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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 29.01.16

santarém ficava a 45 quilómetros de santa catarina

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Lá pelos idos de 1956 meu pai tinha uma bicicleta côr de cinza e pedalou muitas semanas duas vezes os 45 quilómetros que separavam Santa Catarina de Santarém para «tirar a carta» de ligeiros, pesados, motociclos e serviço público. A estrada do tempo era de macadame, Rio Maior ficava a 15 quilómetros e daí até Santarém eram mais 30. Ao todo pedalou 90 quilómetros por semana mas no fim alguém, ao lado do patrão, terá dito a sorrir: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés!» Afinal era isso mesmo que ele fazia aos sábados à tarde quando chegava de Santarém todo suado e mudava de roupa. Andava um grupo de homens a mantear a Várzea do Lameirão para plantar bacelo novo. Hoje a vinha é velha e restam apenas algumas cepas de uva tinta trincadeira. Havia nos cavadores homens que sabiam cantar: o meu tio Joaquim e o Zé Bernardino. Em 1956 também ouvia falar de Santarém à única menina da minha terra que estudava no Colégio Andaluz, a Mariazinha Serrenho. Mais tarde entre 1997 e 2001 conheci Santarém de um modo peculiar: trabalhava na cidade quatro dias por mês mas vinha dormir a casa à noite. Fazia tudo a correr mas tinha tempo para olhar o Tejo nem que fosse entre os belos almoços nas Caneiras ali à beira do Rio. Sem esquecer a Taberna do Quinzena e os grelhado no Chefe. Com estas crónicas estou a fazer o «poker» pois escrevi em três jornais antes de aqui chegar: o RIBATEJO, O MIRANTE e O EXPRESSO DA LEZÌRIA. Estou a dar o melhor que sei e posso nesta «peregrinação interior», título de um autor amigo que tinha uma casa no Ribatejo – António Alçada Baptista. E voltando ao Tejo: se não fosse o Zêzere, não era o ridículo caudal que os espanhóis debitam que ia manter o Rio Tejo tal como o conheço desde 1956 nas Portas do Sol. Mas isso já é outra história. --

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por José do Carmo Francisco às 21:14

Sexta-feira, 29.01.16

«uma claridade que cega» de graça pires

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Depois do recente «Espaço livre com barcos» este «Uma claridade que cega» é o 17º título de Graça Pires num percurso iniciado em 1990 com «Poemas» - Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. São 25 anos de actividade poética e não surpreende quando o primeiro poema do livro refere o recomeço que, afinal, todo o poema acaba por ser: «Hesitantes, as palavras / procuram um ponto de partida / um recomeço». Embora o poema eleve a voz do seu autor, é sempre o colectivo que se projecta: «Há por todo o lado palcos improvisados / onde, em bocas distorcidas, se anunciam / perigos e presságios, ameaças e avisos.» Já antes na página 8 surgira uma adversativa: «Evito que as letras ignorem o lume / perturbante onde podem arder os sonhos.» O poema não se fixa no presente, antes viaja pelo passado («Espreito pelos dedos a memória / mais longínqua da infância») pois sabe que o passado pode ser sempre revisto e é «tantas vezes vida, tantas vezes morte». Não sendo esta uma poesia de púlpito ou de panfleto, não fica fora dela o registo veemente da grande dôr daquilo que muitos chamam «reajustamento» mas que é de facto, apenas e só, «empobrecimento». Assim: «Pesa-me no peito a fadiga das mãos / enrugadas e o choro silencioso / das mães com a fome no colo.». O poema da página 29 dá origem ao título do livro: «As palavras, essas, / são arrastadas pelo vento / que geme nas montanhas / onde se pode olhar de frente / o imponderável declive da neve / que rasga no peito / uma claridade que cega». Ao longo dos séculos a Poesia sempre chamou todas as coisas pelos seus nomes mesmo quando faz uma dupla inscrição entre vida e literatura como na página 54: «Para o Poeta João Rui de Sousa Quando o dia oferece à paisagem / todas as gradações da luz / a escrita não se fatiga nas palavras. / O poeta é então um artífice discreto / pressentindo no olhar, sem explicação / o manejo das mãos enfeitiçadas / pelo gesto acabado, a marginar um sonho.» (Editora: Poética Edições, Colecção: Poesia) --

