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Transporte Sentimental



Domingo, 28.02.16

peqeuna canção para um menino na ilha verde

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O teu nome lembra-me os caminhos de Santiago de Compostela na Galiza e o santo apóstolo a quem o próprio Jesus Cristo chamava «o filho do trovão». Na verdade esse Tiago (ao tempo dito «o Maior») tinha um temperamento arrebatado, terá trabalhado muito na evangelização dos Povos da Península Ibérica e tem hoje a sua sepultura na Catedral de Santiago de Compostela. Todos os caminhos lá vão dar. São os caminhos de Santiago e quem os percorre sente-se diferente. Por fim, depois determinada a peregrinação, afirma que fica mais limpo, mais lúcido e mais apaziguado com a vida e com os seus mistérios. O teu olhar lembra-me as cores e a geografia das famosas sete cidades da lenda pois nele cabe todo o mundo que procuras descobrir mesmo sem fazer ainda grandes interrogações. Os teus campos visuais cruzam ao mesmo tempo a terra e a água, o próximo e o distante, o pouco e o muito. Porque o teu mundo é ainda relativo, pequeno e precário; tem mais instinto do que conhecimento, mais ternura do que diálogo, mais amor que palavras de amor. A tua voz sobre do chão da casa e procura as distâncias, os caminhos e os miradouros onde a terra se junta ao mar, onde as pedras são vizinhas da água. Por isso a tua voz não é ainda canção mas um esboço de melodia, de harmonia, de contraponto. Rompe do mais escuro da noite e dos sonhos e avança por etapas vagarosas até ao palco do dia onde a atenção é maior. Junto o teu nome, o teu olhar e a tua voz para fazer a topografia de um espaço feliz à tua volta. Virá o tempo em que poderás julgar os tempos que te foram dados para viver sabendo que todos à tua volta apostam na tua lucidez, na tua esperança e no teu sentido de justiça. A vida é e será sempre um mistério. A tua será essa procura de sentido para o amor que te rodeia. --

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por José do Carmo Francisco às 21:17

Domingo, 28.02.16

gonçalo pereira, «o pão que o diabo amassou» e a fotografia de 1929

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O Gonçalo também sabe: agora com a chegada dos 65 anos, além de ter mudado o passe da Carris e do Metro, continuo a viver a vida como um mistério (não um negócio) mas tudo se apresenta menos confuso e mais claro. Deu-me hoje para ler o «Diário de um jornalista 1926-1930» de Maurício de Oliveira e na página 38 lá aparece uma advertência de Teixeira Gomes, escritor e presidente da República em 25-5-1925 ao então muito jovem (15 anos) candidato a jornalista: «Mas de que pensa, então viver? Olhe que neste país não vive quem quiser viver da pena…» Mais tarde Vitorino Nemésio escreveria em 1928 («Uma hora de jornalismo») uma possível definição deste ofício («ser jornalista é andar à roda do mundo num só pé») que completa noutra frase sobre o universo dos jornais que ele conheceu tão bem: «Há ali miséria, efemeridade, glória e o pão que pão Diabo amassou.» Esta doença chamou-lhe Vitorino Nemésio «jornalite aguda» no sentido de «doença dos jornais» quando ainda criança enviou para o jornal «A União» de Angra do Heroísmo umas «Notícias da Praia» (Praia da Vitória, como é óbvio) e estas foram publicadas alguns dias depois de enviadas com a cumplicidade da mãe. Recebido o jornal com essa primeira colaboração, escondeu as folhas na blusa em cima do coração e foi mostrar à mãe discreta mas orgulhosa esse primeiro troféu de plumitivo. Estava vacinado para toda a vida… Tudo isto tem a ver com a fotografia de 1929 no «Diário de Lisboa». Pode parecer algo pomposo e até pretensioso da minha parte mas são estes os meus antepassados ilustres; nascido em 1951 só tive carteira profissional em 1997 embora já colaborasse nos jornais desde 1978. O ano em que morreu Vitorino Nemésio (1901-1978) mas isso já é outra história. Ou outra crónica porque o tema não se esgota. --

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por José do Carmo Francisco às 14:44

