédias.» O grupo «Guents dy rincon» está a tocar em S. Pedro de Alcântara. Santos Cabral é a voz e o autor de algumas melodias. Usa sapatos de malandro, sapatos que em Luanda levavam muitos pais a proibir namoros às filhas. De malandro a chulo ia um passo, o pai desconfia de quem não trabalha mas come todos os dias. Hoje ouvi o grupo; o som ainda é este e a voz de Santos Cabral (rouca, tensa e pesada) parece nascer de uma lágrima ou de uma oração. Afinal duas maneiras de ligar de novo tudo o que a morte separou. --

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por José do Carmo Francisco às 12:16

Domingo, 20.03.16

para gonçalo pereira - crónica de rubem braga sobre os mortos de manaus em 1940

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Em Setembro de 1940 Rubem Braga recebe na sua banca de trabalho o «Boletim Estatístico do Amazonas» e os mortos de Manaus, as 428 pessoas que morreram em Manaus no primeiro trimestre de 1940, entram de imediato na sua raiva e na sua crónica: há 73 que perdem a vida por diarreia e enterite. São crianças. O cronista afirma: «Morrem muitas crianças dessas coisas de intestinos no Brasil. Dizem os médicos que é por causa da alimentação pouca ou errada, pobreza ou ignorância das mães. Eis uma coisa que não chega a me dar pena porque me irrita: o número de crianças que morre no Brasil». A citação é do livro «Os trovões de antigamente», uma edição portuguesa dos «Livros do Brasil» com prefácio de Baptista-Bastos. Tudo isto que é doloroso me veio à memória quando ouvi algum do lixo humano das manifestações do Brasil a dizer algo como: «O pobre só sabe é fazer filhos para receber prestação social do Estado». Essas pacalaias e esses vacões que ululam em 2016 nas ruas fazem-me recordar as figuras de Carlos Lacerda e de Adhemar de Barros que em 1964 também pediram a ditadura militar mas viram os seus direitos cassados. Houve jornais que no dia 2-4-1964 colocaram na primeira página esta mentira: «Ressurge a democracia». Nada mais falso. A ditadura durou até 1985 já os mortos de Manaus teriam 45 anos se nessa altura fossem vivos. Mas não eram. Hoje em 2016 há quem queira voltar a 1964 e peça o golpe militar. Se vier esse golpe não pode esquecer o trabalho de sapa dos magistrados. Nós em Portugal também tivemos um Gomes Freire de Andrade e os outros mártires da Pátria. O seu nome está no antigo Campo de Santana. Do desembargador que lhe armou a cilada jurídica já nem o nome permanece. --

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por José do Carmo Francisco às 10:04

Quarta-feira, 16.03.16

«vamos adivinhar?» de soledade martinho costa

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As profissões, os animais e os frutos são o foco deste recente livro infanto-juvenil de Soledade Martinho Costa, autora de poemas, teatro, canções e mais de três dezenas de títulos originais destinados à infância. No campo do ensaio publicou «Inquérito ao Livro Infantil» (Secretaria de Estado da Cultura) e «Festas e Tradições Portuguesas» (Círculo de Leitores). Neste livro de 73 adivinhas com ilustrações divertidas mas não identificadas, registamos três exemplos de adivinhas. Primeiro o carteiro entre 28 profissões: «Notícia boa ou ruim / Mandada de longe ou perto / É ele que a traz para mim / Colocando-a em lugar certo. / O pior é se a morada / Vem errada e não condiz / Nesse caso há trapalhada / E logo aí ele diz: / - O endereço e o remetente / São coisas fundamentais / Devem vir correctamente / Nas cartas e nos postais.» A seguir o leão entre 28 animais: «Come carne e come bem / Seja ao almoço ou à ceia / Mas não ataca ninguém / Se tem a barriga cheia. /Ágil, possante, perigoso / Bichos incautos engana / No seu andar vagaroso / Passeia pela savana. / Gosta de dormir a sesta / E pouco liga ao demais / Sem ter coroa sobre a testa / É o rei dos animais.» Por fim a cereja entre 17 frutos: «São irmãzinhas unidas / às vezes a dar a mão / De vermelho andam vestidas / Umas de vivo, outras não./ Com estes frutos formosos / Fazem brincos as meninas / Quais rubis maravilhosos / Nas orelhas pequeninas./ Costuma o povo dizer / Que as palavras são parecidas/ Quando se põe a comer / Destas bagas coloridas.» (Porto Editora) --