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por José do Carmo Francisco às 09:12

Quinta-feira, 28.01.16

isabel rodrigues e john philip de sousa que tem raízes nos açores

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Um destes dias cometi um erro crasso numa das crónicas incluídas no meu livro «Entre o Chiado e os Açores» (Apenas Livros Editora) ao referir a Madeira como a terra dos ascendentes paternos do compositor luso-americano John Philip de Sousa (1854-1932). Não me perdoo ter cometido um erro deste calibre quando de facto a família do pai do compositor era dos Açores e não da Madeira. Já agora convém referir que a mãe do compositor era alemã. Não deixa de ser curioso que a «Mini Enciclopédia» do Círculo de Leitores lhe chama «luso-americano» e o dicionário «Pocket Famous People» da Penguin de Londres lhe chama apenas «composer and bandmaster born in Washington DC» lembrando o nome da sua talvez mais famosa marcha militar escrita em 1896 - «The Stars and Stripes for Ever». Esse título aliás em filarmónicas rurais dá origem a um equívoco quando alguns músicos dizem «Vamos tocar a marcha tripas a ferver» porque eles não sabem inglês. A minha grande amiga Isabel Rodrigues é que teve em primeira mão a ideia de me corrigir. Nisto como em tudo na vida não devemos compartilhar o que não é possível de ser compartilhado. Andei uma vida inteira a ouvir coisas de todo erradas sobre John Philip de Sousa mas o erro na crónica e no livro é só meu porque fui eu que escolhi as palavras antes de as ler na Rádio, na Antena Um Açores. Por acaso há uma circunstância feliz na minha abordagem errada da figura do músico: o título geral das crónicas («Entre o Chiado e os Açores») repõe em parte a verdade. E a verdade é só uma como a minha a miga Isabel Rodrigues me lembrou ontem ao telefone: a família do famoso compositor, director musical e criador do instrumento «sousaphone» é de origens açorianas. Ponto final. --

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por José do Carmo Francisco às 09:20

Terça-feira, 26.01.16

o nome gaspar loureiro está na origem de um momento de felicidade

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Toda a minha educação sentimental de criança cabe dentro de uma telefonia Schaub Lorenz. O meu livro «Entre o Chiado e os Açores» (Apenas Livros Editora) explica isso. O Matos Maia sabia, o António Macedo sabe, o Adelino Gomes sabe, o Sidónio Bettencourt sabe, o Fernando Alves também sabe. Serve este introito para afirmar que a Rádio está presente na minha vida desde sempre e (talvez) para sempre. No meu caso é uma companhia todo o dia mesmo nas tarefas mais humildes como arrumar pratos e talheres, panelas e tachos nas prateleiras da cozinha. Aqui há uns anos estávamos só dois em casa; somos cinco mas calhou assim. Alguém na Rádio perguntou e era na Antena Um: «Gaspar Loureiro como estão as coisas na segunda circular?» E eu respondi em voz alta: «Por aqui está tudo bem, não há nenhum acidente a registar!» Logo a minha filha mais nova telefonou à mais velha, em pânico, pois segundo as suas palavras eu «estava a falar sozinho». Mas não, felizmente não estava ainda a falar sozinho porque eu com a Rádio nunca me sinto só. Em termos jurídicos até pode ser considerada uma tentativa de usurpação de identidade mas eu não deixo de ser quem sou só porque respondi em nome do Gaspar Loureiro. Ficou tudo explicado em poucas palavras mas o equívoco teve um resultado positivo. A cadeia telefónica que se formou veio provar a força da nossa ligação. Tudo continua como na infância; nem os beijos nem as lágrimas custam dinheiro porque não têm preço. A felicidade não existe mas há momentos felizes. São momentos breves, fugazes, discretos mas, mesmo assim, inesquecíveis. Tão inesquecíveis que basta ouvir o nome de Gaspar Loureiro para me lembrar deste equívoco feliz, aqui há uns anos, na cozinha da velha casa numa tarde de chuva como esta. --

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por José do Carmo Francisco às 09:08