Sábado, 27.02.16

«as mulheres nas crises académicas durante a ditadura» de teresa sales

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Este livro é muito mais do que um livro porque não se limita a juntar sete depoimentos de sete mulheres sobre as lutas estudantis dos anos 60 em Lisboa e em Coimbra: Maria Emília Brederode, Maria Augusta Seixas, Clara Queiroz, Diana Andringa, Etelvina de Sá, Manuela Góis e Manuela Tavares. O livro inclui um «CD» com som do Dia da Universidade em 1965, alguns anexos com jornais do tempo (1962), uma lista de estudantes presos e de professores expulsos, o «Jornal Anti Colonial» de Dezembro de 1964, a carta de Manuel de Azevedo ao Ministro do Interior em 7-12-64 sobre a filha Gina sem esquecer os textos de Herberto Helder e Almeida Faria, fotografias diversas, um «pin» de 1962, desenhos e um poema de Alexandre O´Neill que conclui deste modo: «Assim sim, virgem sensatas/ (Nos telhados só as gatas…) / Pensai antes na mobília / honestas mães de família / e aceitai respeitos mil / do vosso / Alexandre O´Neill!» Para os jovens de hoje esse tempo (os anos 60) parece ser tempo de outro planeta: «Muitas vezes, quando oiço os meus pais não consigo sequer imaginar o que foi viver nesse mundo em que vocês viveram. É como se me falassem de outro planeta.» Na página 21 Maria Augusta Seixas recorda esse isolamento («Vivíamos num rectângulo fechado ao mundo») e refere a situação das mulheres: «As mulheres não eram nada naquela altura; precisavam da assinatura do marido para tudo. Para sair do país precisávamos de autorização do homem.» Um aspecto curioso é que, mesmo com muito dirigentes presos, nos anos de 1963, 1964 e 1965 as Associações de Estudantes não suspenderam a sua rotina: «as vacinas, as sebentas, os descontos em comércio aderente para os sócios, o cineclube, o teatro, as actividades desportivas, as actividades culturais». Assim a Mocidade Portuguesa era neutralizada. Algumas gralhas não alteram em nada o interesse e a oportunidade deste livro. A pintura de Bertina Lopes está na página 36 mas surge de novo na 113; o seu perfil biográfico é bem 1924-2012 e não 1924-1912. Outras notas: na página 15 falta itálico no título dos jornais, na página 25 Universitária leva caixa alta, página 27 Anti-Düring e Joie de Lire levam itálico, página 28 é bem «as» e não «As», página 44 é bem senhora e não sra, na página 45 é Santiago Prezado e não Pregado além de AJHLP levar caixa alta, página 47 Mensagem leva itálico e votos será de presbítero, página 51 teenager leva itálico e linha 13 tem uma vírgula a mais, página 53 highjacking tem itálico, página 59 falta itálico a O Capital e a Manifesto Comunista, página 80 é bem hippie por hippy, página 81 Faculdade é caixa alta, página 83 Silva é caixa alta, página 111 O Século leva itálico. (Edição: UMAR, Foto capa: Graça Cabeçadas, Concepção gráfica: Manuel Diogo) --

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por José do Carmo Francisco às 21:37

Sexta-feira, 26.02.16

em 1669 santarém era já «uma vila muito antiga»

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Quando príncipe Cosme III de Médicis chegou a Santarém em 19 de Fevereiro de 1669 (curioso, fez agora 347 anos…) o seu cronista Magalotti registou: «As marés de águas vivas quase chegam aqui mas muito mais longe vão os barcos à vela que se ocupam no transporte de coisas necessárias à vida comercial dos lugares circunvizinhos. A situação de Santarém é no cimo de uma colina moldada pela Natureza de tal modo que todas as habitações ficam em terreno plano exceptuando um burgo bastante grande que fica na encosta logo acima das águas do Tejo». O mais insólito é que Baldi (o pintor) não integra imagens do Rio Tejo nos três desenhos do livro organizado por Jorge Estrela e publicado pela Fundação Mário Soares (Lisboa) e pelo Centro Cultural João Soares (Leiria). O cronista Magalotti refere Santarém nestes termos: «Santarém é uma vila muito antiga com 4.000 fogos, cabeça de comarca e que nas Cortes tem assento no primeiro banco, que é o que mais perto fica da pessoa do Rei, na mesma fila que Lisboa, Évora, Porto e Coimbra. É famosa em Portugal pela multiplicidade de milagres que se vangloriam de lá terem acontecido. Antes da aclamação viviam aqui muitas famílias da Nobreza, chegando a contar-se na vila 30 carruagens. Actualmente a Corte fez aí o que fez noutros lugares vizinhos de Lisboa, esvaziando-os de Nobreza. Só restam duas famílias, uma originária da Terra, outra que lá permanece para estar próxima dos bens que lhe pertencem. É chefe da primeira Manuel Saldanha, de 35 anos. Gasta muito em livros dos quais é muito curioso consistindo o forte da sua erudição em Letras Humanas. O outro é o Conde de Unhão. As suas casas são muito bonitas, as melhores do sítio e de muito boa construção.» A viagem do príncipe Cosme III de Médicis continua mas as crónicas sobre ele acabam aqui. --