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por José do Carmo Francisco às 08:50

Terça-feira, 15.03.16

mensagem a ivo geraldes («diário de notícias») com repúdio e sugestões

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A entrevista no passado dia 13-3-2016 com Pedro Guerra veio colocar o seu autor no mesmo plano dos zarolhos que aparecem a comentar futebol nas televisões. Porque não foi uma entrevista; foi uma reverência, uma passadeira vermelha, um frete. Ao colocarem essa entrevista numa página do «Diário de Notícias» o resultado foi o aumentar do coro que tenta disfarçar o que é importante e dá relevo ao barulho para distrair os incautos. A agressão violenta de um jogador do SLB a um jogador do SCP foi sancionada pelo árbitro com um cartão vermelho mas a um jogador do SCP. Ora o último árbitro a marcar uma grande penalidade contra o SLB acabou por ser despromovido. Entretanto um responsável do futebol juvenil do SLB afirmou em A BOLA de 22-4-1995 algo como isto: «Quando saí deixei uma gaveta cheia, um verdadeiro dossier com bilhetes de identidade, passaportes, cédulas e certidões de nascimento falsificadas». Foi muito mau o que fizeram no «Diário de Notícias» mas termino com algumas sugestões a Ivo Geraldes. Leia Rubem Braga («Os trovões de antigamente») ou Maria Ondina Braga («Eu vim para ver a Terra») que são excelentes cronistas e escrevem num português de lei. Sugiro que faça entrevistas por exemplo a três autores, dois escritores e um músico. Joel Neto (autor de «Todos nascemos benfiquistas») vive na Ilha Terceira mas vem a Lisboa com frequência, Rafael Carvalho é autor do CD «Origens» e toma parte no Festival Bons Sons em Cem Soldos (Tomar) e Nuno Costa Santos acaba de publicar «Céu nublado com boas abertas», um excelente romance. Outra coisa: vá aos Hospitais, ande de autocarro e de Metro, entre nas prisões, vá aos cemitérios, aos centros comerciais, ande na rua a ouvir as pessoas mas pessoas mesmo. Não gente amestrada, dócil e atenta apenas à voz do dono. --

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por José do Carmo Francisco às 17:24