Segunda-feira, 25.01.16

slb - a idade do clube, os campeonatos, as perspectivas e as realidades

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Isto até parece de propósito: horas depois de ter colocado «on line» um texto neste Blog referindo o delírio e a alucinação de uma «locutora» de TV que disse várias vezes «O Sporting está a dois pontos do Benfica» (ou seja, o contrário da verdade) houve um pobre maloio que, apanhado à saída do jogo SLB-Arouca, afirmou, mais ou menos, o seguinte: «Estamos a jogar bem, agora só falta ganhar aqui ao Porto e o campeonato acaba». O seu discurso delirante tentou rasurar o nome da equipa que vai à frente do Campeonato Nacional, não a referiu nem sequer lembrou o atraso que a sua equipa tem que recuperar porque, naquela pobre cabecita, tudo se resume a uma luta acesa entre Porto e SLB. Não é de estranhar esta desconformidade com o real porque aquela gente aceita a data de 1904 como data de fundação mesmo sabendo que o clube da roda da bicicleta só foi fundado em 1906, logo a data de 1904 em vez de 1908 é falsa. Outra mentira repetida muitas vezes é a lista com o número de campeonatos pois entre 1934 e 1938 houve a disputa de 4 Ligas mas o Campeonato de Portugal não parou e era esse torneio que atribuía o título de campeão de Portugal. As Ligas foram torneios privados, particulares e onde os diversos clubes entravam por convite. Não davam nem podiam dar nenhum título porque não pode haver dois campeonatos no mesmo ano. A realidade não se altera só porque existe uma vontade nesse sentido. Seja da menina da TV seja do pobre maloio à saída do estádio, no meio da euforia e da confusão, no esplendor da mentira. Mas isto é tão geral que até dois mestres alteraram as «fontes». Jacinto Baptista e António Valdemar no livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» falam no falso derby em 1907 e alteram, por isso, o nome do Clube envolvido acrescentando «e Benfica» ao nome «Sport Lisboa». --

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por José do Carmo Francisco às 09:48

Domingo, 24.01.16

a rua do ouro em 1966 - o tejo ali ao lado

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Quando comecei a trabalhar em 9 de Setembro de 1966 na Rua do Ouro (Rua Áurea, de facto) o Tejo continuou a ser uma presença na minha vida. Aquela Rua de Lisboa que a minha família atravessava entre 1957 e 1961 a correr entre o vapor do Montijo e a automotora das Caldas da Rainha, passou a ser o meu local de trabalho no nº 110, 1º andar. Ganhava 900 escudos por mês, fazia descontos para o Sindicato dos Bancários mas só aos 18 anos me pude tornar associado, descontava para o Fundo de Desemprego mas se ficasse desempregado não ia lá buscar nem um tostão. Trabalhava no Sábado até às 13 horas e no primeiro ano só tive 12 dias de férias. Usava uma farda cinza, era pessoal menor, recebia o ordenado num envelope e o nosso chefe (Sr. Castro) não pagava a quem tivesse o cabelo comprido como os Beatles.

O meu trabalho tinha a ver com o Tejo: ia pagar fretes aos Agentes de Navegação, perto do Cais do Sodré. Otto Wang, Wiese, Keller Marítima, E. Pinto Basto, D.A. Knudsen e A.J. Gonçalves de Moraes. A Sociedade Geral era na Rua de São Julião, não dava direito a dois escudos para o eléctrico. Os conhecimentos de embarque indicavam «Lobito/Bremen» ou «Bissau/Hamburg» e a mercadoria era cera de abelhas ou sisal. O BPA pagava os fretes com cheques sobre o Banco de Portugal e, mais tarde, quando o Banco alemão pagava a remessa à cobrança, descontava-se o valor do frete na nota de crédito ao cliente. Havia em Setembro de 1966 poucas fragatas no Tejo quando um grupo de bancários ia passear até ao Cais das Colunas. Certa como um relógio, chegava a vedeta do Arsenal do Alfeite com pessoal civil que vinha almoçar a casa tal como eu almoçava em casa perto Adamastor, debruçado sobre o Tejo Cinquenta anos passaram num instante, tudo mudou; só o Tejo permanece. --

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por José do Carmo Francisco às 08:35