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por José do Carmo Francisco às 14:21

Quarta-feira, 24.02.16

da lisboa de oleg basyuk a uma certa memória do tempo

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A juventude foi, é e sempre será um mistério. Ainda bem. Se fosse um negócio perdia todo o encanto. Há 65 anos eu nascia em Santa Catarina (Caldas da Rainha) mas só em 1966 cheguei a Lisboa porque pelo meio vivi na minha terra, no Montijo e em Vila Franca de Xira. Tinha portanto 15 anos quando chegue a Lisboa para trabalhar no BPA da Rua do Ouro. Mais tarde soube que o nome da Rua é mesmo Rua Áurea mas toda a gente diz de outra maneira e não vale a pena insistir. Quando descobri que o talão de ordenado indicava um pagamento mensal de 9 escudos para o Sindicato dos Bancários eu quis saber as razões que me impediam de ser sócio mas ninguém sabia. Só aos 18 anos é que me pude inscrever e ainda tenho o cartão de sócio assinado pelo Daniel Cabrita. Mais tarde, já delegado sindical, eu distribuía folhas a stêncil com as novidades e o título que não esqueço - «Incomunicável em Caxias, Daniel Cabrita continua preso!». Outra coisa insólita era o desconto para o Fundo de Desemprego: todos os meses iam para lá 16 escudos mas se por azar ficasse desempregado não ia buscar nenhum apoio porque os bancários estavam fora das Caixas de Previdência e para nós apenas existia a Caixa de Abono de Família. No tempo da minha juventude não tinha dúvidas: comecei a trabalhar com 15 anos depois de ter tirado um curso médio numa Escola Técnica. Tudo tinha a sua lógica: uma senhora no Montijo tinha dito em voz alta que os filhos dos motoristas não vão para o Liceu. E eu não fui. A senhora tinha razão porque naquele Portugal as coisas eram assim. Cada filho meu que tira uma licenciatura ou um mestrado é uma alegria interior e um conjunto de lágrimas que ninguém vê. Também se pode chorar de alegria como é o caso. Os cursos superiores deles são os que eu em 1966 não pude tirar. --

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por José do Carmo Francisco às 14:56

Quarta-feira, 24.02.16

«a solidão como um sentido seguido de desespero» de rui almeida

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Depois de «Lábio cortado», «Caderno de Milfontes», «Leis da separação» e «Temor, Único Imenso», neste seu quinto livro o poeta inscreve uma respiração poética da escuridão, da tristeza e da sombra mas não será surpresa o aparecimento de um futuro livro de poemas onde se celebre a luz, a alegria e o sol. A solidão e o desespero que este livro regista podem passar a simples acidentes de percurso ou fase de pensamento e acção que ficou na escrita e no estilo mas não permanece no sangue pisado da vida. Na região de Alcobaça é costume as pessoas dizerem que a vida é como a morte de São Bernardo: uns a rir outros a chorar. O quadro no Mosteiro mostra isso mesmo – metade dos frades toca pífaro e pandeiro, outra metade chora e desespera com a morte do fundador da Ordem. Rui Almeida (n.1972) enuncia neste seu livro um programa que se pode localizar na página 22: «Evita sonhar, procura não saber / Dos sorrisos que se acendem / Ao longo da rua. Remete-te / À desordem moderada do teu / Coração silencioso, à ausência / De expressão, mesmo nos momentos de sobressalto. Fecha, devagar / Muito devagar, as mãos e chora / De modo a que ninguém veja. / Há alegria a mais no mundo, há / Demasiado tempo perdido a roubar / A propriedade dos tristes.» Para Camilo Castelo Branco desesperar é o extremo dos infortúnios mas já na página 13 do livro se anuncia o segundo grupo de cinco poemas com o título geral de «Desespero». Esse poema afirma: «E sempre o desespero, / A gota limpa inundando / Negrume transparente / Líquido. Sempre a tracção / Sólida do nervo esticado / Ao limite, a agonia /Pequenina na face / Seca na garganta / A criar atrito e dor / Sem nome a dor, sem / Limite amparado / Por uma linguagem . E / Nunca o zelo da coragem / Para dizer do coração». Na página 7 logo no primeiro verso se lê «A solidão como um sentido». Se assim for a vida deixa de ter cinco sentidos (vista, ouvido, olfacto, gosto e tacto) e passa a ter seis. Ora no poema da página 11 surgem lado a lado a solidão e a memória. Há uma leitura possível: se a solidão isola, a memória integra. Vejamos: «Lado a lado, a solidão / E a memória queimada / Da infância. Falhas / Na superfície lisa do tempo / Aceleram a rapidez / Da queda no abismo / Lado a ado, a sombra / E a cor distorcida / De um mar demasiado / Longe, onde não / Se naufraga. A cor / Do céu ausente, / Feito da ilusão de tudo / O que é lembrado.» (Editora: Lua de Marfim, Capa e Paginação: Inês Ramos, Editor: Paulo Afonso Ramos, Coordenação: Fernando Esteves Pinto) --