Terça-feira, 15.03.16

«ritual, natura e magia» de aurélio lopes

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O subtítulo do livro («Sentidos e saberes nas terapias tradicionais portuguesas»)aponta para a «medicina popular» que está mais perto de nós do que parece: basta sair de uma estação do Metropolitano de Lisboa e receber o panfleto de um qualquer «vidente, espiritualista, adivinho ou cientista» a prometer a solução para problemas de «amarração, casamento, família, amor, negócios, sucesso, vícios, doenças espirituais, inveja, mau-olhado e impotência sexual». Aurélio Lopes (n.1954) explica na nota introdutória que este trabalho de 273 páginas não faz a «história da medicina popular» embora procure «uma análise comparativa das lógicas da medicina sistematológica e do curandeirismo popular bem como das atitudes dos doentes face a cada uma das opções terapêuticas.» Há neste livro um completo inventário de duas medicinas que correspondem a dois Mundos paralelos: a oficial que é urbana e científica e a popular que é rural e naturalista. O desdém da primeira pelas crendices e superstições da segunda, não altera em nada a realidade que é vária e múltipla e não simples nem simplista. O Mundo é, como o autor refere na página 13, «feito de perigos, conhecidos e desconhecidos; esperados e inesperados; naturais e sobrenaturais, onde avultam personagens maléficas diversas e mais ou menos integráveis no bestiário cristão: o Demónio, principalmente! Entidade negativa, príncipe do mal, que atormenta os justos e ilude os ingénuos; apesar de a sabedoria popular dizer que «não pode estar sempre atrás da porta», acaba por ver-lhe imputados, de uma maneira ou de outra, os azares da vida.» Entre o Homem e o Mundo surge a terapia: «se, para o homem tradicional, o mundo era composto de uma infinita e multifacetada profusão de perigos não admira que a multiplicidade de práticas terapêuticas apenas tivesse limite nos incomensuráveis limites da imaginação humana e o mesmo lançasse mão a todos e mais alguns mecanismos operativos: fórmulas e rituais mágicos, esconjuros e exorcismos, acções físicas, anatómicas e alimentares, apelos e encomendações religiosas ou dirigidas às potências cósmicas e naturais mais ou menos divinizadas.» Com estas duas citações fica uma ideia do vasto alcance deste trabalho dum autor que já acompanha esta área do conhecimento desde 1995 com «Religião Popular no Ribatejo». (Editora: Apenas Livros, Capa/Paginação: Jorge Belo, Revisão: Luís Filipe Coelho, Desenho de capa: Carlos Augusto Ribeiro, Patrocínio: IELT) --

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por José do Carmo Francisco às 13:02

Segunda-feira, 14.03.16

carta ao coração do poeta josé falcão tavares

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Em Abrantes José Falcão Tavares, o poeta de «Cartas ao coração de Lisboa» (edição O MIRANTE) é conhecido em termos públicos pela sua actividade clínica. É o doutor Tavares. Na semana desportiva em que o importante foi a agressão violenta de um jogador do SLB a um jogador do SCP e o cartão vermelho a um jogador dos «leões», apareceu no Facebook uma atleta do SCP que comemorou uma vitória numa prova de atletismo antes de a mesma se ter concluído. Para ajudar à festa o «Diário de Notícias» de 13-3-2016 ocupa uma página com um senhor cujo maior sonho é ser funcionário do SLB e considera «Bruno de Carvalho um pirómano do futebol português». Ao mesmo tempo foram distribuídos pasquins anónimos com o mesmo sentido. Ou seja, dizer mal do presidente da Direcção do SCP e evitar que se fale da agressão violenta de um jogador do SLB a um jogador do SCP cujo resultado foi a expulsão de um jogador «leonino». Penso que tanto o poeta José Falcão Tavares como o médico doutor Tavares (ambos os dois como diz LFV) perceberão a guerra psicológica que existe neste momento: tanto os pasquins como a entrevista ao «Diário de Notícias» tentam desviar as atenções do essencial. O presidente da Direcção do SCP ganhou as eleições e só os sócios o podem retirar. Mais ninguém. Nem o rapaz das Galinheiras, nem o árbitro, nem os autores dos pasquins anónimos, nem o comentador televisivo. O importante é que o SLB foi fundado em 1908, as Ligas não são campeonatos e o presidente do SLB é que disse «a boca morre pelo peixe» na Rádio Renascença em 6-10-2009 ou «A minha alcunha nos pneus era o Kadhafi» ao Expresso de 29-3-002. Na mesma entrevista ao Expresso fala de José Veiga e diz «comigo ou sem migo» mas isso tal como a promessa de 300 mil sócios em 2005 não é para tomar a sério. --

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por José do Carmo Francisco às 09:04