Sábado, 23.01.16

de nemésio a hegel ou os perigos do microfone e da câmara de tv

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Uma das mais famosas frases de Vitorino Nemésio na TV foi dita com convicção mas está errada: «Já São Paulo falou na cisão do átomo!». Ora no tempo de São Paulo não havia sequer o conceito de átomo, quanto mais da sua cisão que, sabemos nós, é anterior ao radar e ao ultra-sons, tudo isto já no século XX. Perguntaram a Eduardo Lourenço se mantinha a sua afirmação «Hegel tinha razão em supor que a mitologia essencial de uma época se lê no jornal da manhã». Foi na Revista «Tempo Livre» do INATEL de Janeiro de 2016.Teria sido essencial mostrar aos leitores que Hegel viveu entre 1770 e 1831 e a realidade de 2016 nada tem a ver com o tempo de Hegel. Passaram 185 anos. Outro aspecto curioso foi o alarido à volta de uma distinção francesa atribuída a um cantor popular português em Paris mas sem a presença do embaixador português. Tudo isto é relativo porque quando eu era pequenino o cantor mais popular chamava-se Manuel Monteiro e a sua canção mais célebre tinha um refrão muito «Estado Novo» que era assim: «Pensa bem, mulheres há muitas, mãe há só uma!» Hoje ninguém sabe quem era esse cantor nem se lembra da canção, tal como um valor e número residual de ouvintes da rádio daquele tempo (anos 50) se lembrará de Ricardo Isidro ou de Moniz Trindade. Por exemplo, mas outros nomes poderiam ser referidos. Ontem à tarde numa das televisões da moda aparecia uma menina que disse quatro vezes uma mentira: «O Sporting está a dois pontos do Benfica!» O delírio e a alucinação da rapariga falaram mais alto e ninguém a advertiu nem poderia ter advertido. Porque a verdade é outra e bem oposta: o Benfica é que está a dois pontos do Sporting. A realidade não se altera só porque há nas televisões da moda meninas assim. Tive que desligar o botão da TV. --

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por José do Carmo Francisco às 10:32

Sexta-feira, 22.01.16

vila franca de xira e o tejo ali ao lado

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Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1967 e via o Tejo todos os dias da minha janela no segundo andar do meu prédio côr de rosa no Bairro do Bom Retiro. A renda era de trezentos e vinte escudos por mês. Mesmo com um nome bonito, o bairro era triste e não havia água nas torneiras. Por isso a nossa gente ia à fonte de Santa Sofia buscar garrafões de água para beber. À hora de almoço aparecia o Zé da Água com um depósito da Câmara Municipal. Havia quem trouxesse a telefonia portátil para ouvir o romance porque (vá lá saber-se porquê) o Zé da Água aparecia sempre à hora do romance na telefonia. Era um azar a juntar ao azar de o nosso Bairro não ter ruas de asfalto (as ruas nem nome tinham) além de uma muito mal sublimada má vontade doas naturais, gente pobre e periférica como nós. Uma vizinha chamou-nos um dai «gente ambulante» só porque éramos parte de uma equipa que andava (com os reclusos de delito comum com jeito para a construção civil) a construir alguns Palácios da Justiça – depois do Montijo, Vila Franca de Xira. Onde eu me sentia muito bem era na Escola Comercial e Industrial porque ali éramos todos amigos e quem tinha unhas é que tocava guitarra. O Vidaúl Froes Ferreira, o José Carlos Lilaia, o Álvaro Pato, o Arnaldo Ribeiro, por exemplo, apareceram comigo, anos depois numa reportagem do Adelino Gomes para o «Público» (Revista). A fotografia foi tirada em 1966 e dá para dizer duas coisas: o tempo passa depressa e o Tejo está mesmo ao nosso lado. Só falta aparecer o barco areeiro «Gil Conde» para o quadro ficar completo. Aquele jardim era o nosso Mundo e nesse tempo (éramos jovens, felizes e angustiados ao mesmo tempo) nenhum de nós sabia que o Mundo é pequeno e só o acaso é grande. --

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por José do Carmo Francisco às 11:40