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por José do Carmo Francisco às 11:02

Sábado, 20.02.16

vila franca de xira, porto do tejo em 1669

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Quando em 1966 eu li, entre atónito e revoltado, uma carta da Banca Commerciale Italiana dirigida ao Banco Português do Atlântico Lisboa / Spagna, a minha repulsa ainda foi maior porque eu era dos mais cuidadosos em não escrever «Instituto» em vez de Istituto Bancario Italiano. Afinal já em 1669 os cronistas italianos da comitiva do Príncipe Cosme III de Médicis deram mostras de desdém, de ignorância, de altivez e de soberba perante o Outro. Neste caso Portugal e os Portugueses. Nas suas crónicas eles escreveram Busseras em vez de Venda de Bruceiras (hoje Azaruja), Byef em vez de Boa-Fé e Pantaleone em vez de Patalim além de Monteamor por Montemor-o-Novo. Depois do Montijo e de Lisboa, a minha terceira etapa destas crónicas da visita de Cosme III de Médicis em 1669 passa por Vila Franca de Xira e tem uma particularidade. Segundo o cronista Magalotti «quando anoiteceu foi Sua Alteza alojar-se em Villa Franca onde foi recebido pelo Juiz de Fora na execução das ordens de uma circular vinda da Corte para que fosse atendido da melhor forma possível nos lugares onde chegasse e aqui ficou no quarto onde repousa habitualmente o Senhor Príncipe D. Pedro II quando de Lisboa se dirige à sua Vila de Salvaterra.» Completa a crónica uma informação sobre distâncias: «De Lisboa a Villalonga são três léguas e outro tanto de Villalonga a Villafranca.» São estes os termos exactos usados pelos cronistas italianos (Magalotti, Corsini e Gornia) que fizeram parte da comitiva de Cosme III de Médicis em 1669. Faltará dizer que já no século XXI os dois Bancos Italianos referidos acima (Banca Commerciale Italiana e Istituto Bancário di San Paolo di Torino) deram origem a um novo Banco. O primeiro tinha sido fundado em 1894 e o segundo em 1563. Mas isso são outras histórias que já em nada dizem respeito ao Rio Tejo. --

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por José do Carmo Francisco às 18:18

Sábado, 20.02.16

o sabor do «nescafé» numa prisão de luanda

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O relógio de cafucôlo marca no respectivo bolso das calaças as horas devagar dentro da cela superlotada, numa prisão de Luanda. Lá fora, longe da cela, o tempo é outro; veloz, solto, desabrido, tempo livre, mesmo livre, porque tem em si todo o espaço do Mundo. Dentro da cela, sem culpa formada, sem julgamento marcado, sem horizontes de esperança, tudo se arrasta num vagar sem limites. O rapaz do Bairro Marçal, o ciclista imprevidente, o curioso do asfalto, é afinal um electricista experiente, hábil e consumado. Pediu que lhe empurrassem a mesa, chegou uma cadeira para cima da mesa e, com a lâmpada desligada no interruptor da parede, colocou um garfo velho no lugar da antiga lâmpada da cela. Com esse gesto de «bricolage, de «do it yourself», de portuguesíssimo «desenrascanço», transformou o garfo velho na resistência nova, eficiente e inesperada para todos na cela duma prisão de Luanda. Assim se aquecia a água na pequena panela e se bebia o mais saboroso Nescafé desta cidade, saboroso porque clandestino, porque inesperado, porque insólito – a água ficava muito quente com um garfo velho a fazer de resistência. Algum tempo depois, alguns demorados meses depois, como a esfarrapada acusação de «sabotagem económica» não tinha bases, nem substância nem pernas para andar, foi a vez de alguém trazer o tal detido para Lisboa num avião. Nem teve tempo para se despedir do ciclista jeitoso do Bairro Marçal, o homem que de um garfo velho construiu uma resistência eléctrica nova para aquecer a água do Nescafé. Tantos e tantos anos depois, nunca mais um Nescafé bebido em Lisboa lhe soube tão bem como aquele insólito, clandestino e inesperado café numa prisão de Luanda. Porque a vida é um mistério e não um negócio, quando vejo o meu amigo é do Nescafé que me lembro. --