Sexta-feira, 11.03.16

vila franca de xira em 1963 - a minha turma

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É debaixo de uma estranha comoção que descubro esta fotografia da 1963 da minha turma em Vila Franca de Xira, na Escola Técnica. Dou de caras com o sorrido de alguém que já não está entre nós: o Horácio José Cecílio Rufino. Eu, que estou a seu lado porque éramos mesmo amigos, sou apenas o repórter em 2016 de um sentimento de perda. Perdemos o Horácio, todos nós. Que me desculpem todos os outros. Que me desculpe o Bento, o Armando Jorge, o Mário Rui e o Lilaia na primeira fila. Que me desculpe o Novo, o Fernando, o Narciso, o Cardoso, os dois Dias na segunda fila. Que me desculpe o Fumaças, o Vidaúl e o Zé Afonso na terceira fila. Que me possam perdoar todos aqueles cujo nome já não consigo recordar, já lá vão cinquenta e três anos, é complicado. Que me perdoe a professora tão simpática mas cujo nome não consigo recordar hoje. Agora só me lembro do Horácio, da vida complicada do Horácio que tinha presos em Caxias e veio para Vila Franca de Xira para poder apanhar o comboio até Santa Apolónia e, depois de se cansar numa caminhada até ao Cais do Sodré, apanhar o chamado comboio de Cascais até Caxias. Se tivesse continuado a viver em Coruche tal não seria possível pois não havia ligações de camioneta que permitissem a visita dominical. Nesse tempo havia sempre casas para arrendar e Caxias ficava mais perto de Vila Franca de Xira, dele e da sua família. Lembro-me de todos, recordo os nomes de alguns mas lembro-me mais do Horácio, hoje que descobri esta fotografia de 1963 quando eu ia do Bairro do Bom Retiro a pé pois claro e passava todos os dias à porta do lagar de azeite do avô do Álvaro Pato. Ele não está aqui porque foi para o curso formação de serralheiro na parte da Indústria. Eu era do Comércio, como ainda hoje sou, mais voltado para estas coisas de Inventários e Balanços. --

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por José do Carmo Francisco às 21:14

Terça-feira, 08.03.16

«poemas de ironia e má-língua» de cristino cortes

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Cristino Cortes (n.1953) estreou-se em livro no ano de 1985 («Ciclo do amanhecer») e retoma neste seu recente trabalho a linha do anterior - «EIA Evidências, Inscrições, Aforismos» de 2013. Neste caso surge um conjunto de «Observações, Imaginações, Teorias e Homenagens» em 49 poemas de respiração diversa, ora breve ora extensa. A ironia está sempre presente seja na fala de Penélope a Ulisses («Fui-te fiel, sim /Oh Ulisses bem amado! / Mas pouco mérito há nessa minha constância/ Foi a majestade de rainha que me salvou/ E o respeito pela tua posição / Dos homens que me rondavam as saias») seja um poema sobre o quotidiano: «Salvou-me o dia, sem saber, a rapariga que a meu lado /Há pouco almoçou». Um ponto curioso é que a ironia do autor incide também sobre o ofício da Poesia; seja a referência Florbela Espanca («Os deuses sabem sempre o que fazem. E raramente acerta / Quem confunde a poesia com espanejar o coração…») seja a Fernando Pessoa: «Desse espaço, tal qual, pouco existe e apenas a memória /De alguns bem velhos lembra ainda ter sido aqui que a luz /Deslumbrou o poeta. Pouco importa. Cada um com a sua cruz / Em algum sítio começa; vale é a futura história.» Entre o pó e a posteridade, o poeta trabalha com as palavras, seu ofício e sua única escolha: «São doces mas também há as que sabem a sal. / Algumas espanejam suas asas sobre portas cinzentas / Atravessam as grades dos pátios, rebentam de cólera / Jogam ao pombo selvagem, alojam-se ao lado do coração». Uma última nota para o título que evoca e invoca o Manifesto Anti-Dantas (Júlio Dantas 1876-1962) de José de Almada Negreiros (1893-1970) e testemunha o desejo de uma geração que acaba de chegar à ribalta da Cultura de atirar pela borda fora a geração que já lá estava. E como ninguém quer sair do pequeno pedestal só mesmo de empurrão. Ou de Manifesto. (Editora: Calçada das Letras, Prefácio: Annabela Rita, Capa: Henrique Ribeiro) --

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por José do Carmo Francisco às 19:31

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