Terça-feira, 19.01.16

«um jantar de escritores» de josé viale moutinho

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Portugal é um país de analfabetos que conhece Bocage (1665-1805) pelas anedotas atribuídas e Bulhão Pato (1829-1912) pelas amêijoas. Por acaso (ou não) as amêijoas são de Mestre João da Matta tal como a carne de porco à alentejana é para disfarçar o sabor da carne de porco algarvia, criada com o peixe dos pescadores e as suas «lavaduras». Mas isso é outro assunto. Este livro de 155 páginas tem os seguintes capítulos: entradas, sopa, caldo, açorda, papas, pão, boroa, saladas, peixes, mariscos, carnes, sobremesas, vinhos, digestivos, arroz malandro e refogado queimado (e uma pitada de tabaco?). O mérito de José Viale Moutinho (n.1945) é reunir um seguro e completo inventário; «selecção de textos e notas epicuristas» chamou o autor à sua tarefa. Uma das curiosidades deste livro é perceber-se que o nome «O prato de arroz doce» de A.A. Teixeira de Vasconcelos (1816-1879) é o título de um romance sobre o movimento político da Patuleia; o livro é de 1862. Outra curiosidade está na página 46: surge a referência a quatro mariscos que são afinal três : arola, caranguejo e navegante. Outra curiosidade é um texto de Fialho de Almeida (1857-1911) sobre o seu arroz de perdiz com o qual antecipou a Páscoa em três dias: «Estava eu a prepará-lo na Rua da Condessa em Sexta de Paixão e nisto quatro argoladas na porta, de tremer. Vai a criada … era Nossa Senhora da Soledade que, saída da procissão do enterro, vira de repente erguer-se do esquife o Salvador do Mundo, gritando párem! párem! – mal lhe chegaram às ventas os perfumes ressurrecionais do meu arroz. – Ressuscitou. E a respeito de subir ao céu? – Qual subiu ao céu! Jantou connosco.» Para concluir – uma delícia de livro. (Edição: Colares Editora, Capa: Fedra Santos, Grafismo: Sarah Goes) --

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por José do Carmo Francisco às 15:37

Sexta-feira, 15.01.16

para gonçalo rosa sobre o «diário popular» dos anos 60

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O livro «Os grilos não cantam ao Domingo» de Santos Fernando é uma reunião de crónicas da edição de Domingo do «Diário Popular» que nos anos 60 era esperada pelos fiéis leitores e vinha da estação da CP de Vila Franca de Xira numa carroça. Em 1966 eu tinha 15 anos e achava mágico um jornal que me dava o resumo dos jogos do Domingo à tarde nesse dia à noite com os resultados e a classificação do campeonato da I Divisão. Em 1978 quando comecei a colaborar no «Diário Popular» ouvi a história da morte do pintor Falcão Trigoso. A notícia necrológica estava pronta porque o senhor estava moribundo mas os granéis tinham um papel que o vento levou com os dizeres RETIRADO, Alguém perguntou a alguém se aquilo era para publicar e, dito que sim, a coisa avançou. As filhas do pintor vieram lamentar-se ao director Martinho Nobre de Melo. «Não posso fazer nada, meninas. Jornal na rua é pedra saída da mão!» - foi a sua resposta. Claro que dias depois o senhor morreu mesmo. Pode ter sido essa história que esteve na origem da crónica «O homem do fato azul» de Santos Fernando. Vejamos a página 27 do livro: «De súbito, o homem de fato azul repara na notícia da sua morte. No seu retrato. No seu nome destacado. Fica em êxtase. Nunca pensara ser informado da sua morte por uma forma tão inesperada. Assim, dirige-se ao vizinho, um dedo estendido para o jornal. – Sou eu – afirma, enrubescendo. O outro olha o retrato, olha o homem de fato azul e diz: - Os meus sentimentos. – Obrigado – agradece o homem de fato azul – Soube-o agora mesmo pelo jornal do senhor…» A cena passa-se num autocarro da cidade de Lisboa: «Dentro do autocarro os passageiros vão tristes. Como sempre. Fumam, lêem, suspiram.» Neste jogo de vida e de morte o autor cria um diálogo para sorrir mas também para pensar. --

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por José do Carmo Francisco às 13:03

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