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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 30.11.15

«osso» de rui zink

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Rui Zink (n.1961) assina este livro insólito de 133 páginas sobre um homem que interroga outro numa base secreta. A origem desta história é a vida actual segundo a advertência de Oscar Wilde: «A vida é uma coisa demasiado importante para ser levada a sério». Ou dito por Rui Zink: «É essa a desgraça do nosso tempo. Todos querem ser engraçados». Acusado de «tentar pôr uma bomba», o interrogado admite logo no princípio do diálogo quando responde «Fui sim senhor. Como não havia de admitir? Há testemunhas…» A origem do título do livro está num passo do diálogo a propósito da palavra castelhana «oso» que se pronuncia «osso» e significa «urso»: «Osso quer dizer urso? Isso mesmo. Eles escrevem só com um s mas pronunciam com dois ss. E é um anagrama perfeito. Ou, melhor, um palíndromo.» Rui Zink sabe (como Santos Fernando) que «o humor é uma lágrima entre parêntesis». Entre equívocos e sorrisos, até a ligação à história da literatura («O Conde de Montecristo») é feita a sorrir: «Sabe que o Abade Faria existiu mesmo? Era um padre português de Goa, até parece que têm lá uma estátua? O primeiro homem a fazer uma hipnose pública, um dos pioneiros da hipnoterapia.» O ponto de chegada deste humor no fim do livro é a moral de história, vale a pena citar: «Um terrorista entra num bar com uma bomba na mão. O dono do bar avisa que tem de deixar a bomba lá fora. O terrorista diz-lhe: estava a brincar, eu não sou terrorista, olhe só, isto não é uma bomba, é um isqueiro. E para mostrar que é verdade acende o isqueiro. O dono do bar replica, com ar triste: eu também estava a brincar, isto não é um bar, é um posto de gasolina». (Editora: Teodolito, Ilustrações: Rui Zink, Editor: Carlos da Veiga Ferreira) --

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por José do Carmo Francisco às 19:17

Domingo, 29.11.15

joão céu e silva, os nomes dos fotógrafos e a disneylândia religiosa

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O texto da página 44 do «Diário de Notícias» de 28-11-2015 revela uma entrevista com Clara Ferreira Alves a propósito do seu livro «Pai Nosso». Ora na segunda coluna refere-se o fotógrafo Robert Capa (1913/1954) criando uma confusão com o fotógrafo Frank Capra (1897/1991) Este era Frank porque o seu nome de origem era Francesco. Portanto Frank não é Robert nem Capra é Capa. Um segundo aspecto tem a ver com uma frase algo insólita que aparece aqui - «as reflexões culturais que exigem cultura» também na segunda coluna da página. Claro que se são reflexões culturais exigem cultura; isso é mais ou menos óbvio. Não era preciso afirmar. O terceiro aspecto tem a ver com uma expressão que me parece de muito mau gosto (pelo menos) também na segunda coluna quando se refere a Jerusalém como uma «Disneylândia religiosa». Ora se Jerusalém é uma Disneylândia religiosa então Deir Iassine é um parque infantil e não foi nunca nada disso mas sim um lugar de genocídio em 1948. Os nomes dos assassinos da Irgun e da Stern já foram esquecidos mas os mortos continuam a clamar por justiça mesmo depois dos poços cheios de morte e de sangue terem sido transformados em aeroporto. Tudo isto é muito doloroso e ainda é mais difícil de abordar depois da entrevistada ter dito na entrevista ao Expresso Revista de 21-11-2015 algo como «coitado do Camilo». «Coitado do Camilo» é uma sentença de uma pacalaia; se fosse homem era um vacão. Vacão vem no Dicionário da Sociedade da Língua Portuguesa, pacalaia não aparece mas existe e muita gente continua a utilizar esse termo. Eu, por exemplo, continuo a escrever pacalaia sempre que se justifica e desta vez tem mesmo justificação. Coitado da Camilo não; coitados sim de todos nós que temos que aturar isto. Safa! --

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por José do Carmo Francisco às 13:53