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por José do Carmo Francisco às 14:54

Sexta-feira, 19.02.16

«a poeira que cai sobre a terra» de francisco josé viegas

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O título deste volume de Francisco José Viegas (n. 1962) é retirado da segunda narrativa das cinco que integram o conjunto: «Um gosto pela imperfeição» (98 páginas), «A poeira que cai sobre a terra» (60 páginas), «Lágrimas de Sydney» (25 páginas), «A câmara invisível» (26 páginas) e «Uma recordação de Dezembro» (15 páginas). O ponto de partida da primeira narrativa é, como nas outras, um assassinato: «uma jovem assassinada na casa de banho de uma discoteca que provavelmente os pais podiam ter frequentado em tempos. Ao som de música angolana.» Uma das personagens, Esther Graydon, a viver no Porto desde 2002, afirma sobre a vida em Inglaterra: «Muito aborrecido. Um país aborrecido onde as pessoas se irritam frequentemente figindo que se divertem.» Para quem conhece as histórias do inspector Jaime Ramos o livro é um saboroso reencontro; para quem não conhece é uma grande descoberta. Lá está Jaime Ramos em corpo inteiro: «Aprendera, por comodidade, a desconfiar da harmonia do mundo. Não por gosto mas por hábito, desmantelando a felicidade onde só existe felicidade, inventariando maus hábitos, vícios ocultos, segredos, vidas soterradas por segredos que desabam.» Lá está o humor: «Separar-se acontece com toda a gente excepto com os pombos e as doninhas.» Lá está a gastronomia: «A água quente explodiu, separando os grãos de arroz, libertando-os da gordura e formando um caldo onde eles perderiam a rigidez, cozendo depressa com um pouco de sal. Nuam caçarola juntou os pedaços de frango, reunindo-os ao azeite que já fervia…» Lá está também a oposição entre a Cidade e as Serras: «A província é um mundo ignorado e brutal, cheio de memórias, de adultérios e de ressentimentos.» Jaime Ramos é um homem único, diferente e especial até nos mais pequenos pormenores como, por exemplo, fumar numa livraria: «Não vai fumar aqui, pois não? «Vou», disse ele. «Mas ninguém vai saber». (Editora: Porto Editora, Capa: Manuel Pessoa, Foto: Pedro Loureiro) --

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por José do Carmo Francisco às 17:03

Sexta-feira, 19.02.16

cristiano ronaldo, os vacões, a tricanita e a memória de bolonha em 1998

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Cristiano Ronaldo foi insultado por um «rapaz que faz as cabinas» com uma bateria de perguntas idiotas em Itália antes do jogo do Real Madrid mas deu uma resposta em campo com um golo decisivo. Tal situação recordou-me o que se passou com os jornalistas portugueses em Bolonha depois de a equipa local ter defrontado o Sporting para a Taça UEFA em 30-9-98. No fim os rapazes que fazem as cabinas começaram a fazer perguntas ao treinador e ao capitão da equipa sobre a próxima jornada do campeonato italiano e nada sobre o jogo com o Sporting. Foi preciso alguém chamar a atenção do tradutor pois não estava certo dado que nós, os jornalistas portugueses, é que tínhamos prioridade porque íamos apanhar o avião de regresso a Lisboa nessa noite. As coisas lá se recompuseram mas foi um bocado desagradável. Claro que tudo isto é importante mas o futebol tem um peso relativo na nossa vida. Ainda há pouco tempo uma candidata à presidência da República de Portugal (uma pobre tricanita) se atreveu a dizer que a mais recente piada por si ouvida foi que o Sporting ia ser campeão nacional. Percebe-se que a tricanita não leu o livro de Carlos Garcia de Castro «Loja, contra-loja e armazém» onde na página 6 se pode ler: «Havia no comércio a convenção de «fazer escola» o que a convivência familiar em casa dos patrões suscitava, até como exemplo de cidadania e de classe além de administrativamente ser mais em conta. Isso levava a que houvesse intenso e permanente trabalho doméstico para assistir às sopas e às roupas dos rapazes, com a ajuda de uma ou duas criadas. Todos comíamos de comum à mesa, onde estritamente era proibido falar de futebol, para evitar conflitos com repercussão nas relações de trabalho mas também dignificar a hora das refeições.» --

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por José do Carmo Francisco às 09:57

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