Sábado, 28.11.15

memória para os muitos suplentes de vítor damas

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Um amigo meu, anónimo e discreto mas sábio e honrado, frequenta a tertúlia da Livraria e Editora «Bonecos Rebeldes» nas Escadinhas do Duque em Lisboa e ofereceu-me uma lista dos guarda-redes suplentes de Vítor Damas ao longo da sua carreira de sénior e também de júnior: nessa categoria o seu nome era (ou é) Carlos Alberto e foi suplente entre 1964/65 e 1965/66. Já não vai a tempo esta bela lista de entrar no livro («Baliza de Prata») mas aqui fica como homenagem a todos os que, no banco dos suplentes, alinharam nas tardes de glória do «Homem Aranha» como lhe chamava Pedro Gomes. Aqui vão os nomes e as datas: No Sporting Clube de Portugal tivemos Carvalho e Barroca (68/69 e 69/70), Botelho (70/71, 71/72, 73/74), Rui Paulino (71/72), Pinhal (72/73, 73/74, 74/75, 75/76), Matos (74/75, 75/76) e Valter (74/75, 76/76). No Santander tivemos Monchi /76/77) e Pedro Alba (76/77, 77/78, 78/79). No Vitória de Guimarães tivemos Melo (80/81) e Joaquim (80/81). No Portimonense tivemos Hélder (82/83), Borota (82/83), Barão (83/84 e Tavares (83/84). De novo no Sporting Clube de Portugal os suplentes forma Katzirz (84/85, 85/86), Sérgio (84/85, 85/86, Vital (86/87, 87/88), Rui Correia (86/87, 87/88) e por fim, na última época, Rodolfo Rodriguez (88/89). A foto que ilustra o texto poderia ser outra mas o que conta é a memória porque atrás de cada nome há um rasto de coisas comuns. Por exemplo será este Joaquim que foi suplente em 80/81 no Guimarães o mesmo Joaquim que em Ponta Delgada num certo Domingo à noite em Janeiro de 2001 esteva à conversa com Vítor Damas no Aeroporto antes de mim? A vida é mesmo um mistério e ainda bem. Se em vez de mistério a vida fosse um negócio então estava isto tudo estragado e não valia a pena viver. --

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por José do Carmo Francisco às 10:31

Quinta-feira, 26.11.15

clara ferreira alves chamou coitado a camilo castelo branco ou o deslize da pacalaia

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À conta de Camilo Castelo Branco (1825-1890) tive agora dois aborrecimentos; um por ignorância e outro por deslize. Na edição de 1990 da Areal Editores (Porto) surge um excelente prefácio de David Mourão-Ferreira ao lado de um texto no qual a autora afirma desconhecer (e não perguntou!) onde fica a Rua dos Calafates; nome da Rua Diário de Notícias no tempo de Camilo. Na Revista do «Expresso» de 21-11-2015, Clara Ferreira Alves afirma: «O Eça durou, o Camilo já não, coitado do Camilo, foi corrido…» Ainda se a plumitiva se referisse a Cláudio Nunes, Pinheiro Chagas e Augusto Gil que (coitados!) foram no seu tempo mais famosos do que Cesário Verde, Eça de Queirós ou Camilo Pessanha, mas não. A escriba espalha-se ao comprido num doloroso deslize, ela sim, coitada, não o Camilo Castelo Branco que continua a resistir ao desgaste do tempo e a ter leitores fiéis hoje em 2015. Escrevo esta breve nota numa casa de uma aldeia entre Proença-a-Nova e Oleiros. Vejo um livro de Camilo («Antologia Camiliana da Novela e do Romance») lado a lado com Mário Ventura («Vida e morte dos Santiagos») e com Júlio Dinis («Uma família inglesa»). Se aqui estivesse, Camilo, ao deparar-se com este deslize da pacalaia (feminino de vacão) havia de escrever algo como isto: «A estupidez é mais valente que a morte». Está na «Maria Moisés». Ou esta meditação sobre o pó e a posteridade em «Gracejos que matam»: «Este país não é para ninguém.» Quando em 1966 frequentei a tertúlia da Parceria A.M.Pereira na Rua Augusta (Ruben A., Romeu Correia, José Palla e Carmo, Luiz Pacheco, Natália Correia, Vasco Martins, Augusto Abelaira) todos eles amavam e respeitavam a obra de Camilo cuja edição popular eu comprava aos poucos: ganhava 30 escudos por dia e cada livro custava 15 escudos. Mas isso é outra história. --

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por José do Carmo Francisco às 09:18

Quarta-feira, 25.11.15

louvor para o rosto da mulher-menina na tarde de sol

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O teu rosto é uma bandeira de alegria na tarde de sol de Outono e há aqui, em frente a nós, jovens soldados prontos a seguir a tua rota em direcção à batalha. O teu olhar incita, a tua voz comanda, o teu porte altivo estimula os hesitantes e em pouco tempo se forma uma hoste guerreira que vai encher a estrada principal da vila antiga onde vives. Por aqui passaram em tempos soldados franceses a caminho de Abrantes: dizimaram vidas, saquearam adegas, roubaram cereais, destruíram tulhas de azeite. Mas o teu olhar de mulher-menina prefere a doçura da paz, convoca a alegria, empurra o sorriso de quem, como eu, espera um sinal. Perto de nós há uma azáfama na apanha da azeitona. Vem gente de longe, basta ver as matrículas dos automóveis parados na beira da velha estrada de Castelo Branco. Eles não contam as horas que passam dobrados sobre a azeitona, os sacos aos poucos cheios com o que está nos ramos cortados com o serrote. Depois de retirados os frutos negros que vão para o lagar, o que resta serve para alimentar as grandes fogueiras na tarde do sol de Outono. Passam camionetas de passageiros, saem estudantes a caminho de casa, a tarde começa a declinar, a monotonia da floresta de pinhal integra-se nos sons do Mundo quando os animais se tornam a ortografia sonora da tarde. Às dezassete horas chega a noite e toda a gente se recolhe a casa com os animais de pasto. No rosto da mulher-menina se integram os mundos da Geografia mas também da História. E da quotidiana versão de um desenho a preto e branco onde as sombras são mais frágeis do que a luz. E de uma partitura musical, de um cântico, de uma alegria todos os dias renovada na convocação que chega logo de manhã entre a tua casa e o teu escritório. O teu rosto de mulher-menina é uma bandeira de alegria. --

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por José do Carmo Francisco às 08:34

Terça-feira, 24.11.15

«a ambivalência do sagrado» de aurélio lopes

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Com o subtítulo de «Deuses e demónios nas terapias populares», este novo livro de Aurélio Lopes (n.1954) estuda o modo como o Povo Português viveu (e vive ainda hoje) no seu quotidiano a dupla inscrição de Deus e do Diabo. Por um lado Deus que o autor refere deste modo: «Pois se Deus é (por definição) bom, o Diabo (acredita-se) também não é mau.» A chamada astúcia popular existe e manifesta-se na frase «é preciso andar de bem com Deus e com o Diabo» ou também em «É preciso acender uma vela a Deus e outra ao Diabo». Mas, segundo o autor, o Diabo (ou Demo) «representa o contrapoder, a potestade marginal e obscura que se opõe aos poderes eclesiástico e temporal; o espírito rebelde, imoral e subversivo; o insensato que se opõe ao senso comum; o derradeiro socorro quando os outros se esgotam ou se mostram inacessíveis.» A este título tem muito de exemplar a situação vivida em 1870 quando o arcebispo de Braga soube da existência em Amarante de «um casal de Diabos» (ainda por cima fortemente sexualizados) e ordenou que fossem queimados por achar nefasta e escandalosa a convivência com os santos. Mas o prior limitou-se a mandá-los mutilar nos órgãos sexuais tendo eles passado a um canto da igreja até que o senhor Alberto Sandeman, cavalheiro inglês, prontamente os adquiriu por três libras de ouro, enviando-os para Londres onde fizeram furor. «Entretanto os amarantinos não se tinham conformado com a forçada emigração dos seus Diabos de estimação, clamando pela sua restituição. De tal forma que o então ministro dos Negócios Estrangeiros consegui que o senhor Sandeman devolvesse o casal de divindades , provocando o delírio nos amarantinos. Ao chegarem a Amarante , foram recebidos por Banda de Música, pelas entidades públicas, particulares e por uma multidão exuberante.» E conclui Aurélio Lopes: «este é um bom exemplo de devoção popular a diabolizadas potestades pré-cristãs perpetuando-se pontualmente através de tempos imemoriais até chegar, com particular vitalidade, aos nossos dias.» (Editora: Apenas Livros, Revisão: Luís Filipe Coelho, Direccão: Ana Paula Guimarães, Apoios: FCT, IELT e FCSH da Universidade Nova) --

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por José do Carmo Francisco às 22:18

Quarta-feira, 18.11.15

«as caldas de bordalo» de isabel castanheira

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Este livro grande (e grande livro) de Isabel Castanheira vem cumprir em 2015 um voto de João Chagas em 1906: «não uma história como as que tenho lido e que têm aborrecido como relatórios mas uma história viva, pitoresca, animada, comovente como é a de todas as iniciativas em que foi o gosto de um homem que lutou e venceu.» Essa história está, agora, feita mas não só. Apesar deste seu título («As Caldas de Bordalo») as suas páginas não se limitam à geografia das Caldas da Rainha nem à obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Nas suas 317 páginas a autora convoca o testemunho de figuras da política, das artes e das letras como Alberto Pimentel, Eça de Queirós, João Chagas, Ramalho Ortigão, Júlio César Machado, Fialho de Almeida, Bernardino Machado, Magalhães Lima e Raúl Brandão – entre muitas outas personagens do nosso século XIX. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) define-se em 1885 deste modo: «Eu não pertenço ao grupo monárquico porque este me chama revolucionário; eu não pertenço ao partido republicano porque este me alcunha de vendido! Nestes termos, não podendo ser nem político nem jornalista, vou fazer-me simplesmente operário, o que, afinal de contas, talvez venha a ser mais alguma coisa…» Isabel Castanheira tem um ponto de partida que é passear pelas rua e praças, travessas e jardins das Caldas procurando e encontrando a presença de Rafael Bordalo Pinheiro para assim organizar uma homenagem a um artista e «a um homem que gozou a vida e os seus prazeres, amou, sofreu e chorou e que, a respeito de tudo, soube rir e fazer rir.» As suas 97 crónicas que foram publicadas em primeira mão nas páginas da «Gazeta das Caldas» entre 2005 e 2013 (mais uma inédita e outra publicada em Óbidos) beneficiaram da arte final de Miguel Macedo. É esse encontro feliz entre texto e imagem que torna este livro algo de muito especial como objecto. Rafael Bordalo Pinheiro teve um quotidiano prosaico em Lisboa: visitava a Livraria Bertrand, passeava pelo Chiado, comprava charutos na Havaneza, almoçava no Zé das Caldeiradas, ia ao Teatro, causticava todas as semanas Fontes Pereira de Melo no seu jornal satírico «António Maria» - os dois primeiros nomes do chefe do Governo. Mas é sobre este homem discreto que Bernardino Machado afirma: «Hoje em Portugal, quase que o único castigo dos dirigentes é o ridículo» Fialho de Almeida em «Os gatos» considera-o «um dos génios criadores mais profundamente originais do mundo contemporâneo». E Raúl Brandão escreve: «Não conheço caricaturista que se lhe compare. No lápis dos outros há por vezes escárnio, ironia. Desespero, filosofia, maldade: o lápis dos outros amolga, envenena, destrói, faz gritar ou faz cismar: é talhado na prensa vermelha do gorro do Diabo molhado em fel. No lápis de Rafael Bordalo mistura-se o riso com a emoção. Até mesmo quando ridiculariza, este artista de génio faz amigos. Rafael Bordalo é uma força – o Riso.» (Editora: Arranha-Céus, Direcção de arte e desenho gráfico: Miguel Macedo, Fotografia: Edgar Libório, Revisão: Raul Henriques, Colaboração: Carlos Querido, Apoios: Câmara Municipal Caldas da Rainha, Montepio Geral, Crédito Agrícola e ACCCRO) --

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por José do Carmo Francisco às 08:49

Terça-feira, 17.11.15

«a dieta ideal» de francisco josé viegas

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O dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) terá escrito algo como isto que cito de cór: «é a sucessão das gerações que nos salva do vazio». Francisco José Viegas (n.1962) revisita neste seu livro de 71 receitas o espaço (paisagem e povoamento) de Trás-os-Montes, o mesmo espaço que já tinha povoado o seu livro de poemas «Se me comovesse o amor». As receitas deste livro nasceram nas honestas cozinhas da família, dos avós Álvaro, Isabel, João e Palmira, da tia Maria de São José, dos pais, isto num tempo em não havia «chefs» na televisão nem produtos ditos «biológicos» nas feiras das cidades para deslumbramento de gentes urbanas sem raízes nem referências e que, por isso, mais facilmente podem ser enganadas. As 71 receitas estão divididas em quatro grandes grupos: «Nem carne nem peixe» (19), «A leveza das coisas» (18), «As obsessões do arroz» (12) e «As grandes euforias» (22). Não deixa de ser curioso que o autor, tendo nascido em Foz Côa e vivido em Chaves, tendo família espalhada por uma Província onde há batatas magníficas e onde a castanha é rainha, mostre a sua especial predilecção pelo arroz a ponto de lhe reservar 12 receitas em 71. No entanto a batata não é esquecida na introdução do livro, na página 15: «a batata é o alimento com mais serotonina, a molécula da alegria». As batatas de Ramalho ortigão não faltam na página 31 mas são vastas as referências a grandes autores a começar por Camilo Castelo Branco e por Machado de Assis. O humor está presente em algumas frases deste livro. Na página 10, por exemplo, o autor afirma «as regras da Comissão Europeia sobre o calibre dos produtos agrícolas deviam ser levadas a tribunal». Por sua vez na página 13 escreve: «A verdade é que já vi pessoas comerem «delícias do mar» e, estranhamente, continuam vivas.» O próprio título do livro será irónico pois não existem (felizmente) dietas ideais sabendo nós que a gramática da nossa cozinha, a chamada gramática básica da nossa gastronomia nada tem de liofilizado pois engloba quatro elementos-chave, a saber: cebola, azeite, tomate e arroz. Produtos naturais, enfim. Concluindo: o ponto de partida é a cozinha da família mas o livro viaja com o autor pelo tempo e pelo Mundo e tem, por isso, receitas mexicanas, brasileiras e de outros lugares como Roma ou o Iraque mas também recolhe memórias como as do refeitório do Liceu de Chaves onde à quarta-feira se servia «rancho» e havia meninas que preferiam «filetes de pescada». E para terminar com outro sorriso, veja-se a página 13: «As mães não podem telefonar enquanto deixam comida ao lume». (Editora: Quetzal, Revisão: Teresa Machado e João Assis Gomes, Design da Capa/Composição e Imagem: Rui Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 13:15

Domingo, 15.11.15

«a palavraria» de francisco duarte mangas e maria err

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Os desenhos de Marie Err são bonitos, felizes e patuscos, um achado a acompanhar o sorriso que o texto de Francisco Duarte Mangas faz surgir nos leitores. O ponto de partida é uma conversa entre o narrador e o gato Karl. O primeiro dá ao segundo um conselho: «Ganha a vida a contar histórias. Vais de terra em terra, vendes imaginação.» O segundo recusa: «Eu não vendo imaginação.» Apesar de tudo, o negócio arranca quando o gato Karl diz: «Vou abrir uma palavraria» O mesmo será dizer abrir uma loja de lavar palavras. O gato avança embora o seu pressuposto esteja fora de moda: «a força da palavra mudará o mundo». O narrador adverte o gato: «Karl, tu ainda acreditas nisso?» Mas o gato está imparável e responde: «Nasci para fazer os outros felizes.» Porque ele é um gato diferente, obrigando os outros gatos a perguntar, murmurando: «Onde se viu gato amigo dos pássaros!» Karl é um gato diferente e recebe as visitas mais diferentes na sua «palavraria»: Rosa Luxemburgo e Herbert Marcuse, Amália Rodrigues e Matilde Rosa Araújo. Com Matilde o diálogo é vivo e parte de um passado triste («Para a tristeza não existe chá nem xarope») para sonhar um futuro feliz: «um dia inventaremos a vacina para a tristeza e para a saudade e todos os meninos até aos dois anos serão vacinados». A neve e a chuva vieram no Inverno e a «palavraria» fechou por um tempo mas o novo amigo de Karl (o cão Gorki, um simpático labrador) promete ser o fiel «segurança» da casa na Primavera que se aproxima. Recomendado a meninas e meninos com mais de oito anos, este é o nono livro de Francisco Duarte Mangas (entre originais seus e livros em co-autoria) na área da literatura infanto-juvenil, uma aventura que começou há anos com «O elefantezinho verde». Também autor de poesia e ficção, o seu primeiro livro («Diário de Link») recebeu o Prémio Carlos de Oliveira. (Editora: Caminho das Palavras, Capa: Marie Err) --

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por José do Carmo Francisco às 20:50

Sábado, 14.11.15

«porta azul para macau» de joão pedro porto

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Depois de «O rochedo que chorou» de 2011 e de «O 2egundo m1nuto» de 2012, João Pedro Porto (n.1984) surge com este «Porta azul para Macau» em 2014.A narrativa oscila entre o colectivo e o individual, o geral e o particular. Na página 106 afirma-se «Todos nascemos à mercê de deuses para os perdermos depois, à medida que os vamos sabendo falíveis e mortais; produtos das ficções que brotam das febres infantis.» Na página 258 outra afirmação: «Seria ficcionista. Por aqueles dias, ser-se escritor romancista ou de outra estirpe qualquer, era do mais perigoso que se podia ser. A ser um louco, seria, então, ficcionista.» O autor proclama na página 185 «Compreendo que não me é proibido algo de inesperado e é nesse registo de liberdade que darei azo à contaminação e à corruptela narrativa» e é nesse sentido de corruptela narrativa que surge a página 27 («Esta história nasce de uma visão que tantos outros de mim tiveram, de uma vivência muito peculiar de Alfama, das suas canadas e abismos») pois não existem canadas em Alfama tal como o uso de «solarengo» por soalheiro na página 44 pode ser visto como experimentação ou corruptela narrativa, isso mesmo. Na página 108 surge a palavra «geolhos» por joelhos, uma saída feliz para a ideia de submissão perante um pensador Eslavo. Numa Lisboa submersa pelas águas do Tejo, as colinas são ilhas e um grupo de sete jovens que proclamam um manifesto de 12 capítulos no jornal «Insular», convivem e juntam-se no Bar Macau. Os interlocutores da narrativa são 18 e todos registam uma dupla inscrição como pássaros. Os 27 capítulos estão datados entre 1909 e 1970 ou seja o ano anterior à queda da Monarquia em Portugal e o ano da morte de Salazar. Essa inscrição revela uma leitura do tempo colectivo embora esse tempo seja medido por um elemento individual; umas vezes o autor, outras vezes o narrador. As duas citações ajudam a situar a narrativa: a de Eduardo Bettencourt Pinto lembra Lisboa («No destino, o mar não existe. Só rios») e a de F. Scott Fitzgerald lembra Portugal: «E assim seguimos, os barcos contra a corrente, incessantemente puxados de volta ao passado.» O livro é dedicado a Fernando Lima (avô do autor) que na página final agradece os contributos de Mário de Campos Vidal, Cruzeiro Seixas e Brito de Medeiros Carvalho. (Editora: Letras Lavadas, Prefácio: Vamberto Freitas, Ilustrações: Vera Máximo, Design/paginação: Jaime Serra, Revisão: José Alfredo Ferreira Almeida, Nota de contracapa: Luiz António de Assis Brasil, Contracapa interior: Vamberto Freitas, Nuno Costa Santos, Eduardo Bettencourt Pinto e Urbano Bettencourt) --

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por José do Carmo Francisco às 18:24